Ontem à tarde finalmente nevou em Nova York – uma neve que só parou de cair esta manhã. Foi o primeiro dia de “tempestade de neve” deste inverno, e já bateu recorde dos anos recentes – com 14 polegadas 35 centímetros de neve segundo medições oficiais, é a maior precipitação desde 2003 (informações ouvidas na TV, então, sem links para fontes, sinto).
Mas digo “tempestade” entre aspas porque, na realidade, é algo bastante brando e fácil de lidar. Eu diria que é até mesmo uma bela mudança.
Nova York tem uma coisa interessante: apesar de não ser uma das regiões mais frias dos Estados Unidos (a temperatura média nas últimas semanas tem sido “só” 0ºC), ela acaba sendo vítima de um fenômeno bizarro – os túneis de vento que se formam entre os quarteirões, devido à forma como a maioria das avenidas e ruas foi criada (baseada num grid). Então é normal estar uma temperatura até suportável, mas dependendo de onde você está, você pega um vento frio absurdo contra você que faz a sensação de temperatura ser muito pior. Nesse sentido, as últimas semanas têm sido bastante instrutivas pra mim, Brasileiro acostumado a temperaturas mais amenas – você entende que a razão de alguém usar cachecol não é meramente estética, deixa de achar ceroulascalças térmicas engraçadas, compreende a diferença que agasalhos de verdade fazem, e aprende a diferença entre os doisprincipais tipos de luva (que são, também, bastante necessárias).
A parte mais interessante é que tudo isso parece mudar um pouco com a neve. Por algum motivo, com a neve, o clima ficou mais estável – os ventos simplesmente sumiram – e por isso, apesar da queda da temperatura e da neve que sobre o chão, é tudo muito mais suportável: você consegue ficar na rua com a cabeça descoberta, o que é um avanço descomunal em relação às últimas semanas.
É também interessante ver a reação das pessoas à neve. Em certo sentido, é uma grande chateação – é mais difícil de caminhar, serviços essenciais ficam prejudicados (a coleta de lixo, por exemplo, foi adiada esta semana), e você é obrigado a fazer uma série de coisas pra se livrar da neve (caso contrário, você pode ser processado se alguém, por exemplo, escorregar na sua calçada – coisas de um país litigioso). Imagino que dirigir nesses condições deve ser algo bizarro também.
Mas, ao mesmo tempo, o tapete branco traz consigo uma certa atitude positiva ao coração das pessoas. Começou ontem mesmo, quando andando por Manhattan, percebi a neve caindo (então uma poeira fina) e a reação de encanto na cara de boa parte dos pedestres. E hoje, em plena madrugada de domingo pós-tempestade, vi muito mais pessoas nas ruas do que de costume – muitas limpando a calçada, é verdade, mas várias também simplesmente paradas, olhando em volta e admirando a mudança.
A neve em si é muito do que me falaram; parece areia, em consistência, embora seja mais fofa. Você pisa em 30cm de neve e a coisa se reduz a uns 2cm de gelo. Daí o motivo de se fazer bolas de neve – você tem de amassar uma boa quantidade de neve na mão, até ela se solidificar o suficiente pra manter a forma. Do mesmo modo, como muito da neve é só ar, você entra em algum lugar com a roupa coberta de neve e depois de poucos minutos ela já evaporou, sem chegar a encharcar nada (botas razoavelmente à prova d’água são definitivamente necessárias pra andar na rua, no entanto, já que os pés têm de lidar com muito mais neve).
Não vi guerras de bolas de neve nem homens de gelo por aqui – é algo que seria bastante difícil, de certo modo porque não tem tantas crianças na região, e também porque comparado a outras regiões do país, a neve que cai aqui é muito pouca e durante pouco tempo (fica suja rapidamente) pra permitir a construção de grandes estruturas. Mas, ao mesmo tempo, ainda não visitei os parques do bairro ainda, então fica difícil de julgar só pela minha rua.
Vendo o frio que fez no final do outono e agora no começo do inverno, eu tava meio temeroso com a neve e o frio que ela iria trazer – com o vento frio é muito mais chato andar na rua, fazer qualquer tipo de exercício, ou simplesmente sair pra fazer alguma coisa diferente. Mas a mudança de temperatura sentida trazida pela neve, por enquanto, tem sido positiva.
Era uma vez um homem que vivia no litoral, numa cabana simples do lado de uma praia.
A praia vivia deserta, já que possuía muitas pedras, além de estar distante de qualquer estrada. Assim, na maior parte do tempo, gaivotas tomavam conta da areia.
O homem que vivia nesta praia adorava as gaivotas. Ele as considerava suas amigas, e frequentemente brincava com elas, fazia carinho nelas, ou simplesmente as observava. Todas as manhãs, centenas de gaivotas vinham lhe fazer companhia em sua caminhada diária, e isso o deixava feliz pelo resto do dia.
Um conhecido de uma cidade próxima, sabendo disso, veio ao homem e disse, “Eu ouvi dizer que as gaivotas adoram você, e que deixam você se aproximar delas sem fugir, ao contrário do que elas fazem com outras pessoas. Quero que você capture duas delas para mim, para eu poder fazer sopa de gaivota na janta. Vou lhe pagar muito bem.”
No dia seguinte, o homem foi para a praia e, como sempre, foi recebido pelas gaivotas, que o rodeavam. Rapidamente, para surpresa das gaivotas, o homem capturou duas aves pelo pescoço, e as levou para seu conhecido da cidade.
Seu conhecido ficou muito feliz de receber as gaivotas, e pagou uma quantidade considerável de dinheiro para o homem, como havia prometido. Assim, à noite, seu conhecido fez sopa de gaivotas, e a sopa era deliciosa. Ele disse para o homem, “Eu tenho um restaurante, e gostaria de servir esta deliciosa sopa de gaivota todo dia. Eu comparei todas as gaivotas que você me trouxer!”
O homem voltou para sua cabana na praia muito feliz, contando o dinheiro que havia ganho e fazendo planos para o futuro. “Se eu fizer isso só por um mês”, ele pensou, “ficarei rico!”
Na manhã seguinte, como de costume, ele caminhou em direção à praia, esperando ser recebido pelas gaivotas e capturar mais duas aves que ele poderia vender para seu conhecido.
No entanto, para sua surpresa, nenhuma das gaivotas se aproximou dele.
“Eu só quero brincar com vocês!”, disse o homem. Mas ainda assim, elas se mantiveram à distância dele, voando para longe quando ele tentava se aproximar delas.
Desolado, ele voltou para casa e resolveu tentar novamente no dia seguinte.
Na manhã seguinte, novamente, nenhuma das gaivotas se aproximou dele. Desesperado, ele até mesmo tentou correr atrás delas, capturando-as à força, sem sucesso.
Ele continuou tentando por uma semana, mas o mesmo se repetia todo dia. Ele não conseguira capturar nenhuma gaivota, já que elas não deixavam ele se aproximar.
Percebendo que o homem não conseguia capturar mais nenhuma gaivota, seu conhecido lhe disse, “Desisto da sopa de gaivota. É muito difícil capturá-las, e meu restaurante demanda regularidade no cardápio. Assim, não comprarei nenhuma gaivota de você, mesmo se você conseguir pegá-las.”
Na manhã seguinte, desolado, o homem andou em direção à praia para sua caminhada matinal. Ele já não queria capturar nenhuma gaivota. Só estava se sentido solitário e arrependido de ter feito o que fez, e precisava de um pouco de companhia.
Ainda assim, nenhuma das gaivotas se aproximou do homem.
Elas não brincaram com o homem, nem deixaram ele se aproximar. Elas mantiveram a distância.
Agora vou assumir o Philip Steffen que existe dentro de mim e falar: essa merda tá toda errada.
Hoje, no almoço, estava conversando com doisamigos daqui da Firstborn sobre cidades e meu discurso acabou, como sempre, caindo na explicação de como Nova York funciona melhor do que São Paulo, especialmente no quesito do espaço para as bicicletas – coisa que às vezes acabo esquecendo simplesmente porque já me acostumei com os costumes locais.
Andar de bicicleta em Nova York é muito melhor por três motivos: primeiro, porque tudo é mais plano; segundo, porque o trânsito dá mais respeito ao pedestre e ao ciclista (tráfego mais organizado, com mais espaço entre os veículos, e não tão baseado em vias expressas como em São Paulo); e terceiro, porque todo lugar tem ciclovias de verdade, que te levam de um ponto ao outro – ou melhor, ciclofaixas, já que o pessoal já entendeu que bicicleta é meio de transporte, e não só de lazer. Quer ver como a coisa é levada a sério por aqui?
E tudo isso que eles mostram no vídeo não é num canto ou outro não, é na cidade inteira.
Não vou discorrer muito sobre o assunto porque já nem faz mais sentido. Mas comprei uma bicicleta logo nas primeiras semanas que cheguei aqui e vou falar: é outra coisa.
São Paulo é refém dos automóveis, e aparentemente vai continuar sendo assim pra sempre, muito embora seja um meio de transporte mais saudável e eficiente mesmo na irregular topografia paulista. Quando você espera ver um secretário, vereador, engenheiro, ou seja o que for da prefeitura andando de bicicleta nas ruas?
Como bom engenheiro de software, eu diria que tem de botar tudo abaixo e começar do zero – não tem refactoring que salve mais. Difícil acontecer, no entanto.
Mas tudo bem. Quando o apocalipse chegar, só as bicicletas sobreviverão.
Antes de me mudar para a terra imperial, uma das coisas que sempre me intrigaram eram as cervejas da cidade. Eu sempre via amigos que moravam nos Estados Unidos discutindo suas cervejas preferidas de forma ferrenha, como quem discute um jogo do time de futebol do coração (ou uma marca de vinho, dependendo do seu contexto social).
Sempre achei aquilo uma tremenda babaquice, simplesmente porque, na minha opinião, todas as cervejas sempre tiveram o mesmo gosto. Legal pra refrescar e tal, comer com um churrasco, mas só. No entanto, como não podia beber com eles pra saber se aquelas discussões realmente tinham cabimento, acabava relevando e evitando assumir um lado na discussão. De repente era algo do clima que fazia as cervejas terem sabor diferente, sei lá.
Foi só quando cheguei aqui que saquei o que eles queriam dizer. Não era nada a ver com o clima – na verdade, o lance todo das cervejas por aqui é uma questão de contraste.
Isso quer dizer que aqui tem uma diferença muito maior – de sabor, ingredientes, viscosidade, seja o que for – entre as cervejas encontradas. Mais do que isso: ao invés do mercado ser dominado por duas ou três marcas principais, como acontece em São Paulo, o que você encontra são dúzias de marcas diferentes que são vendidas normalmente. Você vai num mercadinho qualquer e já acha uma dúzia de marcas de cerveja diferente. Vai numa loja especializada, e acha centenas (sem exagero).
Sabe aquela coisa que alguns bares em São Paulo têm, de oferecer só cerveja de uma mesma marca, devido a alguma parceria do estabelecimento com o fornecedor? Aqui, seria impensável. Até existe aquela coisa dos bares terem só umas 6 ou 7 cervejas específicas, mas é mais pela logística da coisa.
Devido a isso, posso dizer hoje que comecei a gostar de verdade de cerveja. Não é aquela coisa de tomar pra refrescar, mas sim de tomar porque o sabor é bom e tomar cerveja na janta. A ponto de eu até ter um ranking pessoal de marcas – algo mais ou menos assim:
Enfim, sempre vai ter uma cerveja que você gosta mais. Tem cerveja pra todos os gostos, tenho certeza – meu ranking pessoal coincide pouco com o de meus amigos.
Outra parte engraçada é que praticamente não existe distinção entre cervejas nacionais, importadas, ou extremamente locais (de cervejarias de bairro) por aqui. Todas competem pelo mesmo espaço da mesma forma e com aproximadamente o mesmo preço. Sabe aquela coisa da propaganda da gostosa na praia fazendo de conta que bebe cerveja? Também impensável. Até existem propagandas na TV, mas comparativamente, a presença das grandes marcas tipo Budweiser parece ser minúscula no mercado de Nova York.
Quando eu voltar pra São Paulo, tenho certeza de que uma das coisas que mais vou ter problemas pra me re-adaptar é na hora de tomar cerveja. Talvez eu esteja sendo muito maldoso, ou talvez meu gosto que tenha sido prejudicado por algum vírus implantado pelo governo Norte-Americano, mas hoje posso dizer que as cervejas brasileiras parecem uma piada comparadas às que são encontradas por aqui.
New York, I Love You: uma série de histórias curtas sobre pessoas que vivem em Nova York – cada uma dirigida por um diretor diferente – se entrelaçando de modo a criar uma história maior. Despretencioso, engraçado, e às vezes tocante. Recebeu críticas meio negativas, principalmente com relação a alguns dos diretores, mas eu adorei. Muito recomendado.
Where the Wild Things Are (no Brasil, “Onde Vivem os Monstros”): história insossa (basicamente o filme todo é para crianças), mas muito bem feito, e com um potencial enorme de se tornar um novo História Sem Fim ou Labirinto para a Sessão da Tarde (ou equivalentes de outros canais) no futuro. E apesar de ter saído um pouco decepcionado do cinema, amigos meus (locais) que leram a história em sua forma original gostaram bastante da adaptação.
Esta é a página pessoal de Zeh Fernando. Este é um website criado para amigos e familiares; se você não me conhece, você provavelmente não deveria estar aqui – nada vai fazer muito sentido. Para mais informações, visite minha página normal (em inglês).
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