Já não se enchem mais lajes como antigamente
by Zeh on July 17, 2009
Domingo, 6 da manhã. Sebá dobra a esquina e começa a subida da ladeira. Os passos cansados, culpa do corpo envelhecido, mas a mente afiada apesar da noite breve de sono. Tinha acordado cedo demais, pensou. A verdade é que cada vez dormia menos. Culpa da velhice, dona Nízia diria. E com razão; apesar do breve meio século de existência, a vida de Sebá tinha sido dura. Seus ossos doíam ainda mais quando se lembrava do passado.
Já conhecia muito bem a ladeira. Fazia esse caminho todo dia, para chegar à padaria onde tomaria o café da manhã. Ainda assim, enquanto caminhava, olhava atentamente para o chão à sua frente. Tinha medo de tropeçar em algum buraco novo, incidente frequente nesta ladeira de paralelepípedos, rara sobrevivente à expansão do asfalto. Uma pedra arrancada era o que lhe preocupava. Já o resto do cenário continuaria sempre o mesmo. E era uma ladeira acentuada. Olhar para a frente, inclinado como seu corpo já estava, era difícil. Preferia evitar a dor no pescoço.
O barulho começou de forma suave. A cada novo passo, no entanto, seu volume aumentava, até que se tornou impossível ignorá-lo. Foi o que o fez olhar para a frente. Nada podia ter-lhe preparado para a cena assombrosa que desenrolava à sua frente.
Um caminhão estranho, estacionado na rua. O nome correto era “betoneira”, disso Sebá tinha certeza. Já tinha visto caminhões assim antes. Ninguém à vista, mas o caminhão estava de alguma forma ligado, dado o barulho que emitia.
Da traseira do caminhão saía uma mangueira. Ou um tubo bem grosso que parecia uma mangueira. Fosse o que fosse, era razoavelmente flexível, e sua outra ponta repousava numa residência próxima – mais precisamente, na laje em construção da casa em frente à qual o caminhão estava estacionado.
Foi então que Sebá percebeu. Da ponta do tubo, saía um líquido viscoso. Concreto. O caminhão estava descarregando concreto diretamente na laje da casa, sem qualquer intervenção humana visível.
A compreensão fez as penas de Sebá tremerem uma vez mais e quase cederem. Lembrou-se imediatamente de todas as vezes em que ajudou seus vizinhos a encherem lajes com cimento. A preparação do cimento na rua, e a marca que isso deixaria para sempre na calçada. As latas cheias de cimento sendo carregadas de um lado para o outro e içadas. As dores nas costas. O cimento a cair nas suas pernas e a fechar os cortes criados criados momentos antes pela metal da própria lata. O churrasco magro no final do dia, a sensação de dever cumprido, e os novos laços forjados com seus vizinhos no calor do trabalho manual.
Uma vila inteira levava um dia para encher uma laje. A julgar pela velocidade com que vomitava cimento, esta máquina realizaria o mesmo trabalho em menos de uma hora. Sozinha.
Sebá abaixou a cabeça, apertou o passo e continuou a ganhar a ladeira. Os ossos doíam cada vez mais. Não ligava. Queria se distanciar desta realidade. Tudo que pensava é que já não se enchem mais lajes como antigamente.