Arquivo da categoria ‘crônicas’
Quando eu era moleque, lia muito Millôr Fernandes e Luis Fernando Verissimo. E também escrevia redações ficcionais enormes na escola, muitas vezes inspirado nesse tipo de narrativa. Essa categoria é pra artigos que trazem minha versão moderna dessa piração. Enfim, uma bela merda pretensiosa.
Pra quem não percebeu pelos últimos posts, ou não leu o que escrevi antes, gosto muito de escrever histórias. Sempre foi a área em que me dei melhor na escola.
Uma das razões principais de eu ter criado este blog foi exatamente pra ter a oportunidade de poder escrever histórias e artigos em português sem ter de me preocupar muito com o conteúdo, ou com o que as pessoas iriam achar – afinal, é um blog feito pra ter conteúdo pessoal mesmo, então não tenho que me preocupar com alguém acessando o site do outro lado do mundo pra tirar uma dúvida de ActionScript e acabar se deparando com uma história estranha sobre gaivotas, velhos homens anônimos, ou outros seres parecidos.
Escrever histórias do tipo das que gosto de escrever acaba sendo um exercício de criatividade imenso. Acho que é por isso que gosto de escrevê-las. Pode não parecer, mas pra mim, as histórias que conto não são aquela coisa de escrever uma experiência anterior disfarçada de ficção só pra poupar os envolvidos: nunca estou falando de mim ou de algo que aconteceu e quero botar pra fora, mas sim tentando fazer uma metáfora de lições de vida (tão pretensioso como isso possa soar) ou só situações interessantes/irônicas que imaginei.
Por uma feliz coincidência (ou não), há um tempo atrás comecei a sair com uma garota que quase todo dia me pedia pra contar uma história pra ela antes de dormir – ao vivo, ou via instant messenger. Cheguei a ler histórias de livros de fábulas (ótimo pra praticar o inglês por sinal), mas o que me dava mais prazer era bolar alguma história na hora.
É por isso que muitas das histórias que escrevo aqui são baseadas em contos ou argumentos trazidos de outras histórias, como contos chineses. O que eu fazia era procurar alguma história rapidamente, ler mais ou menos a premissa básica, e começar re-contar a história com modificações próprias, inventando alguma história diferente no decorrer do processo. Às vezes, só um personagem ou uma frase já serviam de ponto de partida. Pra se ter uma noção, uma das histórias mais tristes que contei usava uma frase da letra da música de abertura do desenho Sawamu, o Demolidor como ponto de partida (a parte que fala dos insetos dos charcos). E quando paro pra pensar, muitas das histórias que eu escrevia quando era mais novo se baseavam na mesma receita: eu assistia alguma propaganda de filme, imaginava do que se tratava o filme, e escrevia uma redação com a história, ou só baseada num personagem específico (e depois, quando eu ia ver o filme, ele geralmente não tinha nada a ver com o que eu tinha escrito).
O relacionamento no final das contas não durou muito tempo, e acabou como a maioria dos meus contos acabam – sem um final feliz. Mas as histórias ficaram; salvas no histórico do MSN, escritas rapidamente num arquivo txt qualquer, ou até mesmo anotadas com pressa num post-it, tenho uma série de histórias prontas para serem traduzidas ou reescritas em português.
Mas, mais importante, ficou acesa a chama da escrita. Não só nas histórias já elaboradas que estão esperando pra serem postadas, mas nas idéias que ainda estão surgindo a todo momento, uma vez que a prática do exercício de imaginação foi relembrado.
Enfim, tudo isso pra dizer, não se surpreendam se a partir de agora eu postar mais histórias estranhas aqui do que outra coisa. Minha cabeça anda coçando.
Era uma vez um homem cego que não sabia como era o Sol. Ele então decidiu pedir a outras pessoas para lhe explicarem.
Primeiro, ele perguntou a um amigo como era o Sol. “O Sol é grande e redondo, como uma grande panela”, disse o amigo, que era cozinheiro. Então o cego pegou uma panela emprestada, e passou a tateá-la, para sentir sua forma. A panela, no entanto, era feita de um metal frio, e ele sabia que o Sol não era frio, já que ele podia sentir o calor dos raios solares em sua pele. Insatisfeito, ele decidiu perguntar sobre o Sol a outra pessoa.
Mais tarde, ele encontrou um velho conhecido que trabalhava vendendo velas. Questionado sobre o Sol, sua resposta foi breve: “O Sol é brilhante e irradia luz, como as velas que vendo”. No entanto, o cego não conhecia a luz, portanto, essa resposta também não o satisfez.
No dia seguinte, enquanto fazia suas compras, ele decidiu perguntar ao vendedor do mercado sobre o Sol. “O Sol é como este ovo que você acabou de comprar”, respondeu o vendedor. Mas o cego sabia que o ovo era frágil e que se quebraria ao ser apertado, ou ainda que apodreceria em breve, caso não fosse consumido; o Sol, ao contrário, já existia há muito tempo, e era improvável que se quebraria ou apodreceria tão logo. Assim, esse exemplo também não o deixou feliz.
Chegando em casa, pensativo, o cego finalmente perguntou a seu vizinho, professor, como era o Sol. “O Sol é uma gigantesca massa esférica composta de plasma e gases”, disse o professor, “e também a principal força gravitacional de nosso sistema solar”. Esta explicação, no entanto, era complexa demais para ele, e mais uma vez, deixou-o insatisfeito.
Passados alguns dias, obstinado em tentar achar uma resposta, o homem cego recebeu uma notícia através de um primo. “Um monge muito sábio está passando pela cidade”, disse ele. “Por que você não o visita para perguntar sobre o Sol?”. Ansioso, o cego decidiu visitar o templo onde o monge estava hospedado naquele mesmo dia. Afinal, um monge tão sábio saberia explicar o Sol para um homem cego.
Lá chegando, explicou sua história para os guardiões do templo, e pediu uma audiência com o sábio monge para que pudesse pergunta sobre o Sol. Quando finalmente foi atendido, e posto na presença do sábio monge, fez uma simples pergunta: “Como é o sol?”.
“O Sol flutua no céu, e aquece minha pele durante o dia”, disse o monge. “Ele também traz luz àqueles à minha volta, ajuda as plantas a crescerem, e as roupas a secarem no varal”, concluiu.
Surpreso, o cego finalmente exclamou, depois de alguns segundos de silêncio, “mas isso eu já sabia! É exatamente o que o Sol é para mim!”, disse o cego.
“Então é isso que o Sol é”, declarou o monge, sorrindo. “Temos a tendência de ver, sentir, ou entender as coisas que fazem parte de nossa vida através do funil de nossas experiências. Assim como o cozinheiro vê uma panela quando olha para o Sol, ou o vendedor de velas vê a chama que traz luz, o cego sente o calor em sua pele. Ao invés de tentar enxergar o Sol através dos olhos de outras pessoas, procure aceitá-lo como ele é – como é para você, porque é isso que importa. Meras descrições não vão fazê-lo entender o que outras pessoas sentem, assim como ninguém terá a mesma percepção que você tem do Sol.”
Satisfeito com a explicação, o cego foi para casa e nunca mais precisou se perguntar como era o Sol.
Era uma vez um homem que vivia no litoral, numa cabana simples do lado de uma praia.
A praia vivia deserta, já que possuía muitas pedras, além de estar distante de qualquer estrada. Assim, na maior parte do tempo, gaivotas tomavam conta da areia.
O homem que vivia nesta praia adorava as gaivotas. Ele as considerava suas amigas, e frequentemente brincava com elas, fazia carinho nelas, ou simplesmente as observava. Todas as manhãs, centenas de gaivotas vinham lhe fazer companhia em sua caminhada diária, e isso o deixava feliz pelo resto do dia.
Um conhecido de uma cidade próxima, sabendo disso, veio ao homem e disse, “Eu ouvi dizer que as gaivotas adoram você, e que deixam você se aproximar delas sem fugir, ao contrário do que elas fazem com outras pessoas. Quero que você capture duas delas para mim, para eu poder fazer sopa de gaivota na janta. Vou lhe pagar muito bem.”
No dia seguinte, o homem foi para a praia e, como sempre, foi recebido pelas gaivotas, que o rodeavam. Rapidamente, para surpresa das gaivotas, o homem capturou duas aves pelo pescoço, e as levou para seu conhecido da cidade.
Seu conhecido ficou muito feliz de receber as gaivotas, e pagou uma quantidade considerável de dinheiro para o homem, como havia prometido. Assim, à noite, seu conhecido fez sopa de gaivotas, e a sopa era deliciosa. Ele disse para o homem, “Eu tenho um restaurante, e gostaria de servir esta deliciosa sopa de gaivota todo dia. Eu comparei todas as gaivotas que você me trouxer!”
O homem voltou para sua cabana na praia muito feliz, contando o dinheiro que havia ganho e fazendo planos para o futuro. “Se eu fizer isso só por um mês”, ele pensou, “ficarei rico!”
Na manhã seguinte, como de costume, ele caminhou em direção à praia, esperando ser recebido pelas gaivotas e capturar mais duas aves que ele poderia vender para seu conhecido.
No entanto, para sua surpresa, nenhuma das gaivotas se aproximou dele.
“Eu só quero brincar com vocês!”, disse o homem. Mas ainda assim, elas se mantiveram à distância dele, voando para longe quando ele tentava se aproximar delas.
Desolado, ele voltou para casa e resolveu tentar novamente no dia seguinte.
Na manhã seguinte, novamente, nenhuma das gaivotas se aproximou dele. Desesperado, ele até mesmo tentou correr atrás delas, capturando-as à força, sem sucesso.
Ele continuou tentando por uma semana, mas o mesmo se repetia todo dia. Ele não conseguira capturar nenhuma gaivota, já que elas não deixavam ele se aproximar.
Percebendo que o homem não conseguia capturar mais nenhuma gaivota, seu conhecido lhe disse, “Desisto da sopa de gaivota. É muito difícil capturá-las, e meu restaurante demanda regularidade no cardápio. Assim, não comprarei nenhuma gaivota de você, mesmo se você conseguir pegá-las.”
Na manhã seguinte, desolado, o homem andou em direção à praia para sua caminhada matinal. Ele já não queria capturar nenhuma gaivota. Só estava se sentido solitário e arrependido de ter feito o que fez, e precisava de um pouco de companhia.
Ainda assim, nenhuma das gaivotas se aproximou do homem.
Elas não brincaram com o homem, nem deixaram ele se aproximar. Elas mantiveram a distância.
Para sempre.
A cidade ideal teria suas ruas divididas em retângulos, como em Nova York. Quer ir pro norte? É só pegar uma rua que vai pro norte. Não precisa se preocupar com curvas sinuosas que te fazem sair do caminho.
Da mesma forma, a cidade também teria avenidas e ruas com nomes numéricos, em sequência – do norte pro sul, e do leste pro oeste (ou vice-versa). Quer ir da oitava avenida pra sexta avenida? Dois quarteirões na direção leste. Não sabe onde é a 50a rua, nunca ouviu falar? Fica depois da 49a, é lógico.
E ainda obedecendo ao grid, as ruas e avenidas teriam mãos previsíveis: pares vão numa direção, ímpares em outra. Não precisa circular 10 quarteirões só porque você quer entrar numa rua de mão única e não consegue nenhum ponto de acesso.
Já os prédios, casas, lojas e demais logradouros seriam numerados de acordo com sua distância até o início da rua, em metros, como em São Paulo. Fica fácil de saber a distância de um ponto a outro. Quer ir da altura do número 120 até o número 500? São 380 metros.
Essa cidade teria um metrô 24 horas, que percorre praticamente a cidade toda, incluindo os pontos mais remotos, como em Nova York. E os metrôs teriam linhas expressas, que pulam algumas estações, pra quem quer ir rapidamente pra algum canto. Não só isso, mas diversos pontos de transferência e integração entre linhas. E, desnecessário citar, os trens seriam pouco lotados, mas ainda assim teriam um ar-condicionado bem eficiente.
Mas os metrôs seriam rápidos, limpos e bem-conservados, como em São Paulo. Além disso, você não teria entradas extremamente específicas, que te obrigam a sair, atravessar a rua, e pagar outro bilhete se você tiver entrado, sem querer, na plataforma da direção errada – os pontos de entrada e saída seriam unificados.
As estações de metrô teriam máquinas de compra de bilhetes que aceitariam cartão de crédito, débito, notas, ou moedas, permitindo a qualquer um adquirir um bilhete – ou colocar créditos em seu bilhete recarregável – de forma rápida e, geralmente, sem filas. Como em Nova York. As catracas para entrada seriam inúmeras, como em São Paulo, e com catracas específicas para entrada ou saída, para evitar confusões de catracas que servem aos dois propósitos.
Como em Nova York, você não precisaria de carro para nada. Seria muito mais fácil, rápido, e barato, chegar de metrô em qualquer lugar. O trânsito seria um problema menor, senão inexistente. A cidade seria escrava do pedestre, não do automóvel. E as bicicletas seriam extremamente práticas.
Toda esquina da cidade ideal teria uma lata de lixo de verdade, e toda residência teria coleta de lixo reciclável, como em Nova York. Mas as calçadas e ruas pareceriam mais limpas, assim como, incrivelmente, São Paulo (ou partes de São Paulo).
Na cidade ideal, os caixas eletrônicos dos bancos permitiriam depósitos em dinheiro ou cheque sem a necessidade de envelopes especiais ou do preenchimento de qualquer outra coisa. Como em Nova York, elas leriam os valores das notas, e os valores dos cheques, e permitiriam a você conferir o depósito antes de efetuá-lo. Os caixas seriam limpos e bem conservados, como em São Paulo.
Os parques seriam limpos, confortáveis, e convidativos, sem terem sido dominados por moradores de rua, drogados, trombadinhas ou outros seres estranhos. Crianças brincariam felizes nos parques das áreas mais residenciais, e os mesmos também teriam específicas para donos de cachorros deixarem seus melhores abrigos brincarem e correrem, assim como se vê em Nova York.
Da mesma forma que em Nova York, as cervejas encontradas nos bares seriam inúmeras, sem o domínio de uma ou outra marca. E com sabores e texturas das mais distintos, ao invés de poucas variações do mesmo tipo de cerveja. Mas você poderia beber na rua, como em São Paulo.
O churrasco da cidade ideal seria como em São Paulo, ou outras partes do sul do Brasil – regado a muita carne, muito sal, e churrasqueiras exclusivamente de carvão. Mas o hambúrger ou o sanduíche encontrados em qualquer esquina seriam como seus equivalentes de Nova York – bem servidos, e dos tipos e sabores mais variados.
As garotas da cidade ideal seriam tão bonitas – e usariam roupas tão sensuais – quanto as de São Paulo (ou de qualquer outra cidade brasileira). Mas teriam histórias de vida, origens e experiências tão variadas quanto as que você encontra nas garotas de Nova York.
Para ser realista, o aluguel de alguma casa ou apartamento na cidade ideal seria tão barato quanto o aluguel médio de São Paulo. As residências também seriam tão espaçosas quanto as que você geralmente encontra lá. Mas, ao mesmo tempo, seria muito mais rápido de chegar em qualquer lugar, como em Nova York – morar na periferia seria algo comum. Toda a idéia de periferia seria algo difícil de entender, no entanto, já que o contraste entre áreas não seria mais tão grande.
A cidade ideal seria uma cidade extremamente urbanizada em seu núcleo. Com lojas para tudo, e áreas mais ou menos especializadas num determinado tipo de comércio. Com em São Paulo ou, especialmente, Nova York. Com áreas de lazer e relaxamento – praias e parques – a dois passos de distância, como em Nova York, mas com praias tão boas quanto as do Brasil.
A cidade ideal seria perfeita.
Mas talvez aí já não teria mais tanta graça.
Domingo, 6 da manhã. Sebá dobra a esquina e começa a subida da ladeira. Os passos cansados, culpa do corpo envelhecido, mas a mente afiada apesar da noite breve de sono. Tinha acordado cedo demais, pensou. A verdade é que cada vez dormia menos. Culpa da velhice, dona Nízia diria. E com razão; apesar do breve meio século de existência, a vida de Sebá tinha sido dura. Seus ossos doíam ainda mais quando se lembrava do passado.
Já conhecia muito bem a ladeira. Fazia esse caminho todo dia, para chegar à padaria onde tomaria o café da manhã. Ainda assim, enquanto caminhava, olhava atentamente para o chão à sua frente. Tinha medo de tropeçar em algum buraco novo, incidente frequente nesta ladeira de paralelepípedos, rara sobrevivente à expansão do asfalto. Uma pedra arrancada era o que lhe preocupava. Já o resto do cenário continuaria sempre o mesmo. E era uma ladeira acentuada. Olhar para a frente, inclinado como seu corpo já estava, era difícil. Preferia evitar a dor no pescoço.
O barulho começou de forma suave. A cada novo passo, no entanto, seu volume aumentava, até que se tornou impossível ignorá-lo. Foi o que o fez olhar para a frente. Nada podia ter-lhe preparado para a cena assombrosa que desenrolava à sua frente.
Um caminhão estranho, estacionado na rua. O nome correto era “betoneira”, disso Sebá tinha certeza. Já tinha visto caminhões assim antes. Ninguém à vista, mas o caminhão estava de alguma forma ligado, dado o barulho que emitia.
Da traseira do caminhão saía uma mangueira. Ou um tubo bem grosso que parecia uma mangueira. Fosse o que fosse, era razoavelmente flexível, e sua outra ponta repousava numa residência próxima – mais precisamente, na laje em construção da casa em frente à qual o caminhão estava estacionado.
Foi então que Sebá percebeu. Da ponta do tubo, saía um líquido viscoso. Concreto. O caminhão estava descarregando concreto diretamente na laje da casa, sem qualquer intervenção humana visível.
A compreensão fez as penas de Sebá tremerem uma vez mais e quase cederem. Lembrou-se imediatamente de todas as vezes em que ajudou seus vizinhos a encherem lajes com cimento. A preparação do cimento na rua, e a marca que isso deixaria para sempre na calçada. As latas cheias de cimento sendo carregadas de um lado para o outro e içadas. As dores nas costas. O cimento a cair nas suas pernas e a fechar os cortes criados criados momentos antes pela metal da própria lata. O churrasco magro no final do dia, a sensação de dever cumprido, e os novos laços forjados com seus vizinhos no calor do trabalho manual.
Uma vila inteira levava um dia para encher uma laje. A julgar pela velocidade com que vomitava cimento, esta máquina realizaria o mesmo trabalho em menos de uma hora. Sozinha.
Sebá abaixou a cabeça, apertou o passo e continuou a ganhar a ladeira. Os ossos doíam cada vez mais. Não ligava. Queria se distanciar desta realidade. Tudo que pensava é que já não se enchem mais lajes como antigamente.

Não sabia o que esperar. Para onde estariam indo? Que solo estranho era esse? Que estrutura tão incomum era aquela onde se encontravam? O que estavam fazendo, parados, em pé? Esperando algo, talvez – mas o quê? E o que eram os barulhos que ecoavam de vez em quando pelos túneis, como urros de monstros subterrâneos invisíveis que faziam tremer o solo?
Estaria sendo levado para algum lugar de onde jamais voltaria? Seria esse o começo do fim da única amizade real que já teve na vida? Ou seria só um novo tipo de passeio? Afinal, o que se passava na mente daquele que lhe carregava?
Apesar das muitas dúvidas, aguardava e confiava.
Foto e título por Juliana Mundim