Promessas de ano novo

by Zeh on January 2, 2012

Não sou muito de fazer resoluções ou promessas de ano novo, mas decidi fazer uma este ano: tirar uma foto de Nova York por dia. E criei um blog separado no tumblr, chamado “366 dias em Nova York”, pra isso. A idéia é tirar uma foto por dia e escrever uma breve descrição do que está retratado na foto do meu ponto de vista de Paulistano.

Agora que já postei duas fotos diferentes, o interessante é perceber que sair com a câmera na mão acaba rendendo dezenas de oportunidades diferentes para ótimas fotos. É um exemplo extremo da efemeridade fotográfica proporcionada pelas câmeras digitais: saio com a idéia de tirar só uma foto boa, mas acabo sendo obrigado a selecionar entre uma dúzia de ótimas opções. Estou tendo de me segurar na hora de tirar as fotos, investindo num assunto de cada vez e guardando algumas idéias para outros dias.

Vamos ver por quanto tempo consigo manter a idéia.

Confissões da selva de pedra

by Zeh on November 21, 2011

Existe algo sobre andar em Nova York que me fascina e me refresca a mente.

New York, 3rd Ave

Talvez sejam as luzes, talvez os prédios, talvez a quantidade de pessoas que você sempre vê caminhando.

New York, 3rd Ave

Talvez seja a similaridade com São Paulo, e o reconhecimento que me traz memórias do período em que me mudei de volta pra Sampa pra fazer o segundo grau.

New York, 3rd Ave

Talvez seja a facilidade de locomoção, que faz com que a caminhada seja algo que você faz com prazer ao invés de ser só mais um passo numa longa viagem.

New York, 3rd Ave

Talvez sejam os turistas, que de certo modo, com sua falta de direção, fazem com que você sempre veja a cidade com novos olhos.

New York, 3rd Ave

Talvez seja o fluxo constante, fazendo com que pequenas mudanças – como um novo andaime numa calçada que você já conhece, ou a remoção do mesmo, revelando uma nova fachada – seja algo surpreendente.

New York, Flatiron Building

Talvez seja diferente com outras pessoas. Cada um vai ver esta cidade, e mesmo outras cidades, de um jeito diferente. Mas a independente das razões, a verdade é que andar por Nova York (a qualquer hora do dia) sempre me deixa em ótimo humor. Muitas vezes, depois de um dia stressante, ou uma semana cansativa, acabo sendo surpreendido com o quanto os edifícios ao meu redor conseguem elevar meu espírito. É algo difícil de explicar, mas mesmo hoje, após mais de dois anos vivendo aqui, é reconfortante perceber que esse efeito reinvirogante não se dissipou.

Histórias em quadrinhos

by Zeh on November 16, 2011

Se tem um produto de consumo do qual sinto falta por aqui, é de histórias em quadrinhos.

É uma coisa estranha de se dizer, já que a indústria dos quadrinhos mundial Norte-Americana é uma das mais produtivas do mundo, e já que o mercado consumidor aqui é enorme.

A origem desse meu problema, no entanto, é uma questão prática curiosa: em São Paulo, era um ritual praticamente diário meu ir na banca de jornal ver quais eram os novos quadrinhos disponíveis (na banca de jornal do meu bairro, ou na banca de jornal em frente ao Conjunto Nacional, na Paulista). Eu sempre acabava voltando com algo novo; geralmente, alguma nova edição dos muitos mangás que eu lia regularmente, ou de alguma série do selo Vertigo.

Mas, por aqui, é difícil achar bancas de jornal que vendem quadrinhos em qualquer esquina; elas não são tão comuns. E, mesmo quando são (alguns locais têm grandes concentrações delas), as ofertas de quadrinhos são bem limitadas.

Existem enormes lojas especializadas, como a Forbidden Planet ou a Midtown Comics. Mas é aí que fica óbio um contraste estranho: ao contrário do Brasil, o mercado de quadrinhos por aqui acaba sendo um nicho, excluído do mainstream – você tem uma oferta bem maior de títulos, mas em locais específicos. Você tem de querer ir numa loja de quadrinhos pra se deparar com as revistas.

E é nesse ponto que outro bloqueio acaba sendo criado: existe tanta coisa pra ler que acabo caindo numa paralisia de opções que faz com que eu não acabe lendo nada. Ainda me lembro da primeira vez que visitei a Midtown Comics, na minha primeira semana em Nova York: passado o choque inicial, saí sem comprar nada, já que era muita coisa disponível. Na minha rotina paulistana, em contrapartida, as opções eram tão poucas que era fácil separar o joio do trigo.

Além disso tudo, quando vim pra cá, acabei fazendo uma lista de todas as séries que eu estava seguindo regularmente, e oo número da última edição que havia comprado. A intenção era chegar aqui e continuar lendo as histórias, sem perder a sequência. Existem alguns poréns, no entanto: algumas das séries que eu ia no Brasil não são publicadas por aqui; às vezes elas são publicas por aqui, mas estão com a cronologia atrasada (mangás, por exemplo, chegavam mais rapidamente no Brasil) ou adiantada; ou, finalmente, a numeração pode ser diferente devido ao formato e número de páginas publicado por edição, o que me impede de simplesmente continuar a leitura de uma história.

O resultado final é que muito raramente leio quadrinhos hoje em dia. Desde que cheguei aqui, acho que só li algumas edições da Heavy Metal (a grande exceção, aliás, já que ela é encontrada em várias bancas de jornal) ou reedições que não tinha conseguido completar no Brasil (há alguns meses atrás, por exemplo, re-adquiri Preacher, uma das melhores séries que já li, só pra ter o prazer de ler na língua original).

Pra mim, o ritual de ir na banca de jornal e ver quais títulos estavam disponíveis era tão importante quanto a leitura das revistas. Mas, por aqui, acho que preciso me acostumar a fazer assinaturas online. E fazer download de um monte de séries pendentes pra terminar de ler.

O que há num simples nome

by Zeh on November 15, 2011

Aqui em Nova York, eu tenho uma dificuldade imensa em lembrar nomes. Acabo confundindo nomes de pessoas, trocando o nome de alguém por algum nome completamente diferente, ou simplesmente esquecendo-os completamente.

Nunca vi nenhum material acadêmico a respeito, mas a minha teoria pessoal é de que gravamos nomes através de sílabas, de forma sonora, lembrando a sequência fonética do nome de cada pessoa ao invés de como o nome é escrito. E como, em português, estamos acostumados com um conjunto mais ou menos uniforme de sílabas – alfabeto silábico que é usado pra composição de nomes é meio limitado – esse método de recordação acaba vindo abaixo quando as sílabas a serem lembradas são mais incomuns.

É algo estranho de descrever, mas na prática, é como se certos nomes simplesmente não gravassem na minha mente. Como resultado, desde que cheguei aqui, passei por várias situações lamentáveis de esquecer nomes, confundir sílabas, ou trocar nomes por completo.

Imagino que, com o tempo, vou construir novos modelos de recordação baseado nas sílabas mais típicas localmente. Mas, enquanto isso, pra lembrar certos nomes, acabo sendo obrigado a criar uma narrativa mental que me permite reconstruir a palavra baseado em certos parâmetros. Pra mim, um dos nomes mais difíceis de lembrar, por exemplo, é Camiel, nome de um colega de trabalho de origem Holandesa. Simplesmente não consigo me recordar do nome imediatamente; acabo lembrando que o nome dele é parecido com o nome da minha irmã (Camila), mas com as duas letras no final trocadas, e, a partir daí, lembrando o nome real. A parte ruim é que acabo gastando um tempo nesse processo, então às vezes acabo gastando segundos lembrando o nome de alguém.

No entanto, ontem, andando pelas ruas de volta a meu apartamento no final de um dia de trabalho, percebi uma coisa curiosa: consigo me lembrar dos nomes das ruas de forma muito mais fácil por aqui do que conseguia no Brasil. Sei o nome de todas as ruas ao redor do meu apartamento, de várias ao redor do edifício onde trabalho, e o nome de inúmeras ruas na cidade; em contrapartida, em São Paulo, eu sabia o nome de poucas vias, e mal lembrava as ruas que faziam esquina com a rua onde eu morava. O meu mapa mental de uma região era tão rico quanto aqui, mas eu simplesmente não sabia o nome das ruas.

Pensando um pouco no assunto, acho que existem duas razões pra isso. A primeira, e mais óbvia, é que muitas das ruas e avenidas são numeradas, então é mais fácil se lembrar de um simples número e construir um modelo mental que permite a você identificar a ordem das ruas, principalmente nas regiões da cidade baseadas no grid típico local; como eu moro entre a South 2nd e South 3rd no Brooklyn, por exemplo, sei que a rua ao sul é South 4th, ao norte South 1st, e por aí vai.

A segunda, igualmente importante, é que os nome das ruas são mais curtos; é extremamente raro as ruas ou avenidas usarem nomes compostos. Pode parecer bobagem, mas nomes como Driggs, Bedford, Walker,  ou Canal, são muito mais fáceis de serem lembrados do que Paes de Barros, Irmã Carolina, Engenheiro Dagoberto Gasgow, ou outros nomes comuns no Brasil.

E, aqui, percebo um detalhe interessante: apesar dos nomes usarem as mesmas sílabas que me criam problemas na hora de lembrar nomes, eu consigo me lembrar dos nomes de ruas facilmente porque me lembro das placas das ruas. Ao invés de sonoro, é um modelo de recordação baseado em padrões visuais, o que faz com que a lembrança seja mais fácil. Só percebi isso ontem, pensando no assunto enquanto andava: sempre que preciso me lembrar do nome de uma rua, lembro de como a placa da rua se parece, com fundo verde e tudo mais.

Imagino que essa dificuldade em lembrar nomes mais longos é provavelmente a razão pelo qual é comum usar um nome mais curto quando nos referimos a certas vias em São Paulo.

Um dia, sentado num ônibus, esperando a minha parada, alguém me perguntou se aquele ônibus passava na Brigadeiro. Eu disse que sim, que era no próximo ponto (o ônibus se aproximava da Brigadeiro Luis Antônio). A pessoa desceu, contente. Meia hora depois, quanto o ônibus passou pela Brigadeiro Faria Lima, engoli em seco e me indaguei se a pessoa tinha descido no ponto certo.

Halloween em Nova York

by Zeh on October 29, 2011

Não acredito que não postei sobre isso ainda, mas: em Nova York, o Halloween (celebrado no final de outubro) é coisa séria.

Existem vários costumes locais ligados à data. Diferentemente de outras partes do país, não é tão comum ver as crianças saindo pra visitar casas pedindo gostosuras ou travessuras (trick-or-treating, no dialeto local), mas outras características típicas da festa são bem fortes por aqui.

Uma delas é o costume de sair por aí vestindo alguma fantasia. Assim, nessa época do ano, apesar do frio, é bem comum ver pessoas andando fantasiadas na rua (a caminho de alguma festa, ou mesmo indo pro trabalho durante a semana), culminando com o desfile de rua no dia 31 de outubro (quando é normal ver praticamente todo mundo fantasiado na cidade).

As primeiras vezes que me deparei com a festa local foram surpreendentes. É algo esquisito, mágico e divertido ver a cidade tomada por caracteres dos mais diversos tipos. É uma festa realmente popular e algo que me lembra muito as convenções de RPG ou Anime que costumava ir em São Paulo, mas numa escala muito maior. Também me fantasiei nas edições passadas da festa, indo inclusive trabalhar fantasiado (ou semi-fantasiado) no dia anterior à festa.

Ao contrário dos 2 últimos anos, este ano não tenho nenhuma festa planejada. No entanto, tive um gostinho desse aspecto do Halloween quinta-feira passada, quando alguém na empresa onde trabalho teve a idéia de fazer todo mundo se vestir como um dos diretores de nossa empresa. Veja o resultado abaixo, com o original e suas cópias:

Não estou na foto acima, mas tirei a (horrenda) foto abaixo. Peço que me desculpem.

No mesmo dia, tivemos um concurso de fantasias no escritório. Pra quem considera a cultura Norte-Americana mais austera, existe algo de surpreendente em ver pessoas andando fantasiadas pelo escritório como se nada demais estivesse acontecendo.

O segundo aspecto do Halloween que é bem comum por aqui é o costume de fazer gravuras em abóboras. Você basicamente remove o interior da abóbora, faz desenhos na superfície com uma faca, e acende uma vela dentro do leguminoso.

Eu nunca havia feito um desses antes, mas desta vez, graças a um presente de meus amigos Don e Mike, eu e a Meagan tínhamos duas abóboras pra talhar.

Depois da abóbora ser aberta e limpa, o próximo é a escolha do desenho a ser escavado na abóbora (geralmente, algum tipo de face). Talvez não muito sabiamente, escolhi o desenho abaixo, o famoso troll face:

O problema é a quantidade de detalhes que o desenho exige, e o fato de que ele tem de ser feito com buracos na abóbora – ou seja, ele não pode ter itens vazados.

De qualquer forma, o próximo passo foi transferir o desenho (om hidrocor) do computador pra abóbora, e cortar as laterais do legume com uma faca afiada (da forma mais fiel possível).

O resultado final deve ser apreciado no escuro; abaixo, o produto final da minha abóbora e da Meagan.

O normal, após entalhar as abóboras, é deixá-las do lado de fora de casa, normalmente decorando a entrada de sua casa ou prédio. No nosso caso, escolhemos deixá-las dentro de casa mesmo, como decoração temporária, já que elas não vão durar muito tempo.

Foi um processo bastante divertido e algo que espero repetir todo ano – mas, da próxima vez, provavelmente com algo que requer menos linhas e que possa brilhar mais.

Neve logo cedo

by Zeh on October 29, 2011

Começou a nevar em Nova York, dois meses antes do esperado, surpreendendo muita gente.

Ontem eu já tinha visto avisos de que poderíamos ter neve este final-de-semana e não tinha acreditado, já que a neve costuma só chegar aqui mais pro final de dezembro (além dos weather advisories terem a tendência de fazer qualquer coisa soar como o fim do mundo). Culpa da instabilidade climática trazida pelo aquecimento global? Vai saber.

A surpresa de ver a neve caindo neste terceiro inverno que passo aqui me fez lembrar a primeira vez que vi a neve caindo. Lembro que, na época, eu acordava todo dia e abria a janela pra checar se neve tinha caído durante a noite – afinal, estava ansiosamente esperando meu primeiro contato com neve.

A primeira neve só acabou acontecendo no final de dezembro quando, saindo do trabalho às 4 da tarde, e andando por Manhattan, vi o que parecia uma poeira caindo do céu. Demorou um tempo até eu entender que aquilo era neve. Turistas sorriam e tiravam fotos ao meu redor, surpresos. E isso pode soar babaca, mas foi um momento bastante emocionante pra mim (influência de filmes de Hollywood que retratam inverno em Nova York, aposto).

Acabou nevando pra cacete e cobrindo a cidade de neve durante a noite.

Imagino que esta neve que estamos vendo aqui hoje é o que é chamado de flurry – uma neve de verdade, mas que, devido à temperatura, acaba não se acumulando muito. O clima aqui já está frio, mas a temperatura ainda está acima dos 0 graus celsius, então a tendência é a neve derreter assim que chega no chão.

Ainda assim, a quantidade de neve que está caindo é bem grande; só está nevando há aproximadamente uma hora, e a rua parece estar passando por uma nevasca típica de dezembro.

É uma situação interessante; é como se eu não me lembrasse mais o que é ter de trafegar pela neve em Nova York, já que a última vez que tive de fazê-lo foi há quase um ano atrás. Hoje moro mais longe do metrô (uns 10 minutos de caminhada; ano passado, era só uns 2 minutos) então o inverno vai ter um impacto maior na minha rotina desta vez. E por mais estranho que isso possa soar, mal posso esperar; gosto das mudanças de estações.