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Artigos sobre a prática de desenvolvimento de interfaces e design gráfico, bem como trabalho em geral.
Artigos sobre a prática de desenvolvimento de interfaces e design gráfico, bem como trabalho em geral.
Escrito em 10/October/2009, 16:54 em choque, nova york, trampo | 13 comentários
Ao contrário do que muita gente pensa, ir trabalhar numa agência de fora do país não é nenhum bicho de sete cabeças.
Talvez eu tenha dado um pouco de sorte, porque quando vim pra cá, já tinha uma boa experiência depois de trabalhar com o mesmo pessoal durante dois anos, e já tinha vários outros amigos que tinham me dado uma boa noção do que esperar, então não acho que fui pego de surpresa em relação às coisas mais importantes. Mas, considerando que muita gente me pergunta sempre sobre o mesmo assunto, aqui vai um apanhado de coisas que aprendi de um jeito ou de outro sobre a experiência específica de se transplantar pra uma agência ou um estúdio interativo fora das terras de Cabral, em especial nos Estados Unidos; imagino que possa ser útil pra quem esteja contemplando esse passo no futuro.
Contratar gente de fora é coisa normal. Boa parte das agências faz isso sem se preocupar. Isso se deve a uma combinação de vários fatores, mas gosto de acreditar que um dos principais seja o fato de que um ambiente mais rico em experiências tende a refletir positivamente no trabalho que é criado. Acho que na Firstborn, onde trabalho, metade dos funcionários é estrangeiro.
Da mesma forma, embora estejam sempre à espreita atrás dos melhores do mercado – coisa que só o mercado local não dá conta, daí a necessidade de se contratar gente de fora – é comum que agências contratem também funcionários mais juniores, ou interns – algo como um estágio – por um período menor de tempo. A Firstborn constantemente contrata caras de várias partes do mundo pra trabalhar aqui por 3 meses, muitas vezes estudantes universitários. Ou seja, as agências contratam gente de todo nível.
Agências são extremamente pragmáticas na hora de contratar. Isso quer dizer que elas levam em consideração tudo que é importante – em especial o portfólio de alguém – e nada mais. Aquela coisa do “quem indicou” é muito menor por aqui – a impressão é que eles querem evitar que alguém seja contratado só por ser conhecido de alguém (embora recomendações sejam bem aceitas, e às vezes até requisitadas). A título de ilustração, é normal a agência onde eu trabalho ter contactado ou entrevistado gente que eu conheço sem que eles tivessem me questionado sobre a pessoa, só o fazendo no final do processo; talvez eles temessem que eu levasse pro lado pessoal mais do que o profissional.
Ou seja, ter um camarada dentro de um lugar não quer dizer muita coisa, ou pelo menos, nem tanto quanto quer dizer no Brasil. Não existem muitos atalhos (e note que não estou dizendo que isso seja bom ou ruim).
O melhor método pra conseguir uma emprego é sempre ir no site das agências que estejam com vagas e mandar seus dados. Não tem magia nenhuma envolvida.
O motivo de contratar estrangeiros não é mão-de-obra-barata. Embora isso talvez seja verdade em outros setores da indústria, a verdade é que contratar estrangeiros é mais chato e mais caro (em alguns casos, muito mais caro e muito mais chato) do que contratar algum nativo. É algo que é feito com base nos méritos profissionais de cada indivíduo, não na sua capacidade de aceitar salários mais baixos.
Salários são sempre declarados pelo valor anual. O salário nunca é descrito pelo seu valor mensal, como no Brasil. Então, quando você estiver pra aceitar uma oferta, lembre-se de que pra sacar direito o quanto isso representa, é necessário dividir por 12; se você vir alguma oferta de emprego que oferece, digamos, $50k (50,000), isso significa um salário mensal de $4166.
Os salários são sempre declarados em sua forma bruta, sem imposto. Da mesma forma, salários sempre são oferecidos e declarados em vagas sem o imposto ter sido contabilizado – e o imposto corta, em média, 30% do salário. No caso acima, dos $4166 mensais, uma boa parcela seria removida, chegando ao total de $2916 mensais que seriam então recebidos pelo empregado.
Ou seja, quando alguém lhe fizer uma oferta de emprego, calcule bem antes para não ter nenhuma surpresa. Isso não é feito imediatamente claro pelas empresas quando elas contratam algum estrangeiro, porque é algo muito óbvio para elas, mas fazemos a coisa de modo diferente no Brasil, diferenciando entre bruto e líquido com mais frequência (e na verdade, nosso imposto real é muito mais alto).
Não tem décimo-terceiro, um mês de férias remuneradas, nem nada disso. Os benefícios variam de empresa pra empresa (em especial em relação a como as férias funcionam), e muitas até oferecem bônus durante o ano ou em seu final, mas no geral, vale lembrar que as regras trabalhistas fora do país não são as mesmas de dentro do Brasil.
O custo de vida aqui é muito mais alto, talvez em especial em Nova York. É comum alguém ver uma oferta de emprego e ficar excitado pelo valor oferecido – em dólares! – porque faz uma comparação com o mesmo valor no Brasil. A verdade é que algumas coisas são bem mais caras por aqui, em especial o aluguel: em Nova York, a média é gastar um terço do seu salário líquido com o aluguel. Ou seja, nunca julgue seu futuro salário sob o prisma do Brasil – você pode acabar recebendo uma merreca que mal dá para pagar as contas, enquanto achava que estaria fazendo rios de dinheiro.
Embora exista uma certa inversão desse fator – qualquer tipo de dispositivo eletrônico é, obviamente, muito mais barato aqui do que no Brasil – ele não é suficiente pra compensar a diferença a longo prazo.
Existem diferentes tipos de visto de trabalho, cada um com suas próprias vantagens e desvantagens em relação a tempo de duração, preços, tipo de trabalho, dificuldade em se obter, etc. Quando uma empresa vai contratar alguém, o visto faz certa diferença já que alguns vencem depois de um tempo e alguns dão um trabalhão para serem tirados. Só pra referência, pro meu visto, tive de passar uns 6 meses escrevendo textos (em paralelo com meu trabalho normal) numa rotina longa e chata que me deixou numa pilha de nervos eterna. O processo de aprovação mesmo levou 2 semanas, mas toda a preparação pode levar muito mais.
Além disso, nenhum é muito automático – é comum as pessoas acharem que só porque uma empresa quer contratar alguém, o visto é “mais fácil”. Não é bem por aí – na verdade, o fato de uma empresa requerer seu visto é, salvo raras exceções, o mínimo requerimento necessário pra começar o processo.
Da mesma forma, visto de trabalho é visto de trabalho. Não é cidadania, não é greencard, não é nada disso – é só um sinal de que o governo Norte-Americano deu a um estrangeiro a permissão de trabalhar pra uma empresa durante um certo tempo. Assim, seu visto de trabalho está vinculado à empresa que te contratou: se você se demitir, tem de sair do país, e se você quiser mudar de emprego, a nova empresa precisa requerer um novo visto (ou transferir o anterior, dependendo do tipo). Além disso, embora portadores de visto de trabalho estejam tão dentro da lei quanto possível, e tenham Social Security Number (uma espécie de CPF nos Estados Unidos), eles não são cidadãos ou imigrantes Norte-Americanos: não podem votar, por exemplo, e são obrigados a seguir algumas restrições adicionais de permanência e trânsito internacional.
Ou seja, embora alguns vistos de trabalho possam ser renovados indefinidamente, a permanência do portador do visto dentro do país é vista, antes de tudo, como temporária. Obviamente, outros países podem tratar a coisa de forma diferente, mas minha experiência é limitada aos Estados Unidos.
Ninguém vai ficar dando assistenciazinha quando você chega de fora. Lógico, a empresa geralmente tá preparada pra ajudar com indicações de corretores, hotéis e coisas assim quando alguém chega de fora da cidade ou do país, e é comum ter um pequeno bônus pra ajudar no custo da mudança. Mas ninguém vai ficar alugando casa ou comprando móveis pra recém-contratados – isso é uma coisa mais pessoal e espera-se que as próprias pessoas façam isso. Pra quem vem de fora, é uma boa planejar com antecedência como a coisa acontecerá, ao invés de ficar esperando alguém levar pela mão e ser surpreendido ao invés.
E finalmente, vale mais a pena pela experiência do que por qualquer outra coisa. Pra quem quiser fazer dinheiro fácil, é mais prático e lucrativo trabalhar remotamente – ou seja, do Brasil para alguma agência nos Estados Unidos ou em outro lugar. Mas, para quem quer aprender, e ter uma boa dose de uma experiência meio diferente, é uma experiência fantástica e bastante recompensadora.
Escrito em 27/September/2009, 11:19 em trampo | 1 comentário
Mais ou menos em 2004, trabalhando na Grafikonstruct, o Teco me falou de um cara que trabalhava com uma tecnologia web para edição de textos – algo descrito como um Word rodando dentro do browser, pra ser vendido pra empresas que precisavam de edição de texto rico online.
Na época, achei hilário – pra não dizer completamente idiota.
Eu acreditava que esse tipo de coisa nunca funcionaria. Tecnicamente, até era possível: já existia tecnologia semelhante pra compartilhamento de texto e edição online – Wikis – e em todo caso, editores de texto rico também eram comuns. Mas, basicamente, não via razão real pra tal coisa além de em wikis eventuais. Quem em sã consciência iria trocar a facilidade de se rodar um aplicativo estável por algo rodado num servidor, com uma série de dependências de conexão, pra editar um texto?
Fast forward para os dias atuais. Hoje, quando chego no escritório, rodo o Google Chrome e ele automaticamente já abre uma dezena de abas de documentos que utilizo, todos eles mantidos no Google Docs – a maioria textos, mas algumas planilhas também. Não só online, editados num browser, mas compartilhados com inúmeras pessoas envolvidas em cada projeto – internamente e em outros lugares ao redor do país – e editados simultaneamente sem precisar ficar mandando arquivos anexados em email, e sem conflitos de edição no mesmo documento. De forma similar, meu trabalho de conclusão de curso quando me formei ano passado foi completamente editado no Google Docs, já que o fazia de uma série de computadores diferentes e era mais prático ter o documento sempre acessível a partir dum website do que ficar carregando versões de um arquivo sempre comigo.
Desnecessário dizer que mudei de idéia em relação à edição de documentos online.
O óbvio hoje pra mim é que não dá pra prever direito o quão eficiente um novo recurso vai ser só pelo lado técnico, ou só pelos contexto que temos imediatamente disponível. Às vezes, as soluções não chegam pra tentar ser uma duplicata do que já existe, mas sim pra apresentar novas possibilidades – coisas que nem eram imaginadas como possíveis ou práticas até então.
Devido a esta e outras previsões furadas de forma semelhante, uma coisa que venho tentando praticar nos últimos anos é deixar de fazer previsões. Manter a mente aberta, ou mais especificamente, evitar pré-julgar qualquer tecnologia ou serviço digital estritamente pela parte técnica. Fico com medo de virar um neo-ludita revoltado – alguém que odeia tudo que surge de novo só porque é novo.
E pessoas que trabalham com tecnologia, por mais irônico que pareça, são mais suscetíveis a isso, uma vez que elas quase sempre têm a certeza de que sabem de tudo.
Escrito em 26/August/2009, 10:44 em pirações, trampo | 12 comentários
Esta semana, publico aqui o conteúdo de minha coluna de cartas do leitor, originalmente publicada nas páginas do Compêndio Anual Regulatório de Análise Linguística e Habilidades Outras. Reproduzido com permissão da editora.
Caro Sr. Zeh Fernando,
Eu quero criar websites Flash em ActionScript 3, mas não sei o que eles comem. Pode me ajudar?
Um abraço,
Leitor Assíduo
Caro Leitor Assíduo,
Muito pertinente sua dúvida. Essa é uma questão que sempre vem à tona nos círculos intelectuais dos criadores Flash, seja em palestras, mesas de discussão, mesas de bar, ou sarjetas pós-mesa de bar. A criação de sites Flash é algo difícil, e considerando-se a velocidade das mutações à qual o organismo desta plataforma tem passado nos últimos anos, as técnicas para criação e manutenção de websites em Flash estão também em constante mudança.
Para tentar elucidar as questões mais pertinentes e retratar o patamar atual desta parcela tão curiosa de nossa ecologia de interfaces, listo aqui algumas conclusões à qual cheguei após a observação da espécie, não só em cativeiro mas também em seu habitat natural. No entanto, seria difícil para mim discorrer aqui sobre todas as técnicas para criação de websites em ActionScript 3, considerando-se a complexidade do tema, então o que farei é listar algumas das soluções normalmente utilizadas para o aprendizado das tais técnicas. Um meta-ensino, por assim dizer.
Uma das primeiras alternativas para o aprendizado de ActionScript 3 que geralmente vem à mente de criadores amadores é o de utilizar cursos de Flash ou de ActionScript 3.
Talvez eu não seja a melhor pessoa indicada para falar disso – visto que nunca fiz nenhum curso de ActionScript, Flash ou de nenhuma outra linguagem de programação (com a exceção de algumas aulas de BASIC que tive na escola, quando ainda era um mero pimpolho de 10 anos, um programacultor em formação) – mas minha sincera opinião é de que cursos desse estilo não funcionam muito bem. Como a maioria das variantes das linguagens de programação orientadas a objeto, ActionScript 3 é um assunto de difícil assimilação e definitamente não é algo que se aprende em 6 meses, ou mesmo em um ano, a menos que o aspirante a programacultor ActionScript já tenha uma boa experiência com outras culturas de linguagem de programação.
Da mesma forma, cursos voltados a plataformas parecidas geralmente tentam atrair e manter o aluno através de resultados rápidos, o que nem sempre isto é a melhor opção. Existem diferentes formas de criar websites com ActionScript 3, e os melhores métodos a longo prazo são, geralmente, os que levam mais tempo para assimilação. Infelizmente, a grande maioria dos alunos quer ver seus botões em ActionScript 3 desabrochando e saltitantes com o mínimo tempo e esforço, sem se preocupar em aprender as melhores técnicas para seu semeio, ou sem explicar o porquê deles serem criados de uma forma e não de outra. Isso faz com que a longevidade de sua produção sofra, algo que só se percebe tarde demais.
Um último e controverso ponto é de que a maioria dos instrutores encontrados em escolas de programacultura não são exatamente os melhores criadores de websites em ActionScript 3. Infelizmente, instrutores são só isso, instrutores, geralmente pagos para ensinar o semeio de diferentes culturas ao mesmo tempo, sem nunca se focar no cultivo de uma plataforma específica. Isso quer dizer que eles são treinados para passar o conteúdo de uma apostila previamente planejada com louvor, mas possuem limites em seu conhecimento – resultando num discurso bem linear e unilateral. Questões oriundas de uma mente em aprendizado inquisitiva poderão ficar sem resposta. Pior, seu conhecimento é frequentemente datado, especialmente quando pensamos numa cultura em mutação constante como a de ActionScript.
Minha conclusão nesse sentido é de que, para quem gosta de um aprendizado coletivo, em grupos, um curso pode ser uma boa porta de entrada ao mundo da programacultura para Flash. No entanto, provavelmente não é o caminho ideal para se seguir. Não recomendo gastar muito dinheiro nisso.
Outra alternativa é através de publicações. Nessa área, felizmente, a programacultura ActionScript 3 está muito bem servida, já que existe uma boa quantidade de de material didático existente.
E perceba que quando falo de material didático, quero dizer livros, não apostilas. Apostilas é coisa de quem quer fazer cursinho e não tem paciência pra estudar, quem quer plantar e não quer esperar a planta crescer, quem quer adubar e sentir cheiro de flores, quem quer aprender kung-fu sem levantar a bunda da cadeira. Apostilas são um mito.
A principal recomendação literária de minha parte é ler, de cabo a rabo, o último livro do Colin Moock – atualmente, Essential Actionscript 3.0. Este livro contém todo tipo de informação que os criadores de sites em Flash precisam saber para um cultivo proveitoso, não só para programacultores experientes como também para iniciantes (embora seja uma leitura mais demorada). É realmente leitura obrigatória, inclusive a cada nova versão escrita.
Uma boa leitura complementar é o ActionScript 3.0 Cookbook, que ensina diversas técnicas bastante práticas para o semeio de ActionScript – não só técnicas que podem ser usados no dia-a-dia em sua criação, mas que lhe ensinarão a ser um melhor programacultor.
Existem algumas leituras complementares avançadas, mas talvez fuja um pouco do escopo deste artigo, já que programacultores experientes provavelmente não precisarão de minhas dicas para irem atrás do que precisam. No entanto, em prol da ilustração, cito em especial o ActionScript 3.0 Design Patterns, que ensina aos criadores a melhor maneira de dispor sua horta de forma a conseguir o melhor aproveitamento possível do solo e por consequência o melhor semeio a curto e longo prazos.
E, finalmente, gostaria de encerrar esta coluna com uma constatação do óbvio: nada substitui a prática. A criação com sucesso de sites em Flash é algo que requer tempo, paciência, e um pouquinho de amor. Portanto, não existem atalhos. A minha recomendação final é simplesmente tentar, errar, e fazer algo de diversas formas diferentes, até acertar. Por mais incrível que possa soar, criação orientada a objetos não é uma ciência exata, e requer um certo tempo até todos acertarmos a mão. Comece aos poucos, mantenha o foco, que a coisa vem naturalmente.
Escrito em 14/July/2009, 19:49 em choque, nova york, trampo | 2 comentários
Talvez eu não tenha deixado muito claro, mas toda a minha adaptação à nova cidade após a mudança teve a ajuda de um elemento importantíssimo. Peça-chave de qualquer tarefa que tenho de realizar em solo imperial, ele está sempre lá, me ajudando sem reclamar.
Falo do meu telefone celular.

O telefone que comprei aqui é o HTC Dream, vendido em solo local como T-Mobile G1. Apesar de ter falado um pouco desse fone antes, acho que ele merece um post próprio.
Esse era um fone no qual eu já estava interessado há um tempo por dois motivos. O primeiro é por saber do que o celular é capaz, já que existe uma caralhada de aplicativos disponíveis pra ele (e vale lembrar, aplicativos que não têm de lidar com censura prévia, ao contrário do que a Apple faz com o iPhone). O segundo é a abertura do sistema operacional (Android), que permite que você desenvolva aplicativos e extenda funcionalidade do sistema operacional sem muita dor-de-cabeça (de novo, especialmente em comparação a sistemas mais restritos, como o do iPhone). Eu já tinha brincado com desenvolvimento pra ele através do emulador e estava com vontade de tentar algo mais real.
Comprar o celular foi a primeira coisa que tentei fazer logo quando pisei em Manhattan, recém-chegado do aeroporto. Não consegui (pois já passava das 7 da noite e as lojas já estavam fechadas), mas no dia seguinte, após pagar os olhos da cara (já que eu não possuía credit score, fui obrigado a comprar o fone pelo preço total, sem subsídio através de contrato), era o feliz dono de um G1.
Fica difícil explicar o quanto ele ajudou, então seguem alguns exemplos do meu uso do celular por aqui.
O uso mais óbvio é pra mapas através do Google Maps, já que boa parte do software do G1 é criado pelo Google e o aparelho possui GPS. O vídeo abaixo é meio forçado e usa uma versão antiga do aplicativo, mas mostra bem os recursos disponíveis.
Com a facilidade dos mapas, é comum eu sair andando a esmo pela cidade sem me preocupar onde estou – isso porque, quando quiser, posso me localizar facilmente. Se um dia minha bateria acabar do nada, não vou saber voltar.
Na mesma onda dos mapas, o G1 também possui o editor de mapas My Maps, que permite que você acesse seus mapas criados no Google Maps e edite-os da forma como desejar, criando novos pontos onde quiser, ou só consultando os pontos salvos anteriormente. Ou seja, igualzinho ao editor do site (utilizando o mesmo banco de dados), só que no celular.
Um último nessa categoria que me saiu super útil é o My Tracks. Ele permite a você gravar sua localização constantemente, criando assim um percurso que pode ser então salvo de diversas formas diferentes – incluindo dentro do Google Maps.
Pra se ter uma idéia da praticidade da coisa toda: há cerca de duas semanas, eu comprei uma bicicleta. Passei boa parte da semana passada andando de bike pelo Brooklyn, em parte porque realmente é muito fácil de andar de bicicleta por aqui (mais sobre isso no futuro) e em parte porque queria dar uma volta pelos bairros sugeridos por amigos e colegas pra decidir onde eu procuraria apartamentos para alugar em definitivo.
Conforme eu andava de bike, eu gravava meu trajeto pelo My Tracks. O intuito era não só me lembrar por onde passei, mas também saber quantos km andei, por quanto tempo, velocidade médias e máximas, etc.
Meu trajeto todo foi salvo no Google Maps. A imagem abaixo mostra 3 dias diferentes intercalados, totalizando uns 40km de percurso.
Além disso, sempre que eu chegava num ponto digno de nota, criava um novo marcador no Google My Maps com anotações e com uma foto da rua tirada na hora (não mostrados na imagem acima), pra me ajudar a lembrar da localização.
Outra utilização muito prática do celular é localizar um ponto comercial específico – tudo através do Places Directory, um aplicativo que ajuda a localizar lojas, restaurantes, bares e afins disponíveis ao seu redor. O aplicativo conta com informações e reviews sobre cada ponto, além da distância e de mapas e compassos indicando como chegar ao lugar.
Acabo usando esse aplicativo diversas vezes por dia. Esse aplicativo já me ajudou em diferentes momentos de uma forma incrível. Pra citar alguns: em determinado momento, andando por Manhattan, me deparei com um restaurante que anunciava ser de comida Brasileira. Como era uma quarta-feira, me perguntei se valeria ir a pena tentar entrar no lugar e pedir uma feijosada. Saquei o celular, procurei o restaurante no aplicativo (facilmente encontrado, já que ele estava bem na minha frente), e li os reviews disponíveis, trazidos de outros websites. As opiniões eram tão negativas que me fizeram mudar de idéia e trocar o paio hipotético por um sanduíche do Subway mesmo.
Outro exemplo é mais curioso. Um dia, voltando do trabalho, andando pelo bairro onde estou morando provisoriamente, me perguntei se havia algum supermercado por perto. Novamente, saquei o celular, procurei por “supermarket”, e encontrei um… a cerca de 40 metros atrás do ponto onde eu estava. Super perto, mas eu provavelmente teria demorado muito até perceber o supermercado por acaso.
E tudo isso sem contar os aplicativos sociais, que fizeram muita gente estranhar que eu estivesse respondendo mensagens e emails na rua: Meebo pra Android que me permite ficar lendo MSN e Google Talk enquanto ando (agora, quando alguém ver meu status como “On Mobile”, já sabe do que se trata); TwitterRide pra perder tempo no Twitter; Email embutido; etc.
Já muitos outros aplicativos pequenos/simples me ajuda bastante no dia-a-dia. O compasso, pra saber pra que lado eu tenho de ir quando estou num lugar desconhecido; o mapa do metrô de NY; jogos pra passar o tempo; etc.
Ou seja, o celular tem sido uma ajuda absurda na minha adaptação à cidade. Não só porque eu posso procurar qualquer informação na Internet mais rapidamente com ele, mas devido à gama de aplicativos pra facilitar a vida que ele tem. E nada disso é forçado; eu ainda me permito tentar um monte de coisas diferentes e sair aleatoriamente sem ficar verificando onde estou a cada 10 metros, e sem medo de experimentar algo novo. O bom é que o celular acaba poupando tempo e saliva quando preciso de alguma informação, ao invés de ser ser o condutor direto dos meus pés.
Eu amei até mesmo o teclado do aparelho, que eu originalmente achei que seria um porre de usar, e já não vivo sem ele. O G1 até tem teclado na tela estilo o iPhone; não uso nunca.
A verdade é, eu não consigo sequer imaginar como teria sido minha vida de transeunte estrangeiro em NY até agora sem o negócio. Eu cheguei na cidade com uma dúzia de papéis impressos, com mapas e informações pra poder me localizar onde quer que estivesse; mas, após ter adquirido o fone, pude me desfazer de tudo. Agora tenho tudo e mais um pouco à mão – ou instalado no celular, ou disponível online.
Isso porque ainda nem usei coisas como Wikitude (mais voltado pra turismo) e Shop Savvy (mais voltado pra compras).
Se já me sinto numa rotina sem muitas surpresas (às vezes, sério mesmo, dá impressão de que já vivo aqui há décadas, e já devo ter ajudado uma dúzia de pessoas na rua) é porque o celular fez com que a adaptação fosse a mais fácil possível. Talvez seja uma coisa que nem percebamos no Brasil, uma vez que não temos tanta informação online sobre comércios e tal (e fora que conexão G3 nem é tão difundida assim), mas depois de utilizar o celular por um tempo, fica fácil de perceber como dispositivos móveis estão prontos a revolucionar a computação móvel – eles estão solucionando problemas que mal entendíamos, e fazendo isso de forma fenomenal, super prática, e invisível.
Não quer dizer que o G1 seja algo de outro mundo; não levem por esse lado. Embora eu tenha amado o aparelho, provavelmente tudo citado aqui pode ser realizado através de um iPhone, Palm Pre, Blackberry e outros. A questão não é o modelo, mas a plataforma, e o contexto onde ela se insere. Pra mim é meio foda mostrar o quanto fico deslumbrado porque afinal trabalho com tecnologia e já sabia do que a plataforma era capaz, mas acho que o contraste de rotinas proporcionado por essa minha mudança é que me permitiu que eu absorvesse esse choque tecno-cultural em sua plenitude.
Smartphones são foda.
Escrito em 6/June/2009, 14:37 em estudos, trampo | 7 comentários
Hoje foi a última aula da oficina de Flash Lite 3.0 que dei no Senac São Paulo (a quem estiver curioso, o conteúdo ensinado está aqui, e os arquivos usados e criados estão aqui).
Não sou professor, mas como andei dando alguns desses cursos livres (gratuitos, abertos pra alunos de graduação de Design de Interfaces, contando como atividade complementar) e como acho que vai demorar muito tempo até eu repetir a experiência, achei que seria legal falar um pouco do negócio aqui.

Comecei a dar essas aulas em 2007, com uma oficina de Flash Lite 2.1 pra minha própria sala, não só para difundir um certo conhecimento que eu tinha, mas também pra contar como horas de atividade complementar tanto para mim como para minha sala (precisávamos disso de acordo com o currículo do curso). Depois da primeira, acabei dando outras oficinas de Flash e Processing também pra minha sala, e esta última, de Flash Lite 3.0, para outro semestre do mesmo curso, cada uma com carga horária total entre 16 e 20 horas.
Para mim, uma das vantagens de dar essas aulas foi a oportunidade de aprender a expor melhor alguma informação. Nunca fui muito bom de explicações com o propósito de ensinar, e nunca tinha dado nenhum tipo de aula (na verdade, sempre tive um certo preconceito contra a prática), então acho que aprendi bastante nesse sentido – não só como elaborar o discurso do aprendizado e o roteiro de uma aula, mas até como falar melhor em público.
No entanto, uma coisa que eu não esperava muito bem – que eu não imaginava que seria tão diferente – é o quanto entendi da visão da sala e da rotina de cada aula a partir do ponto de vista de quem está lá na frente falando e explicando – do ponto de vista do professor.
E aí, neguinho, em verdade lhe digo, ser professor é treta.

Uma das coisas mais difíceis de dar aula é preparar cada aula. Como é algo invisível pros alunos, é algo que pode passar despercebido, por isso acho que muita gente não leva em consideração. Mas, pelo menos no meu caso, eu tinha de passar horas preparando cada uma das aulas, bolando o roteiro do que seria passado e de que forma; eu gastava mais tempo pra planejar cada aula do que pra efetivamente dar a aula.
E nem é tanto uma coisa de conhecimento – de ser obrigado a pesquisar o assunto porque não o conhecia tão bem. É porque, por mais que você saiba um assunto, você precisa ter um roteiro decorado e testado pra poder dar uma aula real. Não dá pra sair improvisando; diferente de uma aula, quando você trabalha de verdade, criando algo pra você mesmo usando uma tecnologia qualquer, existem mil coisinhas que podem sair erradas, com erros de sintaxe ou seja o que for, mas que qualquer desenvolvedor pode resolver rapidamente. Já numa aula, isso causa uma quebra perigosa na linha de pensamento dos alunos, já que qualquer coisa fora do normal te força a parar e se concentrar em resolver o problema ao invés de continuar despejando o conhecimento.
Eu conheço muito de Flash, etc etc, afinal já trabalho com a plataforma há uma década; ainda assim, em determinados momentos, em aulas anteriores, tive de parar de falar e explicar algo porque tive algum resultado inesperado no que estava montando em tempo real como exemplo (geralmente, porque não tinha testado o roteiro de aula suficientemente e me deparei com algum problema inesperado na plataforma ou no programa). O foda é que nesses momentos eu tenho de reverter pro meu modo desenvolvedor e começar a depurar o que tinha dado de errado, e só aí virar e explicar pra sala o que aconteceu. É uma coisa bem chata e quando isso acontece deve dar ao aluno a impressão de que o professor é meio retardado e não sabe do que está falando. Sei que já tive momentos parecidos assistindo a aulas de outros professores, e agora entendo um pouco melhor o lado deles.
E outra coisa que pude sentir na pele é que muitas vezes os alunos não tratam o professor como gente, mas sim como alguém que está lá realizando um serviço opcional, que ninguém tem a obrigação de gostar ou aceitar.
Espero que nesse sentido ninguém me entenda mal, até porque todas as turmas pra quem dei aula foram super legais e só tenho a agradecer pelo tempo que me aturaram. Mas o que quero dizer é que quando você está lá na frente, é muito fácil se sentir meio frustrado quando você olha pra sala e percebe que só metade está ouvindo o que você está falando (o resto escrevendo no MSN/lendo email/falando com colega/vendo vídeo), ou quando você olha pra lista de presença e percebe que só metade da turma compareceu, como se o tempo que você perdeu pra preparar a aula fosse inútil e não compensasse o tempo que o aluno gastaria assistindo-a. É algo que eu mesmo também sou culpado de quando era aluno, e algo que só saquei de verdade quando também fiquei em pé lá na frente ficando com a boca seca de tanto falar.
Professor também é gente. Então, a meus professores, o meu muito obrigado.
Escrito em 3/June/2009, 8:15 em trampo | 2 comentários
O post anterior sobre o texto da pizza acabou sendo mais lido do que eu esperava. Bacana. No entanto, acho que tem uma parte que eu gostaria de deixar mais clara pra quem não entendeu.
No follow-up que o Luli postou sobre o texto, um leitor fez o seguinte comentário:
On 15.05.09 Raul said:
Concordo! Os clientes só deveriam existir para nos pagar mesmo…ta loko..parece que só querem fazer a gente trabalhar….
Obviamente é um comentário feito de forma sarcástica; o que ele realmente parecia querer dizer é que o texto era reclamação de gente que não queria trabalhar.
A todo mundo que leu o post anterior e não sacou, não concordou, e até mesmo a todo mundo que concordou, tem um detalhe que talvez tenha passado em branco: eu amo meu trabalho. Não estaria trabalhando há 15 anos na mesma área e com basicamente as mesmas tecnologias se não curtisse o que faço. Até porque quem trabalha nessa área sabe que trabalhar muito mais do que 8 horas por dia é muito comum. O cliente principal que inspirou o texto da pizza foi um cliente que me fez trabalhar todo dia até muito mais tarde, muitas madrugadas, e diversos finais-de-semana. Achar que o texto é coisa de preguiçoso é ridículo. Não tenho nada contra trabalhar; tenho, sim, contra trabalhar pra criar algo inútil (que sabíamos que seria descartado) num horário que vai muito além do originalmente planejado, por meses a fio.
Mas se você for parar pra analisar, o problema principal que o texto da pizza fala sobre nem é tanto o cliente, mas sobre a empresa (agência ou estúdio web). É uma coisa que o Luli falou bem no pequeno comentário em resposta:
On 21.05.09 Radfahrer said:
O Zeh tem razão, Raul e LéoFlôr. O desconhecimento de como funciona o processo de produção de um website, associado à gigantesca desinformação do mercado e a ganância (ou desespero) de alguns donos de agências e profissionais de atendimento é que é o grande culpado. O cliente só pede o que pede porque dizem para ele que ele pode pedir.
Só pra dar ênfase: O cliente só pede o que pede porque dizem para ele que ele pode pedir. Perceba que logo na introdução do texto eu deixei claro que aquela era uma empresa que tinha como uma de suas principais características abrir as pernas pro cliente. O problema não é o cliente não saber o que quer e mudar de idéia constantemente: é a agência aceitar isso como coisa comum.
Tudo isso eu estou escrevendo porque quero mostrar o outro lado. (drum rolls)
Depois de ter saído da empresa que me levou a criar essa lista maldita, eu estava extremamente descontente com minha área de trabalho. Fiquei achando que o normal era ficar trabalhando finais-de-semana e madrugadas fazendo trabalhos medíocres que, em 90% das vezes, não iam pro ar. Estava pensando seriamente em mudar de profissão.
A sorte – inesperada – é que imediatamente após sair de lá eu fui pra uma outro estúdio, a Grafikonstruct. E seis meses de GK foram suficientes pra mudar minha visão sobre o mercado de forma assustadora.
Pra falar de forma resumida, na GK eu trabalhava menos horas (fazia um horário humano), era mais feliz (porque fazia um trabalho que fazia sentido, e que ia pro ar, e que era mais desafiador), o estúdio cobrava menos, eu ganhava mais (ambos porque menos trabalho era desperdiçado), e os trabalhos eram mais eficientes pro cliente (porque eram criados pra solucionar um problema, não pra satisfazer o ego do cliente).
Ou seja, tudo ao contrário.
E qual era a diferença entre a GK e a empresa anterior? O relacionamento com o cliente. Na GK, o atendimento era real. Não sei nem se dá pra chamar de atendimento. Se o cliente pedia algo sem noção, a gente dizia que aquilo era algo sem noção. Se pedia algo que levaria muito tempo e teria um retorno mínimo, a gente dizia isso pra ele. Se ele se mostrava complicado e não sabia o que queria, mesmo após meses de diálogo, a empresa abria mão do cliente. Simples assim. Não quer dizer que tudo fosse mil maravilhas na GK, pois todo lugar tem seus problemas e suas encrencas, mas era um paraíso comparado à empresa anterior.
Foi a experiência na GK que me fez entender que o que conta não é tanto o cliente (ou seu tamanho, ou seu nome), e sim a postura que a própria agência ou estúdio adota. Se você está numa empresa que acha que trabalhar bem é se virar pra fazer o que o cliente acha que quer por mais esdrúxulo que o pedido seja, você vai acabar fazendo um trabalho horrível, constantemente tendo de se virar pra atender algum objetivo inatingível. E aí jogar tudo fora.
Já se você está numa empresa que adota uma postura de conhecimento do mercado, de indicar pro cliente o que é certo e o que errado, é o contrário. Você vai trabalhar não só em prol de algum objetivo claro, mas também um que faz sentido pro problema do cliente.
Essa experiência é o que me leva a dizer que “existem empresas e empresas”, coisa que faço sempre que falo sobre a área, seja em conversas com amigos, seja em apresentações. Não dá pra julgar como é a qualidade do ambiente de trabalho de uma empresa só pelo que ela produz ou pelos clientes que ela tem. O atendimento, ou a forma como a empresa se posiciona frente ao cliente, faz uma puta diferença. Tem empresa que quer fazer de conta que trabalha simplesmente atendendo aos caprichos do cliente e acaba produzindo um trabalho medíocre ao custo de muito suor. Mas tem empresa que vê o problema do cliente e quer solucioná-lo de verdade, mesmo que isso crie atrito com o cliente quando este é menos informado. E eu já sei em que tipo de empresa gosto de trabalhar.
Se o cliente te liga hoje pedindo 5 pizzas diferentes e diz que só vai pagar pela pizza que ele gostar mais, e você aceita, pode esperar que amanhã ele vai te ligar de novo, mas dessa vez pedindo 10 pizzas diferentes, e de novo só disposto a pagar por uma. E aí a culpa é do cliente e sua incerteza, ou de quem aceitou fazer as pizzas?
E pra emendar, um vídeo razoavelmente relacionado. Não tem muito a ver com minha experiência na tal empresa que levou ao texto da pizza, mas é algo também comum pra quem trabalha na área, pelo menos pro pessoal de planejamento e vendas.
Esta é a página pessoal de Zeh Fernando. Este é um website criado para amigos e familiares; se você não me conhece, você provavelmente não deveria estar aqui – nada vai fazer muito sentido. Para mais informações, visite minha página normal (em inglês).
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