Estranho em terra estranha
by Zeh on June 27, 2009
Quinta-feira passada me mudei para Nova York, para finalmente trabalhar no escritório da Firstborn, empresa pra quem já trabalho remotamente há quase 2 anos.
Mudar de cidade, país, língua, e cultura não é uma coisa tão simples assim, no entanto, e embora eu não tenha tido nenhuma surpresa absurda, acho que seria legal falar aqui como foi o primeiro contato, já que nunca tinha estado nesta cidade antes (ou neste país).
O surreal de chegar numa cidade como Nova York, pelo menos pra um brasileiro, é que nos deparamos com muitas coisas que são novas, ao mesmo tempo que já são conhecidas através de filmes e séries – pessoas, lugares, etc. É uma experiência bem esquisita.
Nesse sentido, talvez uma das maiores surpresas que eu tenha tido é ver que muitos dos esterótipos que a gente vê na mídia são realmente encontrados aqui. Sabe aquela coisa do “cara branco bem vestido mas racista”, “suburbano gangsta que se veste como Tupac”, “garota suburbana que fala muito rápido e muito alto e não leva desaforo pra casa”, “redneck que não gosta de ninguém”, “indiano com inglês engessado”, “garotinha mimada que fala muito oh my god“? Então.
Não falo isso de forma negativa, no entanto. Todo lugar tem suas figuras e suas personalidades – positivas ou negativas – e imagino que no Brasil não seja diferente.
A chegada foi super tranquila, apesar das 9 horas de vôo. Infelizmente o aeroporto onde desembarquei – JFK – não tinha wi-fi gratuito, ao contrário do que eu esperava. Menos um ponto para o grande centro social-tecnológico do mundo.
Peguei o trem para sair do aeroporto e para fazer a baldeação pro metrô (linha A). Já me fodi logo de cara: precisava comprar um MetroCard pra fazer a baldeação, que custava $7. A compra era feita através de máquinas que aceitavam notas de $5 até $50. O detalhe é que eu só tinha uma nota de $5 e uma caralhada de notas de $100. It doesn’t feel good to be a gangsta.
Quem me salvou foi um indiano que era dono de uma vendinha de balas do lado da catraca (e que também vendia metrocards) e que pode trocar a nota de $100. Os indianos com quem me deparei são um capítulo a parte aliás – eles não só estão em todo lugar mesmo, como era o esperado, mas são super gente boa e pacientes. Esse cara foi amigão mesmo, me mostrando como usar o negócio e pra onde ir.
O metrô de Nova York é aquilo que muita gente sabe: por estar na cidade inteira, por ser muito antigo, e por ser 24 horas, ele é meio sujão. Não tem uma identidade única (ou quase única), como é o caso de São Paulo. As estações lembram muito as estações de trem de São Paulo, pela estrutura e pelo nível de limpeza. Os trens são um misto do metrô de São Paulo e dos trens – funcionam, e são relativamente limpos, mas bem antigos.
Fui de metrô até Manhattan, onde faria a baldeação pra pegar o trem que me levaria até o Hoboken, em New Jersey (onde mora um amigo meu que me deixou passar uns dias no apartamento dele enquanto eu não achava apartamento). Aproveitei pra dar uma volta por Manhattan para ver o lugar e pra tentar comprar um telefone.
Obviamente que já tinha visto fotos e filmagens de Manhattan, então sabia mais ou menos o que esperar, mas estar no nível da rua te dá uma visão meio diferente. Manhattan é mais parecido com São Paulo do que eu esperava. É tipo uma São Paulo que funciona. Acho que é um misto de Rio de Janeiro – as pessoas parecem estar mais à vontade – e São Paulo – muita gente, muita muvuca, muitos carros, pedestres não ligam pro semáforo se já der pra atravessar a rua, etc. Ao mesmo tempo, nada parece super corporativo, que era o que eu esperava. Você anda por vários lugares que, pra um paulistano como eu, dão a impressão de que você está num bairro bem residencial. Se bem que não fui pra lower Manhattan – fiquei só no meio do lugar.
As lojas, em sua grande maioria, são lojas que dão impressão de serem comércio de família, não mais uma filial de uma grande rede. Existem redes sim – Starbucks, MacDonalds (muito menos do que eu esperava), etc – mas no geral as fachadas são mais convidativas. Difícil explicar. E tem todo tipo de loja e restaurante mesmo, dá um ar mais colorido ao lugar.
Tem muito imigrante e estrangeiro sim na cidade. Alguém me disse que 30% da população da cidade é de estrangeiros. A impressão é de que são muito mais. É comum ver gente passando e ouví-las falando línguas irreconhecíveis. Propaganda em diversas línguas é também comum, bem como instruções em espanhol no metrô e afins. No metrô vi uma propaganda numa língua que também não reconheci, e gosto de acreditar que conheço bastante sobre caracteres dos mais diferentes alfabetos.
Não consegui achar nenhuma loja da T-Mobile aberta pra comprar o fone que eu queria e fui embora, pegando o trenzão pra New Jersey, já destruído de tanto andar com minha mochila e minha mala de tralhas.
Chegando na casa do meu amigo tive outra surpresa que explica bem um pouco da cidade: ele não estava em casa. Toquei a campainha e ninguém respondia. Não tinha podido avisar a ele que horas eu chegaria, já que não pude usar o wifi do aeroporto, e já eram umas 10 horas. Sem telefone pra poder ligar pra ele e descobrir onde ele estava, o que fazer?
Existia uma loja de conveniências ao lado, onde entrei pra perguntar se eles conheciam algum telefone público nos arredores. Não conheciam. Os vendedores – indianos, e também super gente boa – se ofereceram pra ligar pro meu amigo. Era um pessoal, digamos, descontraído. O diálogo que tive com o dono da loja – menos sério do que parece – foi mais ou menos assim:
What are you, German?
No, I’m from Brazil.
I don’t like men from Brazil.
You don’t?
Yeah. I only like Brazilian Women.
Well, me too.
Infelizmente, meu amigo não atendia o telefone, então teria de esperar.
Aí tive uma idéia. Sentei na calçada e abri o laptop. Existia a remota chance de que alguém tivesse uma rede aberta que me permitisse usar a Internet pra mandar uma mensagem pro cara (já que ele recebe mensagem do MSN no telefone).
Em São Paulo, onde eu morava (Belénzinho), existiam umas 3 ou 4 redes wifi ao meu redor, nenhuma aberta. Mas esperava que aqui a coisa fosse diferente. Procurei as redes e, pra minha surpresa, achei dezenas de redes wifi disponíveis. Uma meia dúzia delas, abertas. Conectei em uma que parecia ser da loja de conveniências ao lado, mandei uma mensagem pro cara, e 10 minutos depois ele chegava pra abrir o apartamento.
Mesmo no Hoboken, que é um lugar mais longe – já que é fora de Nova York, sendo até mesmo outro estado – ninguém achou estranho um cara sentado na rua usando um laptop. Ninguém tentou me roubar ou pedir dinheiro.
E essa é outra coisa estranha da região no geral, e algo que ficou mais claro quando saímos do apartamento do cara pra dar uma volta pelo bairro durante a noite (de bermuda e chinelo, porque tá calor): o lugar passa uma sensação de segurança. Você vê carros imensos e caros estacionados na rua sem a menor preocupação. E não são muitos, mas a maioria. E mesmo num lugar onde carro não é estritamente necessário, a galera gosta de carro grande.
Já na sexta feira fui finalmente trabalhar. Peguei um ônibus que em 25 minutos me deixou a 2 quarteirões do trabalho. Pra um Paulistano, chegar em Nova York é quase como ir pra uma cidade do interior – parece que é tudo muito mais perto.
Isso é um reflexo de como a cidade se desenvolveu. Apesar de houverem graves erros cometidos no passado, em Nova York no geral o desenvolvimento urbano sempre foi muito voltado pros cidadãos, não para os carros. é muito mais fácil se deslocar através de transporte coletivo, e muito fácil ir a pé de um lugar a outro, ao invés de ser como São Paulo, onde o carro reina supremo.
No trabalho não fiz muita coisa além de finalmente conhecer a galera com quem já falava há anos, começar a configurar o computador, essas coisas.
E finalmente comprei o telefone que eu queria na hora do almoço. Foi quando ficou claro também que a presença de estrangeiros é realmente forte na cidade. A loja onde fui – do lado do trampo – tinha dois vendedores, e ambos falavam espanhol além do inglês. E realmente atenderam várias pessoas em espanhol. O cara que me atendeu, vendo que eu era Brasileiro, até se desculpou dizendo que tinha outro vendedor lá que falava português mas que ele não tinha ido trabalhar aquele dia.
Esse lance de telefone é um caṕítulo a parte. Bem ou mal, aqui existem muito mais razões pra você usar um smartphone como é o caso do G1. Não só planos de dados ilimitados via 3G são mais comuns, e mais baratos, como existem aplicações excepcionais pra plataforma – mapas, aplicativos que permitem a você achar o lugar onde um produto está sendo vendido ao seu redor (e o melhor preço) lendo seu código de barras, localizadores de restaurantes e outros com indicação de direção e compasso pra te ajudar a achar o lugar, e uma caralhada de outras coisas que parecem bestas mas que facilitam muito a vida só por estarem no celular (sem esquecer do normal, como web, Twitter Gtalk, MSN, etc). É pouca surpresa que tanta gente ande pela rua enquanto utiliza o celular, não para falar, mas para alguma outra coisa.
No geral o povo tem sido muito gente boa. Esse amigo meu tá sendo foda. Existem coisas que sempre vão causar estranhamento – tipo pegar o ônibus, já que você tem de pagar um valor baseado em onde vai descer, e só em moedas – mas é o tipo de coisa que depois que você passa pelo choque inicial, esquece. Ter de arranhar o inglês pra perguntar algo (que deve ser super óbvio) pra alguém dá uma certa humildade a qualquer um, mas sobrevive-se. Mas é legal ver que, por ser uma cidade que está no meio de tudo, é fácil de encontrar informações online.
Daqui a pouco vamos pra praia, e domingo vou assistir à final das copas das confederações – Brasil x EUA! – num bar com uma galera daqui. Essa terra não é tão estranha assim, afinal.