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  • Então, você quer trabalhar numa agência de fora…

    Escrito em 10/October/2009, 16:54 em choque, nova york, trampo | 13 comentários

    Ao contrário do que muita gente pensa, ir trabalhar numa agência de fora do país não é nenhum bicho de sete cabeças.

    Talvez eu tenha dado um pouco de sorte, porque quando vim pra cá, já tinha uma boa experiência depois de trabalhar com o mesmo pessoal durante dois anos, e já tinha vários outros amigos que tinham me dado uma boa noção do que esperar, então não acho que fui pego de surpresa em relação às coisas mais importantes. Mas, considerando que muita gente me pergunta sempre sobre o mesmo assunto, aqui vai um apanhado de coisas que aprendi de um jeito ou de outro sobre a experiência específica de se transplantar pra uma agência ou um estúdio interativo fora das terras de Cabral, em especial nos Estados Unidos; imagino que possa ser útil pra quem esteja contemplando esse passo no futuro.

    Contratar gente de fora é coisa normal. Boa parte das agências faz isso sem se preocupar. Isso se deve a uma combinação de vários fatores, mas gosto de acreditar que um dos principais seja o fato de que um ambiente mais rico em experiências tende a refletir positivamente no trabalho que é criado. Acho que na Firstborn, onde trabalho, metade dos funcionários é estrangeiro.

    Da mesma forma, embora estejam sempre à espreita atrás dos melhores do mercado – coisa que só o mercado local não dá conta, daí a necessidade de se contratar gente de fora – é comum que agências contratem também funcionários mais juniores, ou interns – algo como um estágio – por um período menor de tempo. A Firstborn constantemente contrata caras de várias partes do mundo pra trabalhar aqui por 3 meses, muitas vezes estudantes universitários. Ou seja, as agências contratam gente de todo nível.

    Agências são extremamente pragmáticas na hora de contratar. Isso quer dizer que elas levam em consideração tudo que é importante – em especial o portfólio de alguém – e nada mais. Aquela coisa do “quem indicou” é muito menor por aqui – a impressão é que eles querem evitar que alguém seja contratado só por ser conhecido de alguém (embora recomendações sejam bem aceitas, e às vezes até requisitadas). A título de ilustração, é normal a agência onde eu trabalho ter contactado ou entrevistado gente que eu conheço sem que eles tivessem me questionado sobre a pessoa, só o fazendo no final do processo; talvez eles temessem que eu levasse pro lado pessoal mais do que o profissional.

    Ou seja, ter um camarada dentro de um lugar não quer dizer muita coisa, ou pelo menos, nem tanto quanto quer dizer no Brasil. Não existem muitos atalhos (e note que não estou dizendo que isso seja bom ou ruim).

    O melhor método pra conseguir uma emprego é sempre ir no site das agências que estejam com vagas e mandar seus dados. Não tem magia nenhuma envolvida.

    O motivo de contratar estrangeiros não é mão-de-obra-barata. Embora isso talvez seja verdade em outros setores da indústria, a verdade é que contratar estrangeiros é mais chato e mais caro (em alguns casos, muito mais caro e muito mais chato) do que contratar algum nativo. É algo que é feito com base nos méritos profissionais de cada indivíduo, não na sua capacidade de aceitar salários mais baixos.

    Salários são sempre declarados pelo valor anual. O salário nunca é descrito pelo seu valor mensal, como no Brasil. Então, quando você estiver pra aceitar uma oferta, lembre-se de que pra sacar direito o quanto isso representa, é necessário dividir por 12; se você vir alguma oferta de emprego que oferece, digamos, $50k (50,000), isso significa um salário mensal de $4166.

    Os salários são sempre declarados em sua forma bruta, sem imposto. Da mesma forma, salários sempre são oferecidos e declarados em vagas sem o imposto ter sido contabilizado – e o imposto corta, em média, 30% do salário. No caso acima, dos $4166 mensais, uma boa parcela seria removida, chegando ao total de $2916 mensais que seriam então recebidos pelo empregado.

    Ou seja, quando alguém lhe fizer uma oferta de emprego, calcule bem antes para não ter nenhuma surpresa. Isso não é feito imediatamente claro pelas empresas quando elas contratam algum estrangeiro, porque é algo muito óbvio para elas, mas fazemos a coisa de modo diferente no Brasil, diferenciando entre bruto e líquido com mais frequência (e na verdade, nosso imposto real é muito mais alto).

    Não tem décimo-terceiro, um mês de férias remuneradas, nem nada disso. Os benefícios variam de empresa pra empresa (em especial em relação a como as férias funcionam), e muitas até oferecem bônus durante o ano ou em seu final, mas no geral, vale lembrar que as regras trabalhistas fora do país não são as mesmas de dentro do Brasil.

    O custo de vida aqui é muito mais alto, talvez em especial em Nova York. É comum alguém ver uma oferta de emprego e ficar excitado pelo valor oferecido – em dólares! – porque faz uma comparação com o mesmo valor no Brasil. A verdade é que algumas coisas são bem mais caras por aqui, em especial o aluguel: em Nova York, a média é gastar um terço do seu salário líquido com o aluguel. Ou seja, nunca julgue seu futuro salário sob o prisma do Brasil – você pode acabar recebendo uma merreca que mal dá para pagar as contas, enquanto achava que estaria fazendo rios de dinheiro.

    Embora exista uma certa inversão desse fator – qualquer tipo de dispositivo eletrônico é, obviamente, muito mais barato aqui do que no Brasil – ele não é suficiente pra compensar a diferença a longo prazo.

    Existem diferentes tipos de visto de trabalho, cada um com suas próprias vantagens e desvantagens em relação a tempo de duração, preços, tipo de trabalho, dificuldade em se obter, etc. Quando uma empresa vai contratar alguém, o visto faz certa diferença já que alguns vencem depois de um tempo e alguns dão um trabalhão para serem tirados. Só pra referência, pro meu visto, tive de passar uns 6 meses escrevendo textos (em paralelo com meu trabalho normal) numa rotina longa e chata que me deixou numa pilha de nervos eterna. O processo de aprovação mesmo levou 2 semanas, mas toda a preparação pode levar muito mais.

    Além disso, nenhum é muito automático – é comum as pessoas acharem que só porque uma empresa quer contratar alguém, o visto é “mais fácil”. Não é bem por aí – na verdade, o fato de uma empresa requerer seu visto é, salvo raras exceções, o mínimo requerimento necessário pra começar o processo.

    Da mesma forma, visto de trabalho é visto de trabalho. Não é cidadania, não é greencard, não é nada disso – é só um sinal de que o governo Norte-Americano deu a um estrangeiro a permissão de trabalhar pra uma empresa durante um certo tempo. Assim, seu visto de trabalho está vinculado à empresa que te contratou: se você se demitir, tem de sair do país, e se você quiser mudar de emprego, a nova empresa precisa requerer um novo visto (ou transferir o anterior, dependendo do tipo). Além disso, embora portadores de visto de trabalho estejam tão dentro da lei quanto possível, e tenham Social Security Number (uma espécie de CPF nos Estados Unidos), eles não são cidadãos ou imigrantes Norte-Americanos: não podem votar, por exemplo, e são obrigados a seguir algumas restrições adicionais de permanência e trânsito internacional.

    Ou seja, embora alguns vistos de trabalho possam ser renovados indefinidamente, a permanência do portador do visto dentro do país é vista, antes de tudo, como temporária. Obviamente, outros países podem tratar a coisa de forma diferente, mas minha experiência é limitada aos Estados Unidos.

    Ninguém vai ficar dando assistenciazinha quando você chega de fora. Lógico, a empresa geralmente tá preparada pra ajudar com indicações de corretores, hotéis e coisas assim quando alguém chega de fora da cidade ou do país, e é comum ter um pequeno bônus pra ajudar no custo da mudança. Mas ninguém vai ficar alugando casa ou comprando móveis pra recém-contratados – isso é uma coisa mais pessoal e espera-se que as próprias pessoas façam isso. Pra quem vem de fora, é uma boa planejar com antecedência como a coisa acontecerá, ao invés de ficar esperando alguém levar pela mão e ser surpreendido ao invés.

    E finalmente, vale mais a pena pela experiência do que por qualquer outra coisa. Pra quem quiser fazer dinheiro fácil, é mais prático e lucrativo trabalhar remotamente – ou seja, do Brasil para alguma agência nos Estados Unidos ou em outro lugar. Mas, para quem quer aprender, e ter uma boa dose de uma experiência meio diferente, é uma experiência fantástica e bastante recompensadora.

    Filme: Capitalism: A Love Story

    Escrito em 7/October/2009, 6:01 em entretenimento | Sem comentários

    Capitalism: A Love Story: uma pungente desconstrução do fanaticismo Norte-Americano por um modelo de capitalismo desregulamentado, sua evolução ao longo dos anos, e suas consequências; longo (2 horas), ao mesmo tempo divertido e tocante, e definitivamente recomendado.

    Algo entre formiga e sardinhas

    Escrito em 30/September/2009, 13:02 em choque, nova york, pirações | 2 comentários

    São Paulo é uma cidade lotada. Acho que nossos governantes perceberam isso: eu costumo dizer que o único papel dos governos municipal e estadual de São Paulo é tornar a cidade tão insuportável para todos que as pessoas vão querer se mudar para outro lugar (resolvendo, assim, o problema da lotação). No meu caso, eles conseguiram, mas é triste ver que nem por isso o declínio do conforto está em vias de parar (se é que dá pra chamar o aperto de um metrô ou ônibus e a velocidade média de 15km/h nas principais vias de “conforto”).

    Fiquei sabendo através de websites da recente e malfadada tentativa de pôr ordem no metrô, e é interessante pensar como a coisa se compara ao metrô de NY.

    O metrô de São Paulo é muito melhor que o metrô de Nova York. As estações são muito mais limpas. É tudo muito mais bonito, mais espaçoso, e mais bem conservado. Tudo parece muito novo. Os trens são rápidos, grandes, com número de portas e vagões padronizados, ótima distribuição interna das barras de suporte para os usuários, e os pontos de parada são bem distantes entre si, permitindo o máximo de velocidade e eficiência no transporte. As estações têm identidade visual muito bem definida, embora nem sempre completamente idênticas, e são, no geral, bastante seguras. O sistema, no geral, é muito novo e avançado – coisa de dar orgulho.

    Ao mesmo tempo, o metrô de Nova York é muito melhor que o metrô de São Paulo. O metrô está em todo o canto – existem inúmeras linhas que cobrem a cidade e seus arredores de forma bastante eficaz. Ele funciona 24 horas por dia – você nunca precisa usar carro, e nunca sai de casa precisando se preocupar em voltar até um horário máximo. A cidade possui uma concentração enorme de pessoas, mas ainda assim, independente do horário, sempre tem bastante espaço dentro do vagão.

    É uma comparação estranha. São Paulo tem tudo para ter o melhor sistema, mas acaba ficando devendo no que realmente importa – cobertura e padrões mínimos de conforto.

    Obviamente, tudo se resume na quantidade de vias. Com seus 61 km de vias que vão do ponto A ao ponto B com 2 gargalos horríveis no meio do caminho, é uma difícil comparação ao sistema velho, sujo, mal feito e caótico de Nova York, onde os 369 km disponíveis fazem toda a diferença.

    Quando aluguei meu novo apartamento por aqui e me mudei pro meu bairro, amigos meus me avisaram que eu poderia pegar o metrô lotado de manhã, pra ir trabalhar, já que existe um certo gargalo naquela região. O resultado? O pior que acontece é eu pegar um metrô onde não posso ler meu livro em pé com muito espaço. Às vezes até acontece de passar um trem lotado que não estou a fim de pegar, porque já me acostumei a um certo nível de conforto, mas logo após sempre passa um mais vazio. No geral, acabo demorando 30 minutos pra chegar no escritório, todo dia.

    Quando alguém por aqui me diz que o metrô está lotado, dou risada.

    Isso porque, em São Paulo, eu desfrutava do luxo de morar do lado do metrô Belém, na Zona Leste. Resultado? Eu nunca pegava o metrô pra ir pra lugar nenhum de manhã, já que tal tarefa era impossível devido à superlotação. Se precisasse ir trabalhar, pegava um ônibus. O metrô era bastante conveniente nos finais-de-semana, se quisesse ir pro centro, mas em qualquer outro caso, era completamente inútil.

    Nova York já foi escrava do carro, há décadas atrás, mas numa turbulenta mini-revolução acordou desse devaneio e hoje é escrava do pedestre. São Paulo, ao contrário, ainda faz de conta que automóvel é o meio de transporte urbano ideal. E enquanto o governo finge que faz alguma coisa e os Paulistanos fazem de conta que acreditam enquanto compram carros maiores e mais potentes para andar cada vez mais devagar, ou acreditam em projetos inócuos superfaturados, a rotina na cidade vai ficando cada vez mais difícil de suportar.

    Filme: Surrogates

    Escrito em 30/September/2009, 7:47 em entretenimento | Sem comentários

    Surrogates: razoável, mas uma oportunidade perdida de fazer um filme que realmente marcasse tanto pelo lado filosófico da coisa ou pelos quesitos técnicos de produção.

    Engolindo as próprias palavras, uma tecnologia por vez

    Escrito em 27/September/2009, 11:19 em trampo | 1 comentário

    Mais ou menos em 2004, trabalhando na Grafikonstruct, o Teco me falou de um cara que trabalhava com uma tecnologia web para edição de textos – algo descrito como um Word rodando dentro do browser, pra ser vendido pra empresas que precisavam de edição de texto rico online.

    Na época, achei hilário – pra não dizer completamente idiota.

    Eu acreditava que esse tipo de coisa nunca funcionaria. Tecnicamente, até era possível: já existia tecnologia semelhante pra compartilhamento de texto e edição online – Wikis – e em todo caso, editores de texto rico também eram comuns. Mas, basicamente, não via razão real pra tal coisa além de em wikis eventuais. Quem em sã consciência iria trocar a facilidade de se rodar um aplicativo estável por algo rodado num servidor, com uma série de dependências de conexão, pra editar um texto?

    Fast forward para os dias atuais. Hoje, quando chego no escritório, rodo o Google Chrome e ele automaticamente já abre uma dezena de abas de documentos que utilizo, todos eles mantidos no Google Docs – a maioria textos, mas algumas planilhas também. Não só online, editados num browser, mas compartilhados com inúmeras pessoas envolvidas em cada projeto – internamente e em outros lugares ao redor do país – e editados simultaneamente sem precisar ficar mandando arquivos anexados em email, e sem conflitos de edição no mesmo documento. De forma similar, meu trabalho de conclusão de curso quando me formei ano passado foi completamente editado no Google Docs, já que o fazia de uma série de computadores diferentes e era mais prático ter o documento sempre acessível a partir dum website do que ficar carregando versões de um arquivo sempre comigo.

    Desnecessário dizer que mudei de idéia em relação à edição de documentos online.

    O óbvio hoje pra mim é que não dá pra prever direito o quão eficiente um novo recurso vai ser só pelo lado técnico, ou só pelos contexto que temos imediatamente disponível. Às vezes, as soluções não chegam pra tentar ser uma duplicata do que já existe, mas sim pra apresentar novas possibilidades – coisas que nem eram imaginadas como possíveis ou práticas até então.

    Devido a esta e outras previsões furadas de forma semelhante, uma coisa que venho tentando praticar nos últimos anos é deixar de fazer previsões. Manter a mente aberta, ou mais especificamente, evitar pré-julgar qualquer tecnologia ou serviço digital estritamente pela parte técnica. Fico com medo de virar um neo-ludita revoltado – alguém que odeia tudo que surge de novo só porque é novo.

    E pessoas que trabalham com tecnologia, por mais irônico que pareça, são mais suscetíveis a isso, uma vez que elas quase sempre têm a certeza de que sabem de tudo.

    Os cookies são deles, mas os salgadinhos são nossos

    Escrito em 20/September/2009, 14:39 em choque, comida, nova york | 5 comentários

    Dia desses, fui no Rio Bonito, aquele que é considerado o supermercado de produtos Brasileiros em Nova York (e que depois de uma reforma recente finalmente deixou de ser o supermercado tosco que era). A intenção era comprar algumas iguarias Luso-ítalo-libano-brasileiras para introduzir nossa culinária casual peculiar a amigos nativos que ficaram de me visitar no meu novo apartamento.

    Comprar comidas e produtos de origem Brasileira por aqui é uma coisa engraçada porque, obviamente, nem tudo tem um nome correspondente em inglês. Então apesar de até existir alguma seleção por aqui, você tem de ir mais pela caixa do produto do que pelo nome.

    Enfim, acabei comprando várias coisas e tomando notas de alguns dos nomes. Confiram alguns deles:

    • Pão de queijo: cheese roll, cheese bun, ou cheese bread, dependendo do distribuidor. O certo seria cheese bread mesmo, mas cai num conflito porque já existe algo bastante conhecido com esse nome por aqui.
    • Coxinha: chicken breast in dough.
    • Coxinha de frango com catupiry: chicken breast with cheese in dough.
    • Croquete: ham and cheese croquettes.

    Alguns outros nomes – como kibe e risole – são mantidos, provavelmente porque já são nomes bem próprios mesmo, apesar dos sabores terem nomes estranhos quando são baseados em produtos não muito comuns aqui (risole de palmito vira hearts of palm risole, por exemplo). E apesar dos produtos no geral serem razoavelmente mais caros do que o preço que você pagaria em padarias e lanchonetes aleatórias de São Paulo, o sabor pelo menos é o mesmo.

    Só não achei esfiha por enquanto.