A Copa do Mundo sob os olhos de Nova York

by Zeh on June 28, 2014

Essa semana comemorei 5 anos em Nova York. Dizem que depois de 10 anos na cidade, você pode se considerar um Novaiorquino. Se for verdade, isso quer dizer que já sou meio Novaiorquino.

Uma das vantagens de ter passado 5 anos aqui é ter podido acompanhar a reação da cidade a duas copas do mundo distintas: 2010 e, agora, 2014. E a diferença é visível.

Posso dizer que na copa do mundo de 2010 a cidade estava ciente da existência do evento. Alguns bares estavam transmitindo os jogos, você via pessoas com camisetas pelas ruas, e no geral estrangeiros e imigrantes estavam bem animados com o evento. Os locais, no entanto, não ligaram muito: alguns sabiam o que estava se passando e até assistiram alguns jogos em bares ou afins, mas no geral não tinham muito interesse. Um exemplo: na final da Copa das Confederações, em 2009, quando os Estados Unidos jogaram contra o Brasil, o bar especializado em futebol onde assisti o jogo estava quase vazio, e os espectadores, bastante tímidos.

A coisa é muito diferente desta vez. Infelizmente, não possuo números, mas o contraste é palpável: a cidade está completamente tomada pelo espírito da copa do mundo. Durante o dia, todo lugar com alguma TV está transmitindo os jogos. Nas últimas semanas, assisti a jogos da copa em inúmeros bares, num circuito de corrida de cavalos, na sala de espera de um consultório médico, na lavanderia, e na cafeteria da Firstborn. Um bar perto de casa anuncia, com orgulho, que não está transmitindo os jogos da copa – dando a entender que se trata de um oásis sem futebol em meio a uma cidade que foi tomada pelo espírito futebolístico. Não surpreende que o bar esteja sempre vazio, ao mesmo tempo que a taqueria Mexicana ao lado (que está, sim, transmitindo os jogos) esteja lotada. A febre, em suma, é geral.

Esse espírito é perceptível mesmo nas ruas. Você anda pela cidade e, em dias de jogos, é impossível não ver alguém com camisetas de um ou outro time – Americanos ou não. Outro dia, andando pelo bairro, vi um casal com camisetas do Brasil. Passando por eles, percebi que eles estavam conversando em um inglês perfeito, sem sotaque: provavelmente não se tratavam de Brasileiros emigrados ou turistas, mas sim um casal de nativos que decidiu adotar o país como seu favorito. Coisa talvez impensável num país com DNA futebolístico como o Brasil, mas comum – e compreensível – aqui.

Assistir a jogos em público é uma diversão muito maior hoje do que há 4 anos atrás. Qualquer jogo qualificatório já rendeu uma audiência muito maior – e mais envolvida – do que a da final da Copa das Confederações. Um belo exemplo desta mudança de ares é a foto abaixo, tirada da cafeteria da Firstborn (que dividimos com uma empresa chamada 360i). Boa parte dos funcionários – a maioria Americanos – deslocaram-se para a cafeteria, munidos de seus laptops, para trabalhar ao mesmo tempo que assistiam ao jogo onde entre Estados Unidos e Alemanha.

Não está claro na foto, mas a cafeteria tinha 2 televisões e 2 projetores – um deles dentro de uma sala de reunião – sintonizados no jogo. Fenômenos parecidos foram observados no resto do país.

Imagino que existem vários fatores que devem ter contribuído para o aumento de interesse na copa.

Um deles é o fuso horário – os jogos da primeira fase foram transmitidos todos à tarde, em horários ótimos para se assistir nos EUA: começando ao meio dia (na costa leste) ou 9 da manhã (costa oeste). Em contrapartida, muitos dos jogos da copa de 2010 se passaram na madrugada, exigindo certo esforço por parte dos telespectores por estas bandas (e tornando o ato de assistir aos jogos em bares impraticável).

Outro grande fator, que só percebi quando apontado por um colega, é o poder da mídia social. O Twitter está tomado por fãs de futebol, e é inevitável que alguém que nem ligue muito pro evento acabe sendo inundado por tweets oriundos de amigos que levam a celebração mais a sério a cada jogo ou gol de relevância. O Twitter mesmo inaugurou recursos exclusivos para se acompanhar a copa do mundo online, e pessoalmente acho que eles acertaram a mão. Tem sido divertido acompanhar os jogos ao mesmo tempo que vejo as reações a cada lance online.

USA x Alemanha

Alguns alarmistas locais são contra o crescimento de popularidade do esporte – a síndrome de ódio ao diferente é clara em certas facções conservadoras do país, e é natural que o futebol se torne mais um valor negativo em seus olhos. No entanto, o que gosto de acreditar é que, com o tempo, a audiência Norte-Americana está ficando mais consciente em relação ao esporte, e abraçando a causa com afinco. Existe uma certa barreira cultural a se vencer: o país está extremamente investido em Futebol Americano, Basquete, e Baseball, vistos como entretenimento, e tem muita dificuldade em entender os nuances e a fluência do futebol. No entanto, o entendimento está aumentando pouco a pouco, e de forma visível.

Ao mesmo tempo, a liga principal de futebol nacional (MLS) ainda tem um nível técnico péssimo, mas imagino que conforme a população torna-se consciente do esporte, a qualidade do futebol local vai aumentar. Nova York mesmo está ganhando um novo time na principal liga de futebol nacional, e o renovado Cosmos tem ganho tudo que disputa na segunda divisão nacional. Ou seja, ainda tem muito chão pra ser percorrido, mas hoje considero inevitável que no futuro os EUA se tornem uma potência no esporte. E como alguém que gosta de assistir jogos em ambientes públicos, mas não tem muita paciência pros esportes locais tradicionais, mal posso esperar.

E agora dá licença, que vou assistir o jogo Brasil e Chile de um bar especializado em linguiças.

  • Pois é, essa popularidade crescente do futebol nos EUA está sendo bastante falada. Essa semana ouvi dizer que a copa de 2022, que seria no Qatar, pode ser retirada do país, e o substituto mas provável é os EUA (http://esportes.r7.com/futebol/copa-do-mundo-2014/blatter-pretende-tirar-a-copa-de-2022-do-qatar-diz-jornal-26062014). Um brasileiro multimilionário recentemente comprou o Orlando City, que ano que vem vai jogar na MSL. Segundo ele, é uma das metas do time trazer um jogador brasileiro de nível internacional ainda esse ano. Os caras têm até página em português no Facebook. Parece que os EUA tem grande chance de se render ao futebol, que já é o terceiro maior esporte coletivo praticado aí.

  • Fernando

    Quando o americano gostar mesmo de futebol terá grandes chances de ser um dos grandes mercados, assim como a Europa é atualmente!