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Artigos sobre a prática de desenvolvimento de interfaces e design gráfico, bem como trabalho em geral.
Artigos sobre a prática de desenvolvimento de interfaces e design gráfico, bem como trabalho em geral.
Escrito em 20/May/2009, 7:53 em choque, nova york, trampo | 5 comentários
…e a primeira coisa que vejo é isso.
Cacildis!
Escrito em 13/May/2009, 19:57 em estudos, trampo | 16 comentários
Como disse antes, aqui vai o slideshow da curta apresentação que fiz no InterfaceCamp do Senac algumas horas atrás. É um slideshow bem simples.
Essa palestra contém 10 (11, na verdade) dicas que acho legal pra quem está começando na carreira. Elas são bem pessoais, e razoavelmente práticas – um resgate do que aprendi em 15 anos de experiência. Talvez nem todas sirvam pra todos (até porque são mais voltadas pra profissionais web/motion), mas achei legal passar já que na pior das hipóteses uma ou outra pode servir bem. Seguem elas abaixo, explicadas, pra complementar o slideshow.
1. Faça o que você gosta. Importante por dois motivos: você trabalha mais feliz, e você tem mais gás para ir atrás e se atualizar. Querer trabalhar com algo que você não gosta só porque dá dinheiro ou tem demanda é receita pra uma qualidade de vida inferior.
2. Tenha foco, mas não tenha medo de ser multidisciplinar. Especialize-se em algo. Animador não tem de saber programação. Programador não tem de saber design. Os profissionais ideais não são os que fazem tudo, mas os que fazem bem seu trabalho – e que, talvez, saibam um pouco de outras áreas. Ser multidisciplinar é legal pra ficar antenado no que rola, e ter conhecimentos que lhe permitem explorar bem sua própria área de atuação. As únicas empresas que querem profissionais que fazem tudo são empresas que não sabem que tipo de profissional querem contratar (e isso vem de um programador que desenha, gosta de animação, e de modelagem 3d).
3. Aprenda inglês. A quantidade de informações em inglês é extremamente vasta, muito maior do que a quantidade em qualquer outra língua, bem como a velocidade com que tal informação é gerada. Saber inglês abre inúmeras portas e faz com que o seu conhecimento em potencial aumente de forma exponencial. Todos devemos aprender inglês para leitura o quanto antes. Quem quiser saber mais sobre o assunto, escrevi muito mais neste post anterior.
4. Mantenha uma lista de pendências. Dica prática: manter uma lista do que deve ser feito num projeto te ajuda a realizá-lo. O ideal é começar com uma lista bem alto nível, com tarefas bem gerais, e ir detalhando conforme você as realiza. Além disso, a lista pode funcionar como um guia da metodologia que você usará pra realizar uma tarefa, já que você pode listar as tarefas que devem ser criadas em ordem cronológica. As listas devem ser simples: um item por linha, e você vai riscando (ou apagando) itens conforme são feitos. Eu mantenho listas de pendências em documentos do Google Docs, e uma lista meta, mais geral, num bloco de papel que deixo anotado do lado do computador mesmo.
5. Arquive seus trabalhos. Sempre guarde sempre seus trabalhos, de preferência organizados por pastas que façam um sentido cronológico (anos, meses, etc). Fica mais fácil na hora de reunir portfólio, ou buscar alguma coisa antiga. Não deixe pra depois. Um pouco de organização já ajuda muito; assuma uma metodologia de nomenclatura de pastas e a utilize sempre.
6. Aprenda a achar as respostas, ao invés de saber tudo. Ninguém é dono do conhecimento, principalmente hoje. Ninguém sabe tudo. Ao invés de tentar saber tudo, saiba encontrar a resposta – que mecanismos utilizar (Google) e como procurar. Profissionais hoje podem ser vistos como indexadores de informação mais do que receptáculos de informações estáticas. Não tenha medo de procurar, ou de saber algo por cima. A resposta sempre está lá fora.
7. Faça seu portfólio. Quando alguém vai te contratar, quer ver seu portfólio. Liste seus trabalhos, faça um portfólio. Currículo vale pouca coisa.
8. Portfólio tem de ser simples. Não precisa de pirotecnia, animação, seja o que for. O portfólio tem de ser simples e informar bem – imagens e descrições do que você fez. Você vai mostrar sua qualidade através dos trabalhos que fez, não do portfólio. Qualquer um pode fazer um portfólio extravagante; uma empresa quer é ver como você saiu com tarefas reais, sejam pra clientes, sejam pra escola. Ninguém quer levar um tempão pra poder ver os trabalhos.
9. O melhor lugar pra trabalhar é um conceito relativo. Não é porque uma agência é conhecida que ela é o melhor lugar do mundo pra trabalhar. Às vezes não é nem porque os trabalhos dela são ótimos. Lógico que todo mundo gosta de fazer trabalhos legais, mas a qualidade dos trabalhos ou a fama da empresa não querem dizer nada sobre a qualidade de vida de quem trabalha lá. Tem muito lugar legal pequeno ou pouco conhecido.
10. Salário não significa (quase) nada. Não é porque algum lugar paga bem que o trabalho é bacana, que as pessoas são gente fina, ou que você vai aprender muito. Pode ser o contrário: ganhar bem estando preso num lugar horrível onde você não aprende e não desenvolve um trabalho legal é um beco-sem-saída. Salário deve ser um dos últimos ou o o último item a ser usado na hora de decidir onde você quer trabalhar. Existem exceções a esta regra – por exemplo, quando você precisa de um salário suficiente pra pagar sua faculdade, ou seu aluguel.
xx. Tenha karma. Dica bônus. Fiquei meio com vergonha de falar muito na hora, até porque não quero parecer pregador e porque é um assunto mais genérico, mas aqui a idéia é, seja um cara gente boa, preocupe-se com seu próprio trabalho, e as coisas acontecem. Não tente passar a perna em ninguém, não tente tomar atalhos, não tente gozar com o pau dos outros tomar crédito de trabalhos que não são seus. O mercado não é tão grande quanto parece, e tentar dar uma de espertinho nesse meio não compra muitos amigos. Pra quem faz um trabalho legal, o reconhecimento vem naturalmente.
Escrito em 7/May/2009, 14:09 em crônicas, memória, trampo | 38 comentários
Senta que lá vem a história.
Eu não gosto de falar mal de lugares em que trabalhei, e felizmente, não tenho muitos motivos pra isso. Ao contrário, tive a sorte de trabalhar em (ou para) diversos lugares fenomenais, com pessoas fantásticas, e poderia ficar falando dias sobre o assunto. No entanto, tem um lugar em específico onde trabalhei que me rendeu péssimas experiências; vou citá-lo aqui brevemente porque faz parte do contexto, então não me levem a mal. E nem importa muito, porque o lugar já fechou há anos mesmo.
Lá pros idos de 1999, eu trabalhava no departamento de produção web numa agência de propaganda. Era um trabalho bem ruim – não só porque era ainda o começo na Internet no Brasil (quando poucos clientes sequer tentavam entender a Internet) mas porque esta agência em específico tinha como uma de suas principais características abrir as pernas pra qualquer que fosse a vontade do cliente.
Nessa época, atendíamos um certo cliente que, devido ao fato de ser o principal cliente da agência, deitava e rolava na hora de pedir algum trabalho. Eram inúmeras “versões” de trabalhos que eram feitas, e inúmeros representantes do cliente envolvidos com a aprovação de qualquer coisa. Parecia um episódio dos Cavaleiros do Zodíaco, quando após derrotar um inimigo (diretor X) que em teoria era o mais forte do universo (mais chefe), surgia algum outro que era ainda mais forte (diretor Y), seguindo uma corrente interminável de aprovações. E sabe quando tem aquele cliente que não aprova algo porque a mulher dele não gosta de amarelo, e o site tem amarelo? Então. Esse cliente. Grande, trabalhando com tecnologia, conhecido nacionalmente, mas ainda assim, um cliente mala, em parte por culpa de como o atendimento era feito dentro da agência – que era basicamente fazer o que for que o cliente mandasse, afinal, ele estava pagando.
Obviamente, quem se fodia nesse cenário eram os peões que tinham de ralar fazendo trabalhos que seriam recusados pelos motivos mais esdrúxulos. Eu era um destes peões.
Nós levávamos tudo na esportiva. Reclamávamos mas fazíamos o trabalho, trabalhando madrugadas e finais de semana, mesmo que fosse pra algo que sabíamos que era a décima versão (sem exageros) de algo péssimo. Até que um dia, não podendo mais me conter, escrevi, com a ajuda e sugestões do Alessandro Straccia, do Ivan Clever e do Giuliano Arsati (que trabalhavam comigo), um texto intitulado “Se vendêssemos pizzas como produzimos sites”, carinhosamente chamado de pizza.txt. Era um texto bem chulo, sem muita revisão, mas que retratava nosso dia-a-dia de trabalho através de analogias com o trabalho de uma pizzaria, deixando claro o quão surreais eram algumas das situações pelo qual passávamos. A maioria das situações citadas eram relacionadas a esse cliente que citei acima, mas tentamos fazer um apanhado geral da nossa área de trabalho.
Nessa época, eu também estava num momento experimental, tentando iniciar mensagens virais de forma anônima. Às vezes, deixar algo desse tipo sem assinatura ao ser distribuido funciona melhor pra popularizar do que deixar com o nome assinado. Sabe quando hoje em dia alguém escreve algum email reclamando de algo e assina “Millôr Fernandes”, “Arnaldo Jabor”, essas coisas, só porque quer transformar o email em corrente e sabe que vai ter mais credibilidade dessa forma? Então, é algo parecido (mas menos cretino, já que era só anônimo, ao invés de roubar o nome de alguém).
Foi assim que decidi divulgar o texto. Copiei ele inteiro pra um email que mandei na famosa lista WD (iniciada pelo Michel Lent em, sei lá, 1996, acho). Essa lista era a lista de discussão da Internet brasileira à época (antes do racha que teve devido a discussões e da divisão em listas específicas, ou da reencarnação em outros formatos). Não assumi a autoria do texto – se bem me lembro, eu disse no corpo da mensagem que “achei por aí” ou que “um amigo me mandou” – e, após o envio, vi ele se alastrar rapidamente, como fogo selvagem, em outras listas de discussão, e até ser re-enviada algumas vezes na própria lista WD. Missão cumprida.
Até existiram outras alegorias que escrevi e distribuí de forma parecida, mas nenhuma teve tanto sucesso (ou foi tão boa, pra ser sincero) quanto essa da pizzaria. Foi com satisfação que fiquei sabendo, bem depois do ocorrido, que ela foi inserida no livro “Design/web/design:2“, de Luli Radfahrer (publicado em 2000) e atribuída a um “Autor desconhecido”. Embora a versão publicada tenha sido alterada (se me lembro bem, era uma versão encurtada, mais concisa), o livro, obviamente, ajudou a disseminar o seu conteúdo, então não é surpresa que várias pessoas ainda citem esse texto em blogs.
É um certo orgulhinho secreto. Se fosse assinado por alguém, duvido que o texto teria se propagado da forma como se propagou. Parte do charme da coisa era o fato de ser anônimo, e se alguém anunciasse a autoria do treco aos quatro ventos, acabaria soando meio prepotente. É tipo comer a Luana Piovani e não poder falar pra ninguém. Mas, como já fazem uns 10 anos do ocorrido, e duvido que muita gente vai ler isso aqui, fica aqui finalmente a confidência.
Eu andei procurando o texto original nos meus backups antigos desorganizados e não achei, e me parece que não existem arquivos da lista WD original online. Fica, então, difícil de comprovar a autoria. Mas, pra ser sincero, acho que nem importa muito; quem quiser acredita, e quem não quiser, pode deliciar-se assim mesmo com o texto, que continua, infelizmente, atual.
Na ausência do txt original, segue abaixo uma das versões que achei num site; não tenho certeza de que é a versão original (completa), mas acho que sim, a julgar pela ausência de acentos em algumas palavras (nessa época eu estava fazendo a transição de escrever textos em BBSs pra escrever textos da forma correta, então esquecia de acentuar boa parte do que escrevia) e alguns outros detalhes estranhos.
SE VENDÊSSEMOS PIZZAS COMO PRODUZIMOS SITES…
Imaginem as seguintes situações:
* O cliente liga pra gente pedindo uma pizza e esta mais preocupado com a aparência da pizza do que o conteúdo real dela.
* No meio do trabalho de confecção da pizza, o cliente liga pedindo pra você mandar pra ele um preview de como esta ficando a pizza para a aprovação (ou desaprovacao) dele.
* Após o cliente acima receber a pizza-preview, ele pede pra fazer “uma pequena alteraçãozinha”, substituir a mussarela amarela por mussarela verde, simplesmente porque ele gosta mais de verde. Isso faz com que você tenha de jogar a pizza antiga fora e produzir uma nova, que alem de dar mais trabalho ficara bem mais feia.
* O cliente te liga numa noite qualquer pedindo 500 pizzas para serem feitas em 15 minutos, pois ele tem uma festa pra ser iniciada e resolveu te ligar só agora.
* Você destaca seus melhores pizzaiolos pra atender a esse cliente porque seu pedido é ‘mais importante’ e deixa as pizzas dos outros clientes de lado, o que faz com que todos eles liguem pra reclamar que a pizza deles não esta pronta dentro do prazo.
* Após você produzir quase todas as pizzas do cliente acima, ele te liga avisando que não precisa mais de pressa porque ele errou a hora. Na verdade, você ainda tinha 4 horas pra produzir as pizzas.
* O cliente te pede pra colocar as azeitonas de forma simétrica de modo a dar destaque à area central da pizza, que afinal é a area mais importante do disco e é a primeira area que o cara que for comer a pizza deverá ver ao bater o olho nela.
* O cliente ouve falar de um novo “ingrediente da moda” e simplesmente se convence de que sua pizza devera ter esse ingrediente, apesar do ingrediente ser inútil nesse caso e só dar mais dor de cabeça pra ser implementado.
* O cliente pede uma entrega urgente que precisa ficar pronta em 2 minutos. Após você usar os seus melhores pizzaiolos, até contratar pizzaiolos freelancers pra fazer o serviço e atrasar novamente os outros servicos, você faz a entrega pro cliente e ele demora 4 horas pra começar a comer as pizzas.
* Ele pede que a pizza funcione perfeitamente mesmo pra quem gosta de pizzas pequenas, medias ou grandes, sem saber que isso demanda no triplo de esforço necessário, e não quer saber de pagar a maispor isso.
* Você faz uma pizza maravilhosa e entrega pro cliente, e ele então liga pra você pra reclamar que ele não tem garfo e faca, que são necessários pra comer a pizza.
* Um possivel cliente te liga pra pedir uma pizza e quando você pergunta que pizza que ele quer, ele te responde que não sabe, que só quer uma pizza porque todo mundo que ele conhece tem uma.
* O cliente te liga, pede uma pizza super incrementada e trabalhada, e simplesmente não entende como você pode cobrar tão caro por essa pizza, sendo que o boteco da esquina dele faz uma pizza por bem menos.
* Outro cliente te liga e pede uma pizza e fica abismado com o preço que você que cobrar pela pizza, e ele te diz que o sobrinho dele faz uma pizza por um décimo do preço que você pede (ele usa um template de pizza semi-pronta comprada no Carrefour).
* O cliente te liga e pede uma pizza linda, mas avisa que ja pediu a mesma pizza pra 5 outras pizzarias e só pagara a que ele gostar mais.
* O cliente te liga e pede que a pizza dele tenha todos os ingredientes possíveis e imagináveis que você tem no seu estoque, mesmo os mais absurdos possíveis, achando que isso fará a pizza mais atrativa a quem for come-la.
* O cliente pede a pizza, sem problema nenhum, mas você não poderá entrega-la por motivos de segurança. Ele não quer que você entre na casa dele, então você terá de entrega-la na casa do agente de segurança dele, que mora do outro lado da cidade, que então a entregara pro cliente…que mora do lado da pizzaria.
* O cliente não tem amigos americanos, nem espanhóis e nem nada em casa, mas mesmo assim te pede que você mande uma pizza com versões em inglês, espanhol, japonês, javanês, svenska, paquistanês, francês e gaulês.
Cru, mas meu melhor momento Luís Fernando Veríssimo.
Como nota de rodapé, pra ser sincero, alguns dos itens citados aí são de situações bastante específicas, então pode ficar difícil de sacar – por exemplo, o item “ingrediente da moda” citado acima era uma crítica direta ao fato do tal cliente querer um site em Flash com uma tecnologia caríssima que existia na época (Flash Generator) pra uma aplicação consideravelmente inútil (usuário poder mudar a cor de fundo da página!), quando o site dele funcionaria muito melhor se fosse em HTML. É também a razão pela qual alguns itens foram alterados ou excluídos do livro do Luli, acho.
E quem tiver mais informações sobre o arquivo da lista WD, pra ver se a gente consegue localizar o original disso, fique à vontade pra postar nos comentários.
Update: Luli Radfahrer postou um pequeno update sobre o texto em seu blog. Valeu!
Escrito em 29/April/2009, 16:31 em estudos, trampo | 15 comentários
Ainda no assunto Edted, durante a realização da mesa-redonda final alguém fez uma pergunta (via Twitter acho) querendo saber se eu achava que faculdade era uma coisa importante na formação de uma pessoa.
Na ocasião eu acabei respondendo com um breve “sim”, em parte porque não queria tomar muito o tempo da mesa, e em parte porque é uma discussão tão grande que não caberia direito no breve tempo de discussão que a gente tinha disponível de qualquer forma.
Aparentemente essa foi a resposta certa, porque o pessoal que estava assistindo até curtiu: os outros palestrantes deram risada, e teve um início de palmas na audiência. Mas, pra ser sincero, acho que a brevidade da resposta fez com que ela soasse meio seca (pra não dizer cretina); então, pra complementá-la, e até porque esse é um assunto muito pessoal, aqui vai um pouco do que acho sobre o tema. Eu até já tinha falado um pouco disso nos comentários deste artigo escrito pelo Bruno Ribeiro, mas escrevo aqui de forma mais extensa. Aviso: verborragia master, como sempre.
Eu sempre fui um cara meio contra faculdade e cursos em geral. Pra explicar: eu comecei a trabalhar efetivamente com desenvolvimento de sistemas (e suas interfaces) em 1994, quanto eu tinha 16 anos, e desde então nunca parei de trabalhar. Sempre aprendi fazendo e indo atrás, isso numa época pré-Google e até pré-Internet. Comecei a programar aos 10 anos, e talvez por isso sempre fui muito defensor de um esquema autodidata de aprendizado.
Depois que terminei o segundo grau, resolvi, por diversos motivos, dar um tempo nos estudos. Eu até cheguei a fazer faculdade em 97 e 98 (Propaganda e Marketing), mas acabei abandonando por falta de grana pra continuar e tempo pra estudar – tive de escolher entre trabalhar e ter dinheiro pra sobreviver, ou viver de vento e estudar sabe-se lá como.
Nesse período em que fiquei exclusivamente trabalhando, tive algumas experiências que me levaram a detestar ainda mais essa idéia de levar certificações ou diplomas ao pé da letra. Duas eu posso citar em especial.
A primeira é que eu trabalhava num lugar onde tinha uma pessoa que possuía um grande certificado de um software bastante usado na época (Aldus/Adobe Page Maker), e deixava o certificado pendurado logo acima do computador. Isso basicamente atestava que a pessoa sabia o que estava fazendo e era um profissional de destaque na área. Essa pessoa ganhava um pouco mais do que o dobro do que eu ganhava. O detalhe é que quando tinha algum problema muito cabuloso para resolver no Page Maker, essa pessoa me chamava, já que eu era o faz-tudo do lugar na época – e incluía-se aí mexer com o Page Maker, coisa que nem era minha especialização.
Nada contra essa pessoa, que era super gente boa. Mas a experiência me deixou com uma opinião amarga sobre certificações.
A segunda é mais contundente. Na primeira agência de Internet em que comecei a trabalhar, era costume criar propostas de projetos para clientes em potencial, e apresentações que acompanhavam essas propostas. Aquelas típicas apresentações cretinas e pomposas que falavam sobre a agência. Enfim, um dia estávamos desenvolvendo umas três propostas pra serem apresentadas pra um grande cliente. A secretária estava montando um slideshow com informações sobre as propostas – uma das quais eu que estava desenvolvendo – e tivemos um papo mais ou menos assim:
Secretária: Então, Zeh, estou montando a apresentação pro <Grande cliente X>, e estou colocando as fichas da agência. No que você é formado?
Zeh: Não sou formado.
Secretária: (Boquiaberta) Não é formado?! Não fez faculdade?
Zeh: Não.
Secretária: Mas você não fez nenhum curso?
Zeh: Só me formei no segundo grau, em Processamento de Dados.
Secretária: Ahn… tudo bem.
Aí ela foi e fez a apresentação… sem meu nome. Não importa que o conceito, design, e programação da proposta eram meus: se eu não tinha nenhuma graduação interessante pra citar, eu não importava, valia mais a pena colocar o bio de um dos sócios da agência. Não era culpa da secretária, diga-se de passagem, já que ela também era gente fina; era uma coisa normal da agência.
Essa mesma agência era aquela típica empresa anos 90, que considerava melhor alguém que tivesse um curso de graduação, fosse ele qual fosse. Você podia ser graduado em veterinária, que pronto, era automaticamente um melhor designer. Eles até queriam meu conhecimento, já que profissionais de Internet não eram tão comuns na época. Mas eu era meio que um patinho feio.
E na real, nem sei se apresentação toda foi pro cliente mesmo. Essa idéia de propostas era um mundinho de faz-de-conta às vezes.
Por conta dessas e de outras, criei uma certa mágoa de todo essa idéia de formação. O fato de que conheci ótimos profissionais sem formação alguma, bem como péssimos profissionais formados – típico do começo da Internet no Brasil, acho – não ajudou a imagem do mundo acadêmico.
Não quer dizer que eu detestasse cursos. Cheguei a fazer 3 anos de Panamericana exatamente porque achei que tava perdendo um pouco do contato com o mundo do design, e porque queria respirar um pouco mais da coisa. Não que seja uma super escola, e obviamente não tem nada a ver com formação acadêmica, mas é um curso, e aprendi algumas coisas lá sim.
Mas minha opinião geral sobre faculdades e formação só começou a mudar lá pros idos de 2000, quando visitei o Senac pela primeira vez, por convite/dica da Lu Terceiro. Foi num evento com palestras de diversos monstros do (então) webdesign mundial, em especial a Designers Republic (!). Fiquei impressionado com duas coisas: primeiro, a iniciativa de uma faculdade de trazer designers desse porte pra um evento local; e segundo, a grade do curso de Design Gráfico que existia até então no Senac, distribuída como parte do material promocional do evento. Três semestres de tipografia? Eu não sabia que existia nenhum curso desse tipo em São Paulo – eu precisava fazer aquela faculdade.
Só havia um problema: o curso do Senac era à tarde. Eu escrevi um email pro então coordenador do curso perguntando sobre a possibilidade de cursos à noite no futuro, e ele foi bastante otimista, dizendo que existia a idéia e que isso deveria rolar no futuro.
Nessa época, eu estava terminando a Panamericana (na verdade, num hiato de 2 anos sem estudar que tive entre o segundo e o terceiro ano do curso). Decidi terminar a Panamericana e aguardar novidades do Senac.
Foi o que eu fiz. Após terminar a Panamericana, Fiquei juntando grana por 2 anos, e então, em 2004, veio a novidade de que o curso de Design do Senac iria se desmembrar, e novas especializações seriam criadas: Design Industrial, e Design de Interfaces. Apesar de meu desejo ser mais de focar no design gráfico – que continuaria existindo à tarde – decidi que o Design de Interfaces se encaixaria bem nos meus planos e decidi tentar.
Todo mundo da área que eu conhecia achou a decisão meio doida. Todo mundo apoiou, mas ainda assim achou esquisito, porque naquela área, com já uma década de experiência, eu “não precisaria” desse tipo de formação. E por um lado eles estavam certos, era uma coisa meio doideira, e eu ia gastar uma bela grana e um bom tempo com isso. Mas ainda assim, era uma coisa que me deixava feliz, porque eu finalmente tinha a grana (e, de certo modo, o tempo) pra fazer a faculdade, então era uma boa oportunidade pra me livrar de algo que tinha virado meio que uma pedra imaginária no sapato cerebral pra mim. Como quando eu finalmente terminei Double Dragon (só uns 10 anos depois de ter jogado pela primeira vez, com raiva, usando um emulador e save states).
Ainda assim, nunca fui fazer faculdade de modo muito otimista. Eu queria três coisas, basicamente: 1. Um papel chamado “diploma”, pra poder usar pra todos os fins cabíveis, ainda que cretinos; 2. Saber mais sobre o mundo acadêmico, a fim de poder falar mal com algum ganho de causa; e 3. Aprender um pouquinho, quem sabe, talvez, sobre design.
Enfim, em 2005, com 26 anos, comecei o curso de Bacharel em Design de Interfaces no Senac São Paulo. Me formei em dezembro de 2008, com 31 anos.
Pra resumir a história – até porque já escrevi coisa pra caralho sobre isso aqui (em inglês) – minhas expectativas ao fazer a faculdade foram superadas. Talvez eu fosse cínico demais – não gosto de confiar em pessoas, empresas ou serviços – mas entrei lá sem esperar muita coisa e saí com mais do que pensava. Fazer um curso onde te forçam a pensar de modo diferente, e a ter contato com tecnologias, mídias, plataformas e problemas que você não encontraria no dia-a-dia do trabalho real é extremamente gratificante. Não que o Senac seja a faculdade perfeita – ele com certeza tem seus defeitos, e eu era da primeira turma do curso – mas eu acredito que fez bem o que se prestou a fazer.
Mesmo ter o contato com as pessoas – meus colegas eram, em média, 10 anos mais novos do que eu – foi algo que me fez aprender muito. Não é à toa que faço questão de ter links pra blogs de todos meus colegas que os têm aí do lado da página. Pra mim foi um ótimo período; extremamente difícil – já que tive de abrir mão de diversas coisas – mas ainda assim, muito recompensador.
O engraçado é que eu provavelmente consegui aproveitar o curso muito mais exatamente por ser mais velho. Tenho certeza de que ter um repertório adicional me fez captar algumas aulas de uma forma muito melhor e absorver muito mais do curso do que a maioria dos outros alunos. Não que eu tenha alguma diferença intelectual – pelo contrário, eu acredito que a grande maioria dos meus colegas está num nível muito superior do que o que eu tinha quando tinha a idade deles (voz de velho caquético) – mas porque minha experiência que fez com que o discurso dos professores tivesse uma digestão muito mais fácil.
Ou seja, quem estiver pensando em começar faculdade mais tarde, eu recomendo. Vale a pena.
Tenho certeza de que saí da faculdade uma pessoa melhor, e um profissional melhor. Não que minha opinião tenha sido completamente mudada – ainda acredito que é possível, sim, ser um profissional de destaque sem um curso superior. Acredito, sim, que muita gente com um curso superior continua sendo um zero à esquerda simplesmente porque não aproveitou o período acadêmico do jeito que poderia. Sou, sim, contra a tal “regulamentação” e exigência de diploma nas empresas desta área; acho uma puta coisa retrógrada. Mas agora também acredito que, pra quem realmente quer, faculdade pode ser um grande salto pessoal, intelectual e profissional.
Faculdade vale a pena.
E minha colação de grau é semana que vem.
Escrito em 25/April/2009, 18:16 em pirações, trampo | 15 comentários
Acabei de voltar do 14º EDTED, onde dei uma palestra prum público de umas 400 pessoas (chute aproximação heurística), basicamente sobre meu trampo de Flash e porque eu acho que sites em Flash não são a cria do demônio. Era mais ou menos a mesma apresentação que fiz no EWD do Rio de Janeiro mês passado, embora melhorada – com algumas imagens adicionais, e utilizando os sites ao vivo ao invés de só mostrar screenshots.
Não que eu costume palestrar demais (geralmente evito), mas sempre que estou pra fazer apresentações pra um público superior a 10 pessoas, quem não me conhece faz as perguntas óbvias, tipo, “tá tudo certo? cê tá nervoso?”.
Eu tenho várias fobias/bloqueios/vergonhas na vida, algumas razoavelmente bizarras. Felizmente, falar em público não é uma delas. Ao contrário, eu acho muito louco.

Slide mostrando o website "Absolut Ruby Red", por Gringo Interactive
(foto por Henrique Locatelli)
O que não quer dizer que eu faça a coisa muito bem. Eu falo rápido demais – não porque eu esteja nervoso, mas porque realmente falo rápido demais – e às vezes esqueço de me controlar pro pessoal poder acompanhar e pra eu não me enrolar muito. Eu também tenho problemas pra olhar nos olhos dos espectadores – não gosto de ficar secando ninguém – então geralmente fico olhando pro chão ou pro além. Mas, no geral, pelo fato de não ficar nervoso e conseguir falar o que planejei antes, acho que conduzo apresentações de forma razoável.
No entanto, o legal de ir em eventos como o de hoje é que dá pra medir legal como está sua habilidade em criar uma apresentação decente e mostrá-la pro público. Você vê como os outros palestrantes de comportaram com um conteúdo voltado pra uma mesma audiência, então tem alguns parâmetros de comparação que podem ser usados.
O foda é que sempre que faço isso fico meio com vergonha da minha palestra, achando ela a coisa mais banal e óbvia do mundo, e me sentindo meio lixo. Isso porque neguinho vem e faz um questionamento super pertinente e aí eu penso “caralho, cadê o questionamento na minha palestra, tá conformista demais”. Aí fulano vem e faz uma apresentação impecável e eu penso “cacete, titubeei na hora de falar tal frase, já esse cara não titubeia nunca”. Dá pra ver o que te falta ainda pra melhorar.
O evento de hoje não foi diferente.
Duas das palestras – a do Gil Gardelli e a do Roberto Cassano – eu já sabia o que esperar, afinal, já havia assistido às duas no evento do Rio de Janeiro. No entanto, ambas – a primeira, uma metralhada de questionamentos que eu continuo achando muito pertinentes, e a segunda, um resumo de uma experiência singular com mídias sociais online – são duas das que me fizeram sentir um pouco diminuído. Não que eu não tenha fé e não goste de meu trabalho, muito pelo contrário; mas ambas são apresentações que levavam a crer que talvez minha mensagem não se encaixasse tanto ali no meio.
Mas hoje, em especial, o que me fez sentir que tem algo mais além foi assistir à palestra do Luli Radfahrer. De conteúdo, sua palestra foi um misto de experiência, questionamento e divagações; difícil definir, já que foram pulos entre tópicos diferentes de forma muito rápida. Onde a palestra realmente funcionou, no entanto, foi no formato – vídeo/slideshow sincronizado com uma fala meticulosamente trabalhada – e na retórica aguçada do palestrante.
Só pra constar, não acho que sou nenhum ignorante em relação a palestras e apresentações. Já assisti vídeos de muitas apresentações do TED, Pecha Kucha e afins. E não é que a palestra tenha sido uma coisa de outro mundo, com fogos de artifício e coisa e tal. Foi, sim, uma apresentação muito bem feita, sem desvios de atenção. Mas acho que o que fez a diferença pra mim – comparando com vídeos que já vi do TED – foi assistir a palestra ao vivo. Tem quase uma energia que rola que faz com que você perceba que a apresentação não está sendo só uma palestrinha normal. Não devido a algum segredo técnico empregado na sua realização, mas por um resultado final impecável.
Deu pra perceber que tenho que comer muito PowerPoint Impress ainda.
Escrito em 19/April/2009, 11:01 em comida, trampo | 15 comentários
Eu trabalho em casa, sozinho, há quatro anos. Sou um freelancer remoto, apesar de trabalhar exclusivamente pra uma mesma empresa.
Quase sempre que converso com alguém que trabalha fixo, dentro de uma empresa, o pessoal diz que adoraria trabalhar em casa. Muita gente vê trabalhar em casa como um sonho.
A coisa não é bem assim, no entanto. Eu mesmo só comecei a trabalhar em casa porque precisava de um horário e uma agenda mais flexíveis, que me permitissem balancear trabalho e faculdade de um modo razoavelmente são. O melhor que posso dizer sobre a experiência é que a coisa pode funcionar, mas que não vejo a hora de voltar a trabalhar dentro de um escritório (coisa que deve acontecer em breve). Então, aqui vai um emaranhado de pensamentos aleatórios e desorganizados sobre o assunto.
Não há separação entre trabalho e descanso. Se seu local de trabalho é o mesmo que seu local de relaxamento, você está em permanente modo de trabalho (a menos que seja realmente preguiçoso, aí é o contrário). Pode parecer esquisito, mas sair de um lugar (escritório) e ir pra outro (sua casa, seu quarto, etc) faz com que você rapidamente mude uma chave em sua mente, saindo do modo trabalho e entrando no modo foda-se. Você chega em casa e esquece as tretas do trampo (mesmo que seja pra se preocupar com as tretas da casa). Se você tá trabalhando em casa, é o contrário; toda hora vejo meus post-its com pendências de trabalho no meu monitor, por exemplo. A mente nunca se desliga do trampo. Quando preciso relaxar, tenho de sair de casa.
Você precisa de muito auto-controle. Sabendo que não tem ninguém pra checar se você está efetivamente trabalhando (ou se está ao invés escrevendo no Twitter, conversando no MSN, lendo email, jogando algo, assistindo vídeo de gatos engraçadinhos, escrevendo posts idiotas num blog que ninguém vai ler, ou coisa assim), é muito fácil perder o foco e ir fazer algo completamente inútil, perdendo horas de trabalho. Sem um auto-controle absurdo, é batata você desviar a atenção e só perceber as horas que perdeu quando já está com tudo atrasado.
Você vai efetivamente trabalhar a todo momento. Trabalho freelance é foda. Neguinho quer a coisa pra amanhã, e não importa a hora em que você vai trabalhar. Isso quer dizer que você não pode dizer “opa, são 7 horas, vou pra casa porque tenho de dar comida pro gato/cortar a grama/colocar o lixo na rua/baixar LOST”. Não, você fica sob constante pressão pra terminar algo. Quando realizo trabalhos freelance, é comum ficar dias ou até semanas sem trabalhar, no período entre trabalhos, mas quando ele chega, é labuta dia após dia, sem parar. Amanhã é um feriado, e eu trabalho. Sexta retrasada foi feriado, e eu trabalhei. Ambos fim-de-semana idem.
O trabalho é mais difícil. Se ambos os lados – você, e a empresa que te contratou – forem extremamente organizados, o trabalho até pode render. Mas ele nunca vai render tanto quanto ele poderia se você estivesse dentro da agência. Existem diversos problemas de comunicação que podem ocorrer, e às vezes, alguma besteira no qual você perderia poucos segundos se estivesse todo mundo debaixo do mesmo teto – tipo ir perguntar pra um colega uma bobeira rápida sobre uma tarefa – acabam se tomando um tempo muito maior pra serem realizadas através de email ou instant messengers. É uma camada de burocracia técnica que, embora pequena, atrapalha bastente.
A rotina cansa muito mais rápido. Tudo é muito mais chato quando você faz algo sozinho. Você quer ir comer, vai sempre no mesmo lugar, comer a mesma comida, porque já perdeu a paciência. Não tem aquela desculpa de ir comer no lugar X, que é mais longe, e demora mais pra chegar, só pra fazer algo diferente. Quem gosta de ir comer num lugar super legal, mas fazê-lo sozinho, sem ter ninguém pra conversar? Acaba perdendo o sentido. E talvez seja uma coisa pessoal, mas realmente sinto falta de comer algo diferente todo dia.
Você perde a atenção muito facilmente. Se você mora, e trabalha, sozinho, e num lugar calmo, ótimo. Senão, é foda. Novamente, talvez isso seja algo pessoal, mas qualquer coisa não relacionada a trabalho me desconcentra de uma forma descomunal. Um telefone tocando quando alguém quer vender filtro de água Europa, a campainha tocando porque alguém quer pedir uma contribuição pra alguma causa nobre de origem incerta, são motivos suficientes pra arruinar minha mente por uma meia hora. E embora ninguém trabalhe dentro de bolhas num escritório, no local de trabalho desvios de atenção são geralmente tratados de forma muito mais objetiva e pragmática – ninguém vai te interromper pra te oferecer cartão de crédito do banco Santander ou combo NET e ficar insistindo quando você disser que não.
Você vira um ser da caverna. Quando você trabalha em casa, não é obrigado a sair, logo, acaba não saindo quase nunca. É comum eu passar dias seguidos sem botar o pé na rua, a ponto de começar a ter dores musculares de tanto que não me movimento. Trabalhar em casa é um tapete vermelho pro sedentarismo. Lógico, é legal não ter de gastar tempo com transporte público ou dirigindo até o trabalho – mas pessoalmente, mesmo isso acho algo um pouco negativo, já que acabo abrindo mão de meu período de leitura forçada – vulgo metrô e ônibus. Se no dia-a-dia é mais fácil você se forçar a se mexer – fazendo um caminho diferente pro trabalho, por exemplo, de modo que ando mais – quando você trabalha num escritório, quando você trabalha em casa é muito pior. Tenho épocas em que me exercito em casa, ando bastante, corro, ando de bicicleta, etc, mas no auge do trabalho exaustivo, é fácil esquecer esse tipo de coisa quando você já tá mentalmente exausto e não tem a obrigação de fazê-lo.
Se você tiver qualquer problema que te impede de trabalhar ou se comunicar, está num mato sem cachorro. Você só depende de você mesmo, e isso pode ser bom ou ruim. Quase sempre a segunda opção. Tenho inúmeros exemplos pra citar.
Uma: certa vez, estava terminando um trabalho, quando fritou a fonte do meu micro devido a um pico de energia que deu em casa. Fui correndo com o computador na assistência, trocar a fonte. Cheguei em casa, percebi que o micro ainda estava ruim, travando do nada. Testei a memória e vi que um dos chips estava queimado. Tive de retirar o chip e ficar trabalhando com metade da memória (1gb) até poder terminar o trabalho e comprar mais memória com calma. Gastei dinheiro e tempo.
Outra: estava terminando um trabalho que deveria ser entregue 2 horas após. Eis que começa uma chuva descomunal, cai a força no meu bairro inteiro, e ela não volta simplesmente porque a chuva foi tão forte que derrubou árvores e galhos nas ruas – incluindo nos fios elétricos. Nem falar com o pessoal do trampo eu conseguia, porque o bairro inteiro (inclusive 2 lanhouses) estavam sem energia. Eles tiveram de me ligar no telefone pra entender o que tava rolando. Tudo bem, eles aceitaram uma versão do trabalho que tinha mandado horas antes, mas é uma queima de filme. Fora o stress que passei, já que em determinado momento estava quase subindo pelas paredes sem saber o que fazer. Quando eles me ligaram, estava pra pegar o carro pra atravessar a cidade só pra achar uma lanhouse funcionando de onde eu pudesse mandar um email pra avisar o que tinha rolado. A luz só voltou horas depois, de madrugada.
Mais outra: estava eu trabalhando tarde da noite quando cai a energia durante 1 segundo. Nada demais. Religo tudo, e eis que minha conexão não funciona mais: o modem havia queimado. Saio eu como doido, à noite, procurando um lugar que venda modem ADSL compatível, porque senão não tenho como mandar meus trabalhos pro trampo no dia seguinte. Achei um na Kalunga. Gastei dinheiro e tempo.
E outra, mais recente: estava pra terminar um trabalho quando meu micro reseta. Ligo de novo, reseta de novo. Ligo de novo, nem liga mais. Era tarde da noite, decido ir dormir (contendo o desespero). No dia seguinte, o micro funciona umas horas, depois começa de novo a se recusar a ligar. Aí o desespero bate. Graças à minha capacidade descomunal de entender o que os diferentes beeps durante o boot de um computador querem dizer, tive um palpite de que a placa de vídeo é que tinha ido pro saco. Fui correndo numa loja de shopping mesmo, comprei a placa de vídeo compatível mais barata que tinha, religuei tudo e, graças aos céus, funcionou. Aí vou eu terminar mais um trabalho com uma placa que não era 1/4 da minha placa anterior. Gastei mais dinheiro e mais tempo. E muito stress. E ainda assim, tive de dar graças aos céus de não ser nada mais sério – não pelo custo, mas pelo tempo que gastaria pra trocar o micro inteiro.
Percebeu o padrão? Os problemas sempre acontecem quando você menos espera (no meu caso, sempre no pior momento do job), e quando acontecem, cabe somente a você saná-los, da forma mais rápida possível. Você fica muito dependente de seu hardware. Imagina a empresa pra qual eu trabalho perguntando a quantas anda o job urgente, e eu respondendo “então chefe, tá parado porque o micro foi pro saco”. Pra mim, soa como desculpa esfarrapada. E isso já aconteceu diversas vezes com a Firstborn – eles devem achar que sou o cara mais azarado do mundo, ou o cara mais enganador do mundo. Até evito falar pra eles quando tem alguma treta.
Neste momento mesmo, meu computador está mais pra lá do que pra cá – há uns dias atrás um dissipador se rompeu da placa-mãe e pode provocar superaquecimento do computador – mas não tenho tempo pra trocar de computador, já que seria impossível transferir programas e arquivos no meio da execução de um trabalho. Ainda bem o verão acabou.
E, finalmente, pessoas fazem falta. Tudo bem que tem quem prefira um trabalho mais ermitão – o Unabomber que o diga. Eu mesmo gosto de me fechar quando estou fazendo algo difícil. Mas pro seu trabalho render a longo prazo, pra você ter algum ponto de referência, um sanity check do que você anda fazendo, e até mesmo pra continuar tendo contato com o que há de novo na sua área, é imprescindível ter colegas com quem conversar. Principalmente numa área considerada criativa. E não estou falando nem de reuniões ou de algo assim; estou falando de virar pro lado e falar bobeira com alguém, mostrar um site, pedir uma dica, conversar sobre uma técnica.
A parte mais social – o almoço, a bebida pós-trabalho – também fazem uma falta tremenda. Pessoas gostam de falar. Pessoas precisam falar. Seja pra reclamar de algo sobre o trabalho, seja pra chorar as pitangas de algum problema pessoal e pedir conselhos, não importa. Botar pra fora – mesmo que sem esperar alguma solução mágica em troca – ajuda as pessoas a continuarem sãs de um jeito que muita gente não percebe.
Enfim, o contato ajuda. Não somos ilhas. Talvez seja isso que eu mais sinta falta quando digo que mal posso esperar pra voltar a trabalhar num escritório.
Isso, e a comida.
Esta é a página pessoal de Zeh Fernando. Este é um website criado para amigos e familiares; se você não me conhece, você provavelmente não deveria estar aqui – nada vai fazer muito sentido. Para mais informações, visite minha página normal (em inglês).
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