Mudança de estações
by Zeh on March 20, 2010
Hoje é o dia do equinócio vernal no hemisfério norte, marcando o início da Primavera na terra imperial. E só agora que já estou em Nova York há um certo tempo – quase 9 meses – é que começa a ficar clara pra mim a real diferença entre o clima daqui e o do Brasil.
Mais do que mais frio, mais quente, mais úmido ou qualquer outra comparação similar, aqui o clima tem mais contraste do que eu esperava. É algo óbvio quando você para pra pensar, mas algo com que eu nunca tive de conviver antes: as mudanças de estações são mais sensíveis.
O verão é ensolarado – boa parte do dia é mais clara e, obviamente, mais quente. No outono, você vê as folhas das árvores amarelando e caindo, e o clima começa a esfriar. No inverno, as árvores são só galhos pelados, a neve toma conta das ruas, o frio força transeuntes a ir de um ponto a outro sem parar no meio do caminho, os parques ficam vazios, e o sol dura bem menos tempo no céu. E agora, na primavera, o calor está voltando.
Em São Paulo, essa diferença nunca existiu, pelo menos dessa mesma forma. Existe, sim, uma diferença na temperatura média da cidade, mas ao mesmo tempo, é comum você ter dias de calor extremo no inverno, ou frio congelante no verão. Da mesma forma, mudanças na natureza são difíceis de perceber (fenômeno provavelmente fortalecido pela bolha criada pelo concreto que cobre a superfície da cidade e pela extensa massa cinzenta que cobre o céu), algo que acaba sendo um belo retrato da nulidade das estações no cotidiano do cidadão.
Já em Nova York, é difícil deixar de viver em função da estação do ano. As mudanças se refletem no comportamento das pessoas e de toda a malha urbana de uma forma tal que é impossível você manter uma mesma rotina, ou uma mesmo estado de espírito, durante o ano todo.
Com a primavera começando, e alguns dias de calor despontando – agora são aproximadamente 20° C em Manhattan – isso fica especialmente fácil de notar na atitude das pessoas. É como se o sol despertasse algo que estava adormecido: você vê muito mais bicicletas nas ruas; os parques começam a lotar de pessoas que só querem gastar um tempo no sol; você vê muito mais turistas; qualquer queda de temperatura adicional é motivo pra alguém sair de chinelo e bermuda/saia; bares e restaurantes colocam suas mesas de volta nas calçadas, e as portas duplas (usadas pra bloquear o vento frio) são removidas dos mesmo estabelecimentos.
Mas, acima de tudo, os ânimos ficam muito mais positivos. É impossível não encontrar alguém no dia como de hoje e comentar o quão legal o clima está. E não é só um papo vago qualquer na falta de algum assunto mais profundo; é porque todo mundo está com o clima na cabeça. Pra comparar, a primeira coisa que checo quando acordo é a previsão do tempo no meu celular.
Esse contraste criado entre as estações deixa clara também uma parte da atitude do cidadão comum e, suspeito, da rotina de qualquer outra cidade no mundo onde o clima tem uma variação real: as pessoas estão mais preparadas para os altos e baixos de sua rotina anual, ao invés de simplesmente esperando uma uma rotina estável e sem muita variação. É uma coisa difícil de explicar, mas que percebo na minha própria atitude. De certo modo, passado o deslumbramento inicial com a neve, o inverno foi bem ruim por aqui pra mim – fica chato de sair, tem muito vento, tá muito frio, você tem de estar todo encapotado pra fazer qualquer coisa tipo ir no supermercado comprar cerveja; mas, ao mesmo tempo, saber que o inverno vai acabar logo e que um verão delicioso se aproxima faz tudo valer a pena e faz qualquer clima fácil de suportar. Seja qual for a sua estação preferida (muitos amigos meus aqui preferem o outono), você sempre sabe que ela chegará em breve, e você simplesmente se prepara pra isso.
Me lembro que, em São Paulo, era extremamente raro eu acordar e ser surpreendido positivamente pelo clima, ou de ter minha disposição muito influenciada pela temperatura. O clima simplesmente não afetava meu dia. Aqui em Nova York, o contrário acontece frequentemente, e o efeito no meu dia é visível – é muito difícil não deixar de se sentir extremamente otimista num dia como hoje. São só 20 graus, algo que qualquer um em São Paulo ou outra cidade do Brasil consideraria um dia normal (ou, talvez, até um pouco frio). Mas não é a temperatura absoluta que faz a diferença; é a relativa, e sentir uma mudança pra melhor. Impossível não se deixar levar.
6 comments
Essa alegria toda deve ser exatamente o efeito da melhora relativa: como faz muito frio, tudo parece muito mais legal quando o tempo esquenta um pouco. Mesmo aqui em sampa, a temperatura/tempo de sol no dia me influencia muito. Eu fatalmente fico mais “triste” quando abro a janela e vejo o tempo nublado/frio, ou quando termina o horário de verão e o dia começa a ter menos tempo de sol.
by Mj. logan on 20 March 2010 at 14:13. #
Engraçado que todo conhecido tupiniquim comenta a mesma coisa sobre a neve. Eu achando o máximoooooo esse negócio de floquinhos brancos cairem do céu. Mas deve ser um pé no saco mesmo. Talvez. O outono aqui começou ontem, e está bem fresquinho. Ainda não vi a coisa mais característica do Outono, que é um céu AZULÃO animal. Esse ainda não deu as caras.
Mas deve ser legal viver num lugar onde as variações climáticas são certinhas. Pelo menos você consegue sair pra trabalhar com a roupa certa.
=)
by Camila on 21 March 2010 at 05:22. #
Mesma coisa aqui em Londres, Zeh. As pessoas ficam bem mais simpaticas e alegres mas diferente de NY o efeito do sol e’ bem maior. Aqui cada raio de sol e’ comemorado com alegria visto a fama do clima britanico. Isso nao e’ muito exagerado… http://www.theworldislovely.com/wp-content/images/BulmersOutdoor_thumb.jpg
by Hiro Kozaka on 21 March 2010 at 05:23. #
Mas no sil 20 graus eh festejado por todos… baita calorzinho :)
abracao!
by Ramon Fritsch on 21 March 2010 at 16:17. #
Noto a mesma coisa aqui na Holanda, Zeh – tanto na influência das estações sobre o meu estado de espírito quanto no das demais pessoas. Depois de ter passado por – melhor dizendo, sobrevivido a – um inverno ‘de verdade’, eu passei a entender de outra maneira aquela expressão engraçadinha sobre a idade que diz ‘Fulano já tem 32 primaveras’.
E também entendo melhor porque sempre ouvi em historinhas infantis que a primavera é a estação em que os animais e pessoas se apaixonam… faz todo sentido!
Beijo!
by Lucia Dossin on 13 April 2010 at 10:52. #
Oi, Zé!!! :-D
Vim aqui pra falar de outra coisa nada a ver e acabei lendo seu post! Engraçado que eu também falei no meu sobre o outono aqui, hehehe… sync! ;-)
Mas na verdade eu achei este site fantástico e como é agora pros seus lados, achei que seria interessante para você: foodcurated.com
Quando puder experimentar alguma coisa e me contar eu vou achar o máximo, hehehe…
Beijão!!!
Yuri
by Yuri on 19 April 2010 at 10:10. #