Engolindo as próprias palavras, uma tecnologia por vez
by Zeh on September 27, 2009
Mais ou menos em 2004, trabalhando na Grafikonstruct, o Teco me falou de um cara que trabalhava com uma tecnologia web para edição de textos – algo descrito como um Word rodando dentro do browser, pra ser vendido pra empresas que precisavam de edição de texto rico online.
Na época, achei hilário – pra não dizer completamente idiota.
Eu acreditava que esse tipo de coisa nunca funcionaria. Tecnicamente, até era possível: já existia tecnologia semelhante pra compartilhamento de texto e edição online – Wikis – e em todo caso, editores de texto rico também eram comuns. Mas, basicamente, não via razão real pra tal coisa além de em wikis eventuais. Quem em sã consciência iria trocar a facilidade de se rodar um aplicativo estável por algo rodado num servidor, com uma série de dependências de conexão, pra editar um texto?
Fast forward para os dias atuais. Hoje, quando chego no escritório, rodo o Google Chrome e ele automaticamente já abre uma dezena de abas de documentos que utilizo, todos eles mantidos no Google Docs – a maioria textos, mas algumas planilhas também. Não só online, editados num browser, mas compartilhados com inúmeras pessoas envolvidas em cada projeto – internamente e em outros lugares ao redor do país – e editados simultaneamente sem precisar ficar mandando arquivos anexados em email, e sem conflitos de edição no mesmo documento. De forma similar, meu trabalho de conclusão de curso quando me formei ano passado foi completamente editado no Google Docs, já que o fazia de uma série de computadores diferentes e era mais prático ter o documento sempre acessível a partir dum website do que ficar carregando versões de um arquivo sempre comigo.
Desnecessário dizer que mudei de idéia em relação à edição de documentos online.
O óbvio hoje pra mim é que não dá pra prever direito o quão eficiente um novo recurso vai ser só pelo lado técnico, ou só pelos contexto que temos imediatamente disponível. Às vezes, as soluções não chegam pra tentar ser uma duplicata do que já existe, mas sim pra apresentar novas possibilidades – coisas que nem eram imaginadas como possíveis ou práticas até então.
Devido a esta e outras previsões furadas de forma semelhante, uma coisa que venho tentando praticar nos últimos anos é deixar de fazer previsões. Manter a mente aberta, ou mais especificamente, evitar pré-julgar qualquer tecnologia ou serviço digital estritamente pela parte técnica. Fico com medo de virar um neo-ludita revoltado – alguém que odeia tudo que surge de novo só porque é novo.
E pessoas que trabalham com tecnologia, por mais irônico que pareça, são mais suscetíveis a isso, uma vez que elas quase sempre têm a certeza de que sabem de tudo.
Os cookies são deles, mas os salgadinhos são nossos
by Zeh on September 20, 2009
Dia desses, fui no Rio Bonito, aquele que é considerado o supermercado de produtos Brasileiros em Nova York (e que depois de uma reforma recente finalmente deixou de ser o supermercado tosco que era). A intenção era comprar algumas iguarias Luso-ítalo-libano-brasileiras para introduzir nossa culinária casual peculiar a amigos nativos que ficaram de me visitar no meu novo apartamento.
Comprar comidas e produtos de origem Brasileira por aqui é uma coisa engraçada porque, obviamente, nem tudo tem um nome correspondente em inglês. Então apesar de até existir alguma seleção por aqui, você tem de ir mais pela caixa do produto do que pelo nome.
Enfim, acabei comprando várias coisas e tomando notas de alguns dos nomes. Confiram alguns deles:
- Pão de queijo: cheese roll, cheese bun, ou cheese bread, dependendo do distribuidor. O certo seria cheese bread mesmo, mas cai num conflito porque já existe algo bastante conhecido com esse nome por aqui.
- Coxinha: chicken breast in dough.
- Coxinha de frango com catupiry: chicken breast with cheese in dough.
- Croquete: ham and cheese croquettes.
Alguns outros nomes – como kibe e risole – são mantidos, provavelmente porque já são nomes bem próprios mesmo, apesar dos sabores terem nomes estranhos quando são baseados em produtos não muito comuns aqui (risole de palmito vira hearts of palm risole, por exemplo). E apesar dos produtos no geral serem razoavelmente mais caros do que o preço que você pagaria em padarias e lanchonetes aleatórias de São Paulo, o sabor pelo menos é o mesmo.
Só não achei esfiha por enquanto.
Filme: Taking Woodstock
by Zeh on September 9, 2009
Taking Woodstock: nem tão viagem alucinógena quanto Trainspotting, nem tão filosófico quanto Waking Life, nem tão revelador quanto Beleza Americana, e nem tão diferente visualmente quanto Assassinos por Natureza ou Denise Está Chamando, mas um pouquinho de tudo isso em doses aleatórias conspirando para criar um filme razoavelmente divertido sobre Woodstock.
Filme: Inglorious Basterds
by Zeh on September 2, 2009
Quando eu ainda estava indo pra faculdade, até o ano passado, eu meio que tive de desistir de ir no cinema: não tinha muito tempo, e meus amigos acabavam sempre marcando sessões a qual eu não podia comparecer (já que estudava à noite). Acabei deixando de ver muita coisa boa, e como citei antes, essa era uma das coisas que queria reverter depois de ter me graduado, finalmente voltando a assistir filmes no cinema.
Pra minha sorte, minha mudança acabou contribuindo bastante pra que isso acontecesse: alguns amigos meus – nativos da região – têm o costume de ir ao cinema toda semana, e acabei entrando na dança há pouco mais de um mês. Não cheguei a postar muito sobre isso aqui, mas estamos toda semana vendo algum filme novo. Então, até porque pode servir como uma prévia interessante de filmes que talvez não tenham estreado em solo Brasileiro, vou começar a postar sobre isso aqui, com uma revisão extremamente longa de cada filme assistido (a cada terça-feira, que é o dia reservado pra sessão semanal de cinema). Entenda este post como uma introdução.
Bom, ontem assistimos Inglourious Basterds. Veredicto: fraco.
Aprendendo ActionScript 3
by Zeh on August 26, 2009
Esta semana, publico aqui o conteúdo de minha coluna de cartas do leitor, originalmente publicada nas páginas do Compêndio Anual Regulatório de Análise Linguística e Habilidades Outras. Reproduzido com permissão da editora.
Caro Sr. Zeh Fernando,
Eu quero criar websites Flash em ActionScript 3, mas não sei o que eles comem. Pode me ajudar?
Um abraço,
Leitor Assíduo
Caro Leitor Assíduo,
Muito pertinente sua dúvida. Essa é uma questão que sempre vem à tona nos círculos intelectuais dos criadores Flash, seja em palestras, mesas de discussão, mesas de bar, ou sarjetas pós-mesa de bar. A criação de sites Flash é algo difícil, e considerando-se a velocidade das mutações à qual o organismo desta plataforma tem passado nos últimos anos, as técnicas para criação e manutenção de websites em Flash estão também em constante mudança.
Para tentar elucidar as questões mais pertinentes e retratar o patamar atual desta parcela tão curiosa de nossa ecologia de interfaces, listo aqui algumas conclusões à qual cheguei após a observação da espécie, não só em cativeiro mas também em seu habitat natural. No entanto, seria difícil para mim discorrer aqui sobre todas as técnicas para criação de websites em ActionScript 3, considerando-se a complexidade do tema, então o que farei é listar algumas das soluções normalmente utilizadas para o aprendizado das tais técnicas. Um meta-ensino, por assim dizer.
Uma das primeiras alternativas para o aprendizado de ActionScript 3 que geralmente vem à mente de criadores amadores é o de utilizar cursos de Flash ou de ActionScript 3.
Talvez eu não seja a melhor pessoa indicada para falar disso – visto que nunca fiz nenhum curso de ActionScript, Flash ou de nenhuma outra linguagem de programação (com a exceção de algumas aulas de BASIC que tive na escola, quando ainda era um mero pimpolho de 10 anos, um programacultor em formação) – mas minha sincera opinião é de que cursos desse estilo não funcionam muito bem. Como a maioria das variantes das linguagens de programação orientadas a objeto, ActionScript 3 é um assunto de difícil assimilação e definitamente não é algo que se aprende em 6 meses, ou mesmo em um ano, a menos que o aspirante a programacultor ActionScript já tenha uma boa experiência com outras culturas de linguagem de programação.
Da mesma forma, cursos voltados a plataformas parecidas geralmente tentam atrair e manter o aluno através de resultados rápidos, o que nem sempre isto é a melhor opção. Existem diferentes formas de criar websites com ActionScript 3, e os melhores métodos a longo prazo são, geralmente, os que levam mais tempo para assimilação. Infelizmente, a grande maioria dos alunos quer ver seus botões em ActionScript 3 desabrochando e saltitantes com o mínimo tempo e esforço, sem se preocupar em aprender as melhores técnicas para seu semeio, ou sem explicar o porquê deles serem criados de uma forma e não de outra. Isso faz com que a longevidade de sua produção sofra, algo que só se percebe tarde demais.
Um último e controverso ponto é de que a maioria dos instrutores encontrados em escolas de programacultura não são exatamente os melhores criadores de websites em ActionScript 3. Infelizmente, instrutores são só isso, instrutores, geralmente pagos para ensinar o semeio de diferentes culturas ao mesmo tempo, sem nunca se focar no cultivo de uma plataforma específica. Isso quer dizer que eles são treinados para passar o conteúdo de uma apostila previamente planejada com louvor, mas possuem limites em seu conhecimento – resultando num discurso bem linear e unilateral. Questões oriundas de uma mente em aprendizado inquisitiva poderão ficar sem resposta. Pior, seu conhecimento é frequentemente datado, especialmente quando pensamos numa cultura em mutação constante como a de ActionScript.
Minha conclusão nesse sentido é de que, para quem gosta de um aprendizado coletivo, em grupos, um curso pode ser uma boa porta de entrada ao mundo da programacultura para Flash. No entanto, provavelmente não é o caminho ideal para se seguir. Não recomendo gastar muito dinheiro nisso.
Outra alternativa é através de publicações. Nessa área, felizmente, a programacultura ActionScript 3 está muito bem servida, já que existe uma boa quantidade de de material didático existente.
E perceba que quando falo de material didático, quero dizer livros, não apostilas. Apostilas é coisa de quem quer fazer cursinho e não tem paciência pra estudar, quem quer plantar e não quer esperar a planta crescer, quem quer adubar e sentir cheiro de flores, quem quer aprender kung-fu sem levantar a bunda da cadeira. Apostilas são um mito.
A principal recomendação literária de minha parte é ler, de cabo a rabo, o último livro do Colin Moock – atualmente, Essential Actionscript 3.0. Este livro contém todo tipo de informação que os criadores de sites em Flash precisam saber para um cultivo proveitoso, não só para programacultores experientes como também para iniciantes (embora seja uma leitura mais demorada). É realmente leitura obrigatória, inclusive a cada nova versão escrita.
Uma boa leitura complementar é o ActionScript 3.0 Cookbook, que ensina diversas técnicas bastante práticas para o semeio de ActionScript – não só técnicas que podem ser usados no dia-a-dia em sua criação, mas que lhe ensinarão a ser um melhor programacultor.
Existem algumas leituras complementares avançadas, mas talvez fuja um pouco do escopo deste artigo, já que programacultores experientes provavelmente não precisarão de minhas dicas para irem atrás do que precisam. No entanto, em prol da ilustração, cito em especial o ActionScript 3.0 Design Patterns, que ensina aos criadores a melhor maneira de dispor sua horta de forma a conseguir o melhor aproveitamento possível do solo e por consequência o melhor semeio a curto e longo prazos.
E, finalmente, gostaria de encerrar esta coluna com uma constatação do óbvio: nada substitui a prática. A criação com sucesso de sites em Flash é algo que requer tempo, paciência, e um pouquinho de amor. Portanto, não existem atalhos. A minha recomendação final é simplesmente tentar, errar, e fazer algo de diversas formas diferentes, até acertar. Por mais incrível que possa soar, criação orientada a objetos não é uma ciência exata, e requer um certo tempo até todos acertarmos a mão. Comece aos poucos, mantenha o foco, que a coisa vem naturalmente.
A cidade ideal
by Zeh on August 21, 2009
A cidade ideal teria suas ruas divididas em retângulos, como em Nova York. Quer ir pro norte? É só pegar uma rua que vai pro norte. Não precisa se preocupar com curvas sinuosas que te fazem sair do caminho.
Da mesma forma, a cidade também teria avenidas e ruas com nomes numéricos, em sequência – do norte pro sul, e do leste pro oeste (ou vice-versa). Quer ir da oitava avenida pra sexta avenida? Dois quarteirões na direção leste. Não sabe onde é a 50a rua, nunca ouviu falar? Fica depois da 49a, é lógico.
E ainda obedecendo ao grid, as ruas e avenidas teriam mãos previsíveis: pares vão numa direção, ímpares em outra. Não precisa circular 10 quarteirões só porque você quer entrar numa rua de mão única e não consegue nenhum ponto de acesso.
Já os prédios, casas, lojas e demais logradouros seriam numerados de acordo com sua distância até o início da rua, em metros, como em São Paulo. Fica fácil de saber a distância de um ponto a outro. Quer ir da altura do número 120 até o número 500? São 380 metros.
Essa cidade teria um metrô 24 horas, que percorre praticamente a cidade toda, incluindo os pontos mais remotos, como em Nova York. E os metrôs teriam linhas expressas, que pulam algumas estações, pra quem quer ir rapidamente pra algum canto. Não só isso, mas diversos pontos de transferência e integração entre linhas. E, desnecessário citar, os trens seriam pouco lotados, mas ainda assim teriam um ar-condicionado bem eficiente.
Mas os metrôs seriam rápidos, limpos e bem-conservados, como em São Paulo. Além disso, você não teria entradas extremamente específicas, que te obrigam a sair, atravessar a rua, e pagar outro bilhete se você tiver entrado, sem querer, na plataforma da direção errada – os pontos de entrada e saída seriam unificados.
As estações de metrô teriam máquinas de compra de bilhetes que aceitariam cartão de crédito, débito, notas, ou moedas, permitindo a qualquer um adquirir um bilhete – ou colocar créditos em seu bilhete recarregável – de forma rápida e, geralmente, sem filas. Como em Nova York. As catracas para entrada seriam inúmeras, como em São Paulo, e com catracas específicas para entrada ou saída, para evitar confusões de catracas que servem aos dois propósitos.
Como em Nova York, você não precisaria de carro para nada. Seria muito mais fácil, rápido, e barato, chegar de metrô em qualquer lugar. O trânsito seria um problema menor, senão inexistente. A cidade seria escrava do pedestre, não do automóvel. E as bicicletas seriam extremamente práticas.
Toda esquina da cidade ideal teria uma lata de lixo de verdade, e toda residência teria coleta de lixo reciclável, como em Nova York. Mas as calçadas e ruas pareceriam mais limpas, assim como, incrivelmente, São Paulo (ou partes de São Paulo).
Na cidade ideal, os caixas eletrônicos dos bancos permitiriam depósitos em dinheiro ou cheque sem a necessidade de envelopes especiais ou do preenchimento de qualquer outra coisa. Como em Nova York, elas leriam os valores das notas, e os valores dos cheques, e permitiriam a você conferir o depósito antes de efetuá-lo. Os caixas seriam limpos e bem conservados, como em São Paulo.
Os parques seriam limpos, confortáveis, e convidativos, sem terem sido dominados por moradores de rua, drogados, trombadinhas ou outros seres estranhos. Crianças brincariam felizes nos parques das áreas mais residenciais, e os mesmos também teriam específicas para donos de cachorros deixarem seus melhores abrigos brincarem e correrem, assim como se vê em Nova York.
Da mesma forma que em Nova York, as cervejas encontradas nos bares seriam inúmeras, sem o domínio de uma ou outra marca. E com sabores e texturas das mais distintos, ao invés de poucas variações do mesmo tipo de cerveja. Mas você poderia beber na rua, como em São Paulo.
O churrasco da cidade ideal seria como em São Paulo, ou outras partes do sul do Brasil – regado a muita carne, muito sal, e churrasqueiras exclusivamente de carvão. Mas o hambúrger ou o sanduíche encontrados em qualquer esquina seriam como seus equivalentes de Nova York – bem servidos, e dos tipos e sabores mais variados.
As garotas da cidade ideal seriam tão bonitas – e usariam roupas tão sensuais – quanto as de São Paulo (ou de qualquer outra cidade brasileira). Mas teriam histórias de vida, origens e experiências tão variadas quanto as que você encontra nas garotas de Nova York.
Para ser realista, o aluguel de alguma casa ou apartamento na cidade ideal seria tão barato quanto o aluguel médio de São Paulo. As residências também seriam tão espaçosas quanto as que você geralmente encontra lá. Mas, ao mesmo tempo, seria muito mais rápido de chegar em qualquer lugar, como em Nova York – morar na periferia seria algo comum. Toda a idéia de periferia seria algo difícil de entender, no entanto, já que o contraste entre áreas não seria mais tão grande.
A cidade ideal seria uma cidade extremamente urbanizada em seu núcleo. Com lojas para tudo, e áreas mais ou menos especializadas num determinado tipo de comércio. Com em São Paulo ou, especialmente, Nova York. Com áreas de lazer e relaxamento – praias e parques – a dois passos de distância, como em Nova York, mas com praias tão boas quanto as do Brasil.
A cidade ideal seria perfeita.
Mas talvez aí já não teria mais tanta graça.