Pense duas vezes antes de abrir a próxima porta
by Zeh on August 18, 2009
Em Nova York, todas as fechaduras são de cabeça-pra-baixo.
Isso é uma coisa que reparei no meu apartamento temporário (no qual passei o primeiro mês): em todas as fechaduras, eu tinha de usar a chave ao contrário do que eu estava acostumado. Não liguei; era um prédio meio antigo, as fechaduras deviam ter sido instaladas erradas, coisa típica de se encontrar em qualquer canto.
Quando me mudei pro meu novo apartamento – desta vez, um prédio novo – me surpreendi ao perceber que ali, também, a fechadura estava de cabeça-pra-baixo. Foi aí que reparei: o nome do fabricante gravado na fechadura estava corretamente orientado, e era perfeitamente legível. A fechadura não estava de cabeça-pra-baixo; era pra ser daquele jeito mesmo.
Às vezes não é a fechadura que está de cabeça-pra-baixo, só nossas expectativas.
Pequenas coisas (II)
by Zeh on August 7, 2009
Se a mudança pra um apartamento temporário mobiliado já é meio esquisita, imagina mudar pra um apartamento novo vazio.
Semana passada me mudei pro que considero o meu apartamento mais ou menos definitivo – o apartamento que devo ocupar pelo próximo ano (já que é o que diz o contrato que assinei). Ao contrário do meu apartamento anterior, que era mobiliado (já que era preparado pra residentes temporários), esse é um apartamento normal, então não tem mobília nenhuma. Pior (ou melhor), é num prédio recém-construído, o que quer dizer que o apartamento não tem absolutamente nada – nada de cortinas nas janelas, por exemplo. O que é um problema, já que as janelas desse apartamento dão pra rua.
Se já era um choque perceber que você precisava de esponja e que não tem nenhuma, imagina estar num apartamento sem absolutamente nada. É tipo viver numa casca oca. Se olho meu apartamento hoje, dá impressão de que um mendigo invadiu o lugar, dada a quantidade de tranqueiras jogadas pelo chão do que normalmente seria um apartamento bem arrumadinho.
Mais importante, a mudança pra esse apartamento também tem funcionado como experiência de compreensão de todo o ecosistema envolvido na preparação e manutenção de uma residência comum, principalmente quando você se muda pro lugar sem nada (ou, como no meu caso, só com um pouco de roupa, um laptop, e alguns outros itens essenciais).
Pra explicar por partes: eu tinha um problema (janelas sem cobertura) que deveria ser resolvido. A solução escolhida, então, foi instalar persianas nas janelas.
O primeiro passo foi dar um pulo numa loja de tranqueiras aleatórias – existem milhares dessa por aqui – e comprar persianas, que eu já sabia que existiam à venda. Persianas compradas, levo-as para casa para a instalação. Desmonto, vejo as instruções (horrivelmente mal escritas por sinal) e percebo que preciso de… uma furadeira para montar as persianas. Não tenho nada disso. Provavelmente estava imaginando que as persianas usariam algum outro método mágico de fixação.
No dia seguinte, compro a furadeira (de novo, numa loja de tranqueiras aleatórias) e levo pra casa. Feliz e contente, vou finalmente instalar minhas persianas, e percebo que… não tenho nenhuma ponta para furadeira. Burro eu, não fazia nem idéia de que precisava disso. Achava que a furadeira já vinha com as tais pontas.
No dia seguinte, visito mais uma das minhas lojas favoritas de tranqueiras (já num ponto em que virei sócio de carteirinha), compro pontas de furadeiras de vários tamanhos. Chego em casa, pronto pra instalar 30 persianas, e percebo que… as pontas que comprei são para furar em madeira, mas eu preciso de pontas para furar parede (aqui, chamados de drywall, que são compostos de gesso).
No dia seguinte, compro as pontas de furadeiras para drywall, chego em casa já na ânsia, furo as paredes feliz e contente, e instalando as persianas, percebo que… comprei persianas do tamanho errado, ficam faltando umas polegadas na base. Vai contra minha natureza deixar as persianas assim, então desencano e resolvo nem continuar a instalação. Sorte que só tinha comprado persianas pra 2 (das 4) janelas.
No dia seguinte, resoluto e confiante no sucesso, chego em casa com persianas novas do tamanho certo, furo a parede, aparafuso tudo, arrumo as persianas, e finalmente tenho janelas bonitinhas.
É meio bobo, mas poucas coisas na vida me deram mais orgulho do que finalmente instalar essas persianas.
Demora um tempo, mas chega-se lá.
Papinho para inglês ouvir
by Zeh on July 29, 2009
Quando aprendemos inglês numa escola, dificilmente aprendemos as palavras realmente comuns, do cotidiano. Pode parecer estranho, mas a verdade é que o vocabulário do papinho do dia-a-dia é tão efêmero, e tão dependente da localização, que é impossível pra qualquer curso passar uma experiência real de conversação. Você aprende que lata de lixo é trash can, porque esse é o termo genérico (e que está no desktop do computador de todo mundo), mas aí você vai conversar com alguém, fala trash can e a pessoa te olha de um jeito estranho porque na verdade o que você deveria ter falado é litter basket (Nova York, depende do contexto), lit bin (Austrália), ou alguma outra coisa.
Obviamente, o mesmo acontece com o português – as mesmas palavras têm significados diferentes, e as mesmas coisas têm nomes diferentes. Paneleiro no Brasil é cada que vende panelas; em Portugal, seria o equivalente a bicha. Em Portugal, você não usa um mouse e um monitor no seu computador, e sim um ratinho e um ecrã. As pastas ou diretórios do seu micro? Ficheiros.
Existem diferenças locais até: grelha, em São Paulo, é “um utensílio culinário utilizado para assar ao fogo ou na brasa diferentes tipos de carnes e vegetais” (valeu Wikipédia), mas em alguns estados do Brasil (não lembro quais) e em Portugal (novamente), quer dizer largada (aparentemente uma transliteração de grid). Ou um exemplo pior, farol. Farol em São Paulo é o mesmo que semáforo. Mas nunca diga pra um Carioca em São Paulo “virar à esquerda no farol”. Ele vai sair andando a esmo até chegar no litoral, provavelmente pegar um barco e aí finalmente virar à esquerda no farol.
O resultado dessa salada é que usar uma língua no dia-a-dia acaba sendo, em parte, mais difícil do que usá-la mais formalmente. Essa é mais ou menos a história do meu aprendizado do inglês: como acabei aprendendo muito através da leitura de livros, tenho um bom vocabulário e tal, mas quando chega na hora do chit chat, a coisa fica braba. Consigo escrever um trabalho acadêmico mas na hora de trocar idéia com alguém, emperro nas coisas mais bobas.
Isso rende alguns momentos engraçados até eu descobrir o nome correto das coisas por aqui.
Eu recentemente aluguei um apartamento, e precisava medir a largura dos cômodos pra poder comprar móveis que coubessem dentro do espaço disponível. Então hoje fui comprar uma fita métrica (ou trena, ou metro) pra medir as distâncias, só que eu não sabia qual o nome do treco em inglês. O papo foi mais ou menos assim:
– Hi, I need to buy something… to measure distances… it’s like a tape, but with inch measurements… I don’t know the correct name.
– Oh, you want a measuring tape.
Vários dos nomes de coisas por aqui são assim, bem descritivos, óbvios, mas até você saber qual o correto, não dá pra se fazer entender sem uma longa explicação.
Talvez nós que tenhamos muitos nomes em português (de onde vem “trena”?) e isso acaba provocando um choque, mas é comum eu perguntar pra amigos meus como se chama algo, só pra descobrir que não tem um nome específico. Por exemplo, eu queria descobrir qual o nome local para box (aquele vidro do banheiro que fica em volta do chuveiro) já que queria poder falar sobre isso na hora de alugar um apartamento. Fui perguntar pra um amigo (nativo) esses dias via MSN:
<zeh> also, what’s the name for that glass wall people have on bathrooms around the shower area?
<don> no name.
<don> just a shower door.
<don> or glass shower door
Ou, pior ainda, quando perguntei pro mesmo cara qual era o nome dado aos vidros laterais do carro. Disse pra ele que nós chamávamos aquilo de glass (vidro).
A resposta? Window.
É díficil não se sentir uma anta às vezes.
Restaurantes do dia-a-dia em NY
by Zeh on July 28, 2009
As pessoas gostam de dizer que São Paulo é a capital da gastronomia sabe-se lá de onde, mas pra quem gosta de comer, vou falar uma coisa: NY é o lugar.
Eu sou meio suspeito pra falar, já que não sou nenhum gourmet e não saí testando nenhum restaurante Francês, Italiano, Croata ou Indiano pra ver qual tem o melhor tempero, vinho ou seja o que for. Mas pra quem, como eu, gosta de comer qualquer coisa por aí, o lugar é animal. Em Manhattan, você dá dois passos e tropeça em algum lugar sensacional.
Em São Paulo existem lugares legais, lógico. Mas a impressão aqui é que qualquer lugar meia-boca que você acha já é equivalente ao melhor que você encontrava em São Paulo – especialmente verdade em relação a comidas urbanas tipo hamburgeres, saladas e sanduíches.
Da mesma forma, por algum motivo, praticamente todo lugar parece ser extremamente convidativo – como se fosse um restaurante de bairro, por mais que esteja no meio do burburinho de Manhattan. Acho que isso tem um pouco a ver com a cultura local e, por mais estranho que possa parecer, porque o público tende a ser avesso a cadeias de restaurantes conhecidos. Você encontra restaurantes pequenos, únicos, desconhecidos, e mesmo assim populares, em todo canto. Não é aquela coisa do cara montar um restaurante e falir só porque ninguém nunca ouviu falar da marca.
Com tantas e tão boas opções, é inevitável dar aquela impressão de que os Norte-Americanos são obesos porque têm tantas opções, etc e tal. Tem uma mítica. Mas a surpreendente verdade sobre Manhattan é que a coisa é exatamente o contrário; talvez pela qualidade da comida (muita salada, muito suco, pouco ou nenhum óleo ou gordura), e talvez pelo fato de que você tem de andar muito, a impressão é de que a população em geral é bem saudável. Acho que você encontra sim mais gente acima do peso ideal do que você encontraria em São Paulo, mas é uma diferença muito pequena.
Pessoalmente, eu ando comendo mais do que nunca desde que cheguei aqui. Mas, ao mesmo tempo, posso dizer que estou super saudável – com o mesmo peso de quando saí de São Paulo (72kg), e na verdade até um pouco abaixo – e andando pra caramba. Não digo “andando como nunca” porque eu sempre fui um cara chegado em caminhar, mas a cidade realmente te leva a andar demais (às vezes até sem que você perceba direito) e a subir e descer muitas escadas (praticamente nenhum metrô daqui tem escadas rolantes, por exemplo, ao contrário da imagem que geralmente fazemos dos gringos).
Falando sobre restaurantes específicos, e na categorias de boas surpresas, o Lenny’s é provavelmente o lugar que mais me surpreendeu. De certo modo, não é nada de mais – basicamente, uma cadeia de restaurantes que vende sanduíches e saladas, estilo o Subway. Mas o lugar faz alguns sanduíches realmente deliciosos, bem servidos e com um bom preço (a média aqui é gastar uns US$ 10,00 com almoço). Me apaixonei pelo lugar e vou lá sempre que posso.
E talvez a grande exceção que vai contra o que eu disse sobre cadeias, uma que é onipresente por aqui e ainda assim mantém uma boa qualidade é o Subway. Antes de chegar aqui eu tinha ouvido falar que existiam muitos Starbucks em Manhattan, mas a verdade é que vejo umas 4 vezes mais Subways do que Starbucks – realmente estão em todo canto, não só na cidade como no bairro. E, mais importante, fazem um sanduíche bem legal. Infelizmente fazem muitos anos que não vou nos Subways de São Paulo então fica difícil comparar, mas aqui a coisa é boa, bem fresca, e com a customização do sanduíche praticamente obrigatória (outra característica de muitos lugares por aqui).
Já hamburgeres são uma questão à parte. Talvez por ser um prato típico da região, todos os hamburgers de verdade que comi por aqui são pelo menos do mesmo nível que os melhores que comi em São Paulo (em lugares como Fifties, Fridays, Outback, etc). De certo modo porque muitas das cadeias que encontramos no Brasil também estão disponíveis aqui (a única que testei por enquanto foi o Applebees – equivalente ao Brasileiro), mas mesmo bares (Murphy & Gonzalez), lugares do “calçadão” de Coney Island (Nathan’s) e restaurantes especializados locais (Schnippers, Five Guys) têm hamburgeres sensacionais. Pra alguém que gosta de matar uma vaca por dia, a cidade é ótima.
Mas na questão de hamburgeres, a única exceção talvez fique com as cadeias de fast food mesmo. Pra quem não sabe, as cadeias conhecidas dos Brasileiros – McDonald’s, Burger King, etc – são vistos como lugares ruins de se comer por aqui. E com razão – de certo modo, eles geralmente miram em consumidores de baixa renda (são muito fáceis de se encontrar na periferia), e são mais mal-tratados do que seus equivalentes brazucas: não são todos, mas a grande maioria dos restaurantes é bem suja. Pra ser sincero, sair de um lugar mais aconchegante (como é a maioria dos restaurantes por aqui) e ir pra um ambiente extremamente plastificado como o de um fast food é uma sensação meio estranha. Chega a ser meio depressivo. E sendo sucinto, a impressão que dá é que quem trabalha lá é bem mal pago (além deles não terem funcionários suficientes pra atender à demanda, mesmo fora de horários de pico).
Por isso, e pela qualidade das alternativas, desde que cheguei aqui acabei não tendo vontade real de ir em nenhum fast food desse tipo – ao contrário do que eu esperava, pra ser sincero. No entanto, a bem da experiência, acabei abrindo uma exceção e fui num Burger King um dia desses. O resultado foi um hamburger ruim e sem gosto, bem pior do que o equivalente Brasileiro. Não acho que vou voltar lá tão cedo. E não chega a ser algo tão barato pra compensar.
Outro exemplo dessa característica local é minha experiência com o Arby’s. Eu adorava o Arby’s no Brasil e fiquei bem triste quando a cadeia se retirou do mercado Brasileiro – ninguém usa o rosbife fino (estilo Norte-Americano) como eles serviam. Antes de chegar em Nova York, me convenci que uma das primeiras coisas que faria seria ir num Arby’s pra comer novamente um dos hamburgeres de rosbife deles. Mas a verdade é que desde que cheguei acabei não indo em nenhum Arby’s – em parte porque temo que seja só outra cadeia de restaurantes ruim, em parte porque não tem nenhum restaurante da cadeia perto de onde trabalho e moro, e em parte porque o rosbife fino aqui é encontrado em todo lugar mesmo (os sanduíches mais populares do Subway e do Lenny’s levam o mesmo tipo de rosbife).
Pra quem gosta de saladas, o lugar também é ótimo. A maioria das cadeias que vendem sanduíches também trabalham com os mais diversos tipos de saladas, sejam saladas baseadas em templates pré-prontos ou customizadas na hora. E tudo parece bem fresco sim (no bom sentido). Se você gosta de decidir absolutamente tudo que vai em sua comida, a cidade é uma festa.
Restaurantes self-service (buffet), o estilo dominante de restaurante pra trabalhadores em São Paulo, são bem incomuns por aqui. Comi em um e achei a qualidade da comida razoável, mas obviamente diferente do esperado – nada daquela coisa Brasileira do tipo arroz/feijão/salada/carnes.
E também ao contrário do que eu esperava, aqui é mais incomum achar comida chinesa ou japonesa. Me disseram que até existem alguns, mas mais concentrados em certas regiões. Talvez uma bela exceção que vale a pena ser apontada seja o Inakaya, um restaurante de comida japonesa que fica no térreo do prédio do New York Times e é, definitivamente, o restaurante com o melhor design que já vi. O lugar realmente tem uma atmosfera incrível, principalmente à noite; austera, mas coisa de filme.
Não cheguei a experimentar o sushi daqui em nenhum restaurante japonês de verdade, no entanto. Mas de novo a bem da experiência, acabei comendo uma tábua um pote plástico de sushi num Amish Market (!) perto do meu trabalho. A montagem é meio diferente, e o tempero é mais apimentado (característica do sushi local, corroborada por amigos Brasileiros com base em outras experiências), mas no geral pareceu algo de suficiente qualidade.
Ainda tenho inúmeros outros lugares e categorias pra testar, principalmente em relação a massas e pizzas, mas os prognósticos não podiam ser melhores: gastronomicamente falando, NY é sensacional.
Diga-me com que pisas que te direi quem pareces
by Zeh on July 26, 2009
Você é como você se veste, mesmo que você não ligue muito pra isso. O problema é que os valores atribuídos a alguns elementos do vestuário mudam de lugar pra lugar, e comunicam coisas diferentes sobre você dependendo de onde você está.
Eu gosto de usar um tipo bem típico de tênis: tênis simples, desaturados, com marcas pouco visíveis, sem muito plástico, vinil ou recursos pneumáticos. Em São Paulo, esse tipo de tênis é bem comum – são os famigerados tênis pra skatistas.
E embora esse tipo de tênis seja onipresente na terra da garoa – ninguém acharia que eu sou skatista só por estar usando um tênis desse – aqui em NY a história é outra: o pisante é mais raro, assim como o ato de usar cadarço desamarrado como eu uso. Como resultado, dois colegas de trabalho já me pararam em momentos distintos pra perguntar se eu andava de skate, só porque repararam no meu tênis (mesmo modelo da imagem acima).
Tive de dizer que não, e explicar que só usava o tênis porque gostava e que essa categoria de calçado é bem popular de onde venho. Fiquei me sentindo o maior poser do mundo.
Já não se enchem mais lajes como antigamente
by Zeh on July 17, 2009
Domingo, 6 da manhã. Sebá dobra a esquina e começa a subida da ladeira. Os passos cansados, culpa do corpo envelhecido, mas a mente afiada apesar da noite breve de sono. Tinha acordado cedo demais, pensou. A verdade é que cada vez dormia menos. Culpa da velhice, dona Nízia diria. E com razão; apesar do breve meio século de existência, a vida de Sebá tinha sido dura. Seus ossos doíam ainda mais quando se lembrava do passado.
Já conhecia muito bem a ladeira. Fazia esse caminho todo dia, para chegar à padaria onde tomaria o café da manhã. Ainda assim, enquanto caminhava, olhava atentamente para o chão à sua frente. Tinha medo de tropeçar em algum buraco novo, incidente frequente nesta ladeira de paralelepípedos, rara sobrevivente à expansão do asfalto. Uma pedra arrancada era o que lhe preocupava. Já o resto do cenário continuaria sempre o mesmo. E era uma ladeira acentuada. Olhar para a frente, inclinado como seu corpo já estava, era difícil. Preferia evitar a dor no pescoço.
O barulho começou de forma suave. A cada novo passo, no entanto, seu volume aumentava, até que se tornou impossível ignorá-lo. Foi o que o fez olhar para a frente. Nada podia ter-lhe preparado para a cena assombrosa que desenrolava à sua frente.
Um caminhão estranho, estacionado na rua. O nome correto era “betoneira”, disso Sebá tinha certeza. Já tinha visto caminhões assim antes. Ninguém à vista, mas o caminhão estava de alguma forma ligado, dado o barulho que emitia.
Da traseira do caminhão saía uma mangueira. Ou um tubo bem grosso que parecia uma mangueira. Fosse o que fosse, era razoavelmente flexível, e sua outra ponta repousava numa residência próxima – mais precisamente, na laje em construção da casa em frente à qual o caminhão estava estacionado.
Foi então que Sebá percebeu. Da ponta do tubo, saía um líquido viscoso. Concreto. O caminhão estava descarregando concreto diretamente na laje da casa, sem qualquer intervenção humana visível.
A compreensão fez as penas de Sebá tremerem uma vez mais e quase cederem. Lembrou-se imediatamente de todas as vezes em que ajudou seus vizinhos a encherem lajes com cimento. A preparação do cimento na rua, e a marca que isso deixaria para sempre na calçada. As latas cheias de cimento sendo carregadas de um lado para o outro e içadas. As dores nas costas. O cimento a cair nas suas pernas e a fechar os cortes criados criados momentos antes pela metal da própria lata. O churrasco magro no final do dia, a sensação de dever cumprido, e os novos laços forjados com seus vizinhos no calor do trabalho manual.
Uma vila inteira levava um dia para encher uma laje. A julgar pela velocidade com que vomitava cimento, esta máquina realizaria o mesmo trabalho em menos de uma hora. Sozinha.
Sebá abaixou a cabeça, apertou o passo e continuou a ganhar a ladeira. Os ossos doíam cada vez mais. Não ligava. Queria se distanciar desta realidade. Tudo que pensava é que já não se enchem mais lajes como antigamente.