Communicate yourself before you wreck yourself, said the old warrior

by Zeh on May 11, 2009

Dia 13 (quarta-feira próxima) às 20:00hs farei no InterfaceCamp do Senac uma apresentação chamada “Dez dicas para seus primeiros dez anos de carreira”. É algo bastante pessoal, e são algumas dicas simples, mas que eu considero importantes pra quem tá começando a carreira agora – coisas que venho usando nos últimos anos ou que só recentemente saquei o quanto são importantes. São também, em sua maioria, respostas às dúvidas mais frequentes que costumo ouvir de quem está começando a trabalhar ou estudar, então achei que seria legal trazer isso pra dentro do ambiente acadêmico.

De todas as dicas que preparei pra apresentação, tem uma que considero uma das mais importantes, senão a mais importante (porque muita gente não a considera como tal). No dia mesmo eu não vou falar tanto do assunto: tava ficando muito extenso, e muito negativo, aí dei uma resumida, já que tinham outras dicas mais positivas pra serem dadas. Eu vou, então, usar este espaço ao invés pra descarregar meu argumento. Spoiler alert: pra quem for assistir à apresentação, pode ignorar e ler depois.

Enfim, é algo que muita gente não gosta de ouvir, ou tem preguiça de pensar nisso, ou fica até ofendido quando me ouve sugerindo o lance e discutindo as razões. Mas, aqui vai:

Todos temos de aprender inglês, e aprender bem. No mínimo, pra poder ler qualquer texto ou livro em inglês sem problemas.

Não precisa sair escrevendo artigo em inglês, vendo LOST sem legenda (apesar de ser bem melhor!), ou falando numa boa com gringo via Skype. Mas tem de saber ler. E tem três principais razões pra isso.

A primeira, talvez mais óbvia (e que engloba as outras), é que a quantidade de informações disponível sobre qualquer tipo de assunto é muito maior em inglês. A menos que estejamos falando sobre algum assunto extremamente específico do Brasil, tipo Acarajé, você vai ter muito mais fontes de informação na língua inglesa do que na portuguesa. Quer ver? Procura no Wikipedia por qualquer coisa, tipo, sei lá, Zeus. A versão em inglês da página vai ser invariavelmente maior que a versão em português. Muitas vezes, muito maior. Isso se a versão em português sequer existir.

A mesma coisa se percebe quando você quer procurar um assunto no Google: nosso querido Zeus retorna 14 milhões de resultados em inglês, contra 2 milhões em português. Uma diferença do tamanho do monte Olimpo.

A segunda é que qualquer conteúdo que é traduzido para o português acaba sendo lançado com uma grande atraso. Saiu um livro legal em inglês que tá fazendo o maior sucesso? Ótimo, agora espere meses (ou anos) até o mesmo conteúdo sair em português. Ah, e vai ser mais caro que o original. Isso se sair, obviamente.

Essa situação se agrava quando se trata de livros técnicos. Você espera 1 ano por um livro sobre, sei lá, alguma versão de alguma linguagem de programação, e quando ele sai o assunto já está defasado.

A mesma coisa acontece com conteúdo online. Sempre que algo de novo acontece, é divulgado em inglês. Não adianta. Acaba saindo só em português quando alguém resolve traduzir. Você lê novidades de informática, gadgets e afins em blogs em português? Maravilha – esses caras, em sua enorme maioria, não fazem nada além de xupinhar conteúdo dos originais em inglês e traduzi-los pra consumo local. São só intermediários. Tudo que você lê é filtrado, mastigado, e regurgitado. O que você lê é o vômito coletivo de algo que outros acharam que você gostaria de engolir. Fora quando é mal traduzido.

A terceira razão, talvez maior, é que mesmo quando algo é finalmente traduzido, a tradução geralmente é feita de uma forma bem porca, ou sofre de problemas graves de perda de significado. Isso porque tradução, na verdade, é uma mentira. É um faz-de-conta. Pra uma tradução ser realmente bem feita, o tradutor precisa saber muito bem do que está falando, de modo a reescrever o texto, ao invés de fornecer uma tradução literal de algo. E mesmo assim existem problemas, que geralmente pediriam extensas notas de rodapé em qualquer tradução – coisa que, pela minha experiência, praticamente nunca acontece.

Pra ilustrar esse problema, tem três causos que acho fantásticos.

O primeiro é sobre o livro Emergence, do Stephen Johnson. Cultuado livro pop-científico que fala sobre padrões que podem emergir de sistemas complexos – como de colônias de formigas, cidades e afins – o problema em traduzir o livro começa já pelo nome. Emergence, em inglês, vira Emergência, em português. O problema é que essa palavra tem dois sentidos distintos, sendo que o correto é o menos usado – aí você vê a capa e fica achando que o livro é um sobre acidentes e outras emergências. Isso porque a palavra “emergência”, em português, significa tanto uma situação de risco que requer ação imediata (emergency, em inglês) quando o ato de emergir (aí sim, emergence, o nome original).

Por sorte, eu li esse livro em inglês, e foram inúmeras as vezes que me deparei com frases que me fizeram pensar “cacete, isso é intraduzível pro português”. Isso porque o mesmíssimo problema do título se repete dentro do livro. O texto está escrito com palavras relativamente simples, mas que possuem um significado muito específico – e que seriam extremamente complicadas de se traduzir por não terem um equivalente direto em português. Pattern é uma delas. O significado original é algo como “qualquer tipo de tema recorrente”, e talvez pudesse ser traduzido como “padrão de comportamento” ou “padrão de reconhecimento” no livro dependendo do contexto usado em cada parte. Mas na versão em português, ela vira só padrão, provavelmente pra não deixar o texto muito esquisito, mas fazendo com que algumas frases tenham duplo sentido. A dificuldade fica mais óbvia quando você vê que, pra inverter, padrão pode ser usado não só como tradução de pattern, mas também de standard. Então quando você lê o livro, surge a dúvida sobre qual padrão que ele tá falando – um padrão de comportamento que é padrão, porque ele se repete em determinadas situações, ou um padrão de comportamento que é padrão porque é o esperado em alguma situação?

Nesse caso, o problema nem é tanto devido à capacidade ou atenção do tradutor. Pelo que ouvi dizer, a tradução que foi feita desse livro é realmente muito boa, contando até mesmo com notas de rodapé que explicam o contexto onde as palavras difíceis acabam se inserindo. A tradutora mesmo parece super gente boa (ela tava acompanhando o Steven Johnson na Campus Party de São Paulo em 2008, fazendo as vezes de intérprete e ajudando-o a responder questões do público, o que me leva a crer que ela está bem a par do trabalho do cara). Então esta nem é uma crítica à tradução deste livro, já que nem o li em português. É mais uma ilustração dos problemas que existem pra realizar uma tradução: e meu argumento de que, por melhor que ela seja feita, lidar com a tradução acaba virando um empecilho pra quem quer entender o texto. Você primeiro tem de entender o que o tradutor quis dizer, já que vai invariavelmente ler um texto adaptado, pra depois entender o que o texto original estava falando.

O segundo causo é muito pior, e provavelmente muito mais comum. É quando as traduções são mal feitas mesmo.

Eu gosto muito de ler ficção científica. Leio desde que era moleque. E o último livro de ficção científica que li em português, há, acho, uns 10 anos atrás, foi Neuromancer, do William Gibson. Foi o livro que deu origem ao que depois foi chamado de ficção científica cyber-punk. Esse livro eu acabei lendo em português por mero acidente – nessa época mesmo eu já lia só ficção em inglês, porque livros desse tipo em português eram praticamente inexistentes (na verdade, um dos motivos principais de eu ter aprendido inglês foi pra poder ler o que eu gostava – eu me forçava a ler os livros mesmo quando não entendia 100% do que tava acontecendo).

Enfim, eu li o livro inteiro, e pra ser sincero, entendi pouco. Era tudo muito confuso. A impressão é que era uma história tipo Blade Runner contada por um maconheiro. Fiquei com a impressão de que era o estilo do autor – escrever de uma forma mais surreal, mais metafórica. De que você tinha de parar pra pensar no que o cara tava descrevendo e chegar às suas próprias conclusões.

Alguns anos depois, achei uma MP3 do audiobook do livro pra baixar. Decidi baixar o tal audiobook pra escutar no carro, enquanto ia e voltava do trabalho, já que pegava um trânsito do cacete nessa rotina.

Ouvir o audiobook me revelou uma história muito diferente. Eram inúmeras as situações que eu não me lembrava de quando li o livro. Principalmente o final. Tá, fazia um tempão que eu tinha lido o livro, mas como eu podia ter esquecido tanta coisa?

Depois de ter ouvido o final, a primeira coisa que fiz foi chegar em casa e procurar o livro pra conferir. Li a parte final inteira, e, batata – era muito diferente do que eu havia ouvido. A versão do audiobook era bastante concreta, descritiva, enquanto que a versão do livro, traduzida, era completamente abstrata. Foi aí que saquei – comparando algumas frases da versão escrita com a versão em áudio, ficou claro que era um problema de tradução. A pessoa que havia feito a tradução não fazia a mínima idéia do que estava fazendo, e recheou o texto de frases traduzidas em sua forma literal, sem nenhuma preocupação com o contexto ou o argumento. Era tipo passar a história por um moedor de carne e tentar juntar os pedaços depois no formato do bife original. Perdia completamente o sentido.

Por isso que, anos depois, tive de dar muita risada quando vi que havia uma nova edição do livro sendo lançada numa vitrine da Livraria Cultura. Estampado bem grande do lado do livro em exibição estava a frase “nova tradução”.

E nem pense que este é um problema exclusivo de livros. O mesmo acontece com notícias e afins. Por exemplo, já vi diversas notícias que vêm da Reuters ou outras agências internacionais postadas no Estadão com uma tradução porca, do tipo que comete aqueles erros crassos e cai na armadilha de diversos falsos cognatos.

Mas, se quer saber, foda-se. Muito melhor do que esperar a boa vontade de uma editora ou um site é pegar o original. Sem demora, sem perda de significado, e sem depender de ninguém. Se eu fosse depender do português, não teria lido 90% das séries de ficção que já li até hoje. Não são poucas.

O último causo é mais específico e relacionado a livros técnicos. Livros técnicos são de tradução notoriamente difícil, porque alguns termos podem fazer parte das linguagens ou softwares usados e não podem ser traduzidos. Um exemplo típico é a palavra Array. Essa palavra faz parte de muitas linguagens de programação, já que é usada pra descrever um tipo de dado bastante comum – matrizes ou listas de dados.

O problema é que você tem de traduzir a palavra em algumas das explicações, senão fica uma mistureba de palavras sem sentido, com inglês no meio do português. Então uma frase do tipo “To create an array of data you use the Array type” vira “para criar uma matriz de dados você usa o tipo Array”. Tá correto, mas aí você acaba usando duas palavras pra mesma coisa, perde um pouco da explicação. Então cada livro faz de um jeito.

E coisas do tipo String então, sem tradução direta? Se você for usar a tradução literal (corda), acaba virando algo completamente nonsense. A tradução prática (texto) é genérica demais, e pode também introduzir problemas no futuro. Por isso você acaba tendo textos misturados, algo do tipo “Crie uma string paga guardar os dados…”. Vira uma salada.

Outro problema relacionado a isso é que se o tradutor escolhe uma tradução completa, ele pode acabar tendo um choque de palavras. A melhor explicação ainda é sobre o Array. Essa palavra geralmente pode ser traduzida para lista, conjunto ou matriz. O mais comum, pelo que já vi, é matriz. Aí a linguagem sofre uma atualização – caso do Flash mais recente – e adicionam um novo tipo de dado, chamado de Matrix, esse sim uma matriz numérica, no sentido mais matemático da palavra. E como você vai traduzir isso, se matriz já quer dizer Array? Acaba precisando reescrever toda a explicação, assumindo uma nova palavra pra um diferente tipo de dado. Tutoriais escritos anteriormente se tornam defasados.

Não tem saída fácil. O melhor é usar sempre só o original para não ter de lidar com problemas intermediários – isto é, conteúdo em inglês.

Talvez pra mim seja meio suspeito falar disso tudo como se fosse a coisa mais fácil do mundo, porque aprendi inglês relativamente cedo. Sei que não é. Mas quem está ainda pensando se vale a pena aprender inglês tem de pensar que a gente está numa cultura onde saber onde achar a informação (e fazê-lo de forma rápida) tem mais valor do que reter a informação. Nesse aspecto, recusar-se a utilizar fontes na linguagem mais utilizada é, sinceramente, burrice.

E perceba que de todos os exemplos que citei, em áreas mais técnicas, tipo programação, o problema é muito pior. Vai procurar solução pra algum problema de, sei lá, Flash, em português. Vai existir, mas pra cada item que você achar em português, vai achar mais 100 em inglês.

E na questão técnica o problema é muito pior não porque existe o domínio de algum grande império que visa massificar sua cultura capitalista, mas sim porque faz sentido que uma linguagem seja adotada pra comunicação global. Quando você procura por algum conteúdo em inglês, você não está procurando necessariamente por conteúdos escritos por Norte-americanos ou Ingleses. Está procurando por conteúdos escritos por gente de todo o mundo, e isso é uma coisa que profissionais notoriamente pragmáticos – programadores, cientistas, etc – abraçam mais rapidamente.

Meu trabalho de conclusão de curso é um bom exemplo disso. É um trabalho acadêmico realizado pra uma faculdade Brasileira, mas 90% das referências são em inglês. Não quer dizer que eu não procurei por nada em português – procurei, não só em bibliotecas locais, como em bibliotecas eletrônicas parceiras do Senac. Mas os trabalhos encontrados acabavam sendo extremamente deficientes e sempre apontando pra referências em inglês que aí sim eram o que eu buscava. Não só isso, mas utilizar o scholar.google.com fez com que minha pesquisa fosse muito mais produtiva. Imagina se eu fosse ignorar todo conteúdo em inglês pro meu trabalho – ele não ia sair nunca.

Enfim, realmente acredito que uma das primeiras coisas que alguém deve fazer pela sua carreira profissional é aprender inglês.

E antes que alguém entenda errado, eu não detesto o português. Ao contrário; uma das razões de eu ter iniciado este blog é exatamente pra praticar mais o português, algo que eu tava começando a deixar de lado sem querer. E o inverso do que falei também é verdade – tenho pena de quem tem de ler Jorge Amado em inglês e vai provavelmente pegar um texto tão mal traduzido (ou hermético) quanto costumamos pegar nos nossos livros traduzidos do inglês. Como que alguém vai traduzir Marinete pra inglês sem perder parte do significado ou a beleza quase sinestésica do nome? Abra a boca e diga: “Marinete”. Vai virar o quê em inglês, Coachy?

Aprender inglês não é desaprender o português. Não é questão de valorizar uma língua estrangeira e desvalorizar nossa língua. É abrir a possibilidade de pesquisa e de busca de informações pra muitas outras fontes. É agregar, não trocar.

  • Zeh, muito bom o texto. Eu concordo demais. Aprender inglês é igual passar daquela fase que libera uma área maior no mapa. Não consigo ver o Brasil mais evoluído no futuro sem uma integração muito maior com outros pólos de conhecimento e desenvolvimento. E sem inglês a gente acaba se isolando e subutilizando um baita potencial.

    Se tiver um tempinho, por favor dê uma olhada num texto que escrevi quando estava na Nova Zelândia em setembro do ano passado:
    http://brunoimbrizi.com/blog/2008/09/conselho/

    Um abraço.

  • Zeh

    Rá! Exato Bruno, concordo totalmente, não tinha visto o seu post anterior mas acho que a essência é a mesma. Valeu pelo toque!