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Artigos falando sobre a língua Portuguesa, Inglesa, a relação entre as duas, ou até mesmo outras línguas.
Artigos falando sobre a língua Portuguesa, Inglesa, a relação entre as duas, ou até mesmo outras línguas.
Escrito em 30/December/2009, 8:34 em crônicas, línguas, meta, pirações | 3 comentários
Pra quem não percebeu pelos últimos posts, ou não leu o que escrevi antes, gosto muito de escrever histórias. Sempre foi a área em que me dei melhor na escola.
Uma das razões principais de eu ter criado este blog foi exatamente pra ter a oportunidade de poder escrever histórias e artigos em português sem ter de me preocupar muito com o conteúdo, ou com o que as pessoas iriam achar – afinal, é um blog feito pra ter conteúdo pessoal mesmo, então não tenho que me preocupar com alguém acessando o site do outro lado do mundo pra tirar uma dúvida de ActionScript e acabar se deparando com uma história estranha sobre gaivotas, velhos homens anônimos, ou outros seres parecidos.
Escrever histórias do tipo das que gosto de escrever acaba sendo um exercício de criatividade imenso. Acho que é por isso que gosto de escrevê-las. Pode não parecer, mas pra mim, as histórias que conto não são aquela coisa de escrever uma experiência anterior disfarçada de ficção só pra poupar os envolvidos: nunca estou falando de mim ou de algo que aconteceu e quero botar pra fora, mas sim tentando fazer uma metáfora de lições de vida (tão pretensioso como isso possa soar) ou só situações interessantes/irônicas que imaginei.
Por uma feliz coincidência (ou não), há um tempo atrás comecei a sair com uma garota que quase todo dia me pedia pra contar uma história pra ela antes de dormir – ao vivo, ou via instant messenger. Cheguei a ler histórias de livros de fábulas (ótimo pra praticar o inglês por sinal), mas o que me dava mais prazer era bolar alguma história na hora.
É por isso que muitas das histórias que escrevo aqui são baseadas em contos ou argumentos trazidos de outras histórias, como contos chineses. O que eu fazia era procurar alguma história rapidamente, ler mais ou menos a premissa básica, e começar re-contar a história com modificações próprias, inventando alguma história diferente no decorrer do processo. Às vezes, só um personagem ou uma frase já serviam de ponto de partida. Pra se ter uma noção, uma das histórias mais tristes que contei usava uma frase da letra da música de abertura do desenho Sawamu, o Demolidor como ponto de partida (a parte que fala dos insetos dos charcos). E quando paro pra pensar, muitas das histórias que eu escrevia quando era mais novo se baseavam na mesma receita: eu assistia alguma propaganda de filme, imaginava do que se tratava o filme, e escrevia uma redação com a história, ou só baseada num personagem específico (e depois, quando eu ia ver o filme, ele geralmente não tinha nada a ver com o que eu tinha escrito).
O relacionamento no final das contas não durou muito tempo, e acabou como a maioria dos meus contos acabam – sem um final feliz. Mas as histórias ficaram; salvas no histórico do MSN, escritas rapidamente num arquivo txt qualquer, ou até mesmo anotadas com pressa num post-it, tenho uma série de histórias prontas para serem traduzidas ou reescritas em português.
Mas, mais importante, ficou acesa a chama da escrita. Não só nas histórias já elaboradas que estão esperando pra serem postadas, mas nas idéias que ainda estão surgindo a todo momento, uma vez que a prática do exercício de imaginação foi relembrado.
Enfim, tudo isso pra dizer, não se surpreendam se a partir de agora eu postar mais histórias estranhas aqui do que outra coisa. Minha cabeça anda coçando.
Escrito em 29/July/2009, 6:08 em choque, línguas | 5 comentários
Quando aprendemos inglês numa escola, dificilmente aprendemos as palavras realmente comuns, do cotidiano. Pode parecer estranho, mas a verdade é que o vocabulário do papinho do dia-a-dia é tão efêmero, e tão dependente da localização, que é impossível pra qualquer curso passar uma experiência real de conversação. Você aprende que lata de lixo é trash can, porque esse é o termo genérico (e que está no desktop do computador de todo mundo), mas aí você vai conversar com alguém, fala trash can e a pessoa te olha de um jeito estranho porque na verdade o que você deveria ter falado é litter basket (Nova York, depende do contexto), lit bin (Austrália), ou alguma outra coisa.
Obviamente, o mesmo acontece com o português – as mesmas palavras têm significados diferentes, e as mesmas coisas têm nomes diferentes. Paneleiro no Brasil é cada que vende panelas; em Portugal, seria o equivalente a bicha. Em Portugal, você não usa um mouse e um monitor no seu computador, e sim um ratinho e um ecrã. As pastas ou diretórios do seu micro? Ficheiros.
Existem diferenças locais até: grelha, em São Paulo, é “um utensílio culinário utilizado para assar ao fogo ou na brasa diferentes tipos de carnes e vegetais” (valeu Wikipédia), mas em alguns estados do Brasil (não lembro quais) e em Portugal (novamente), quer dizer largada (aparentemente uma transliteração de grid). Ou um exemplo pior, farol. Farol em São Paulo é o mesmo que semáforo. Mas nunca diga pra um Carioca em São Paulo “virar à esquerda no farol”. Ele vai sair andando a esmo até chegar no litoral, provavelmente pegar um barco e aí finalmente virar à esquerda no farol.
O resultado dessa salada é que usar uma língua no dia-a-dia acaba sendo, em parte, mais difícil do que usá-la mais formalmente. Essa é mais ou menos a história do meu aprendizado do inglês: como acabei aprendendo muito através da leitura de livros, tenho um bom vocabulário e tal, mas quando chega na hora do chit chat, a coisa fica braba. Consigo escrever um trabalho acadêmico mas na hora de trocar idéia com alguém, emperro nas coisas mais bobas.
Isso rende alguns momentos engraçados até eu descobrir o nome correto das coisas por aqui.
Eu recentemente aluguei um apartamento, e precisava medir a largura dos cômodos pra poder comprar móveis que coubessem dentro do espaço disponível. Então hoje fui comprar uma fita métrica (ou trena, ou metro) pra medir as distâncias, só que eu não sabia qual o nome do treco em inglês. O papo foi mais ou menos assim:
- Hi, I need to buy something… to measure distances… it’s like a tape, but with inch measurements… I don’t know the correct name.
- Oh, you want a measuring tape.
Vários dos nomes de coisas por aqui são assim, bem descritivos, óbvios, mas até você saber qual o correto, não dá pra se fazer entender sem uma longa explicação.
Talvez nós que tenhamos muitos nomes em português (de onde vem “trena”?) e isso acaba provocando um choque, mas é comum eu perguntar pra amigos meus como se chama algo, só pra descobrir que não tem um nome específico. Por exemplo, eu queria descobrir qual o nome local para box (aquele vidro do banheiro que fica em volta do chuveiro) já que queria poder falar sobre isso na hora de alugar um apartamento. Fui perguntar pra um amigo (nativo) esses dias via MSN:
<zeh> also, what’s the name for that glass wall people have on bathrooms around the shower area?
<don> no name.
<don> just a shower door.
<don> or glass shower door
Ou, pior ainda, quando perguntei pro mesmo cara qual era o nome dado aos vidros laterais do carro. Disse pra ele que nós chamávamos aquilo de glass (vidro).
A resposta? Window.
É díficil não se sentir uma anta às vezes.
Escrito em 11/May/2009, 10:28 em estudos, línguas | 2 comentários
Dia 13 (quarta-feira próxima) às 20:00hs farei no InterfaceCamp do Senac uma apresentação chamada “Dez dicas para seus primeiros dez anos de carreira”. É algo bastante pessoal, e são algumas dicas simples, mas que eu considero importantes pra quem tá começando a carreira agora – coisas que venho usando nos últimos anos ou que só recentemente saquei o quanto são importantes. São também, em sua maioria, respostas às dúvidas mais frequentes que costumo ouvir de quem está começando a trabalhar ou estudar, então achei que seria legal trazer isso pra dentro do ambiente acadêmico.
De todas as dicas que preparei pra apresentação, tem uma que considero uma das mais importantes, senão a mais importante (porque muita gente não a considera como tal). No dia mesmo eu não vou falar tanto do assunto: tava ficando muito extenso, e muito negativo, aí dei uma resumida, já que tinham outras dicas mais positivas pra serem dadas. Eu vou, então, usar este espaço ao invés pra descarregar meu argumento. Spoiler alert: pra quem for assistir à apresentação, pode ignorar e ler depois.
Enfim, é algo que muita gente não gosta de ouvir, ou tem preguiça de pensar nisso, ou fica até ofendido quando me ouve sugerindo o lance e discutindo as razões. Mas, aqui vai:
Todos temos de aprender inglês, e aprender bem. No mínimo, pra poder ler qualquer texto ou livro em inglês sem problemas.
Não precisa sair escrevendo artigo em inglês, vendo LOST sem legenda (apesar de ser bem melhor!), ou falando numa boa com gringo via Skype. Mas tem de saber ler. E tem três principais razões pra isso.
A primeira, talvez mais óbvia (e que engloba as outras), é que a quantidade de informações disponível sobre qualquer tipo de assunto é muito maior em inglês. A menos que estejamos falando sobre algum assunto extremamente específico do Brasil, tipo Acarajé, você vai ter muito mais fontes de informação na língua inglesa do que na portuguesa. Quer ver? Procura no Wikipedia por qualquer coisa, tipo, sei lá, Zeus. A versão em inglês da página vai ser invariavelmente maior que a versão em português. Muitas vezes, muito maior. Isso se a versão em português sequer existir.
A mesma coisa se percebe quando você quer procurar um assunto no Google: nosso querido Zeus retorna 14 milhões de resultados em inglês, contra 2 milhões em português. Uma diferença do tamanho do monte Olimpo.
A segunda é que qualquer conteúdo que é traduzido para o português acaba sendo lançado com uma grande atraso. Saiu um livro legal em inglês que tá fazendo o maior sucesso? Ótimo, agora espere meses (ou anos) até o mesmo conteúdo sair em português. Ah, e vai ser mais caro que o original. Isso se sair, obviamente.
Essa situação se agrava quando se trata de livros técnicos. Você espera 1 ano por um livro sobre, sei lá, alguma versão de alguma linguagem de programação, e quando ele sai o assunto já está defasado.
A mesma coisa acontece com conteúdo online. Sempre que algo de novo acontece, é divulgado em inglês. Não adianta. Acaba saindo só em português quando alguém resolve traduzir. Você lê novidades de informática, gadgets e afins em blogs em português? Maravilha – esses caras, em sua enorme maioria, não fazem nada além de xupinhar conteúdo dos originais em inglês e traduzi-los pra consumo local. São só intermediários. Tudo que você lê é filtrado, mastigado, e regurgitado. O que você lê é o vômito coletivo de algo que outros acharam que você gostaria de engolir. Fora quando é mal traduzido.
A terceira razão, talvez maior, é que mesmo quando algo é finalmente traduzido, a tradução geralmente é feita de uma forma bem porca, ou sofre de problemas graves de perda de significado. Isso porque tradução, na verdade, é uma mentira. É um faz-de-conta. Pra uma tradução ser realmente bem feita, o tradutor precisa saber muito bem do que está falando, de modo a reescrever o texto, ao invés de fornecer uma tradução literal de algo. E mesmo assim existem problemas, que geralmente pediriam extensas notas de rodapé em qualquer tradução – coisa que, pela minha experiência, praticamente nunca acontece.
Pra ilustrar esse problema, tem três causos que acho fantásticos.
O primeiro é sobre o livro Emergence, do Stephen Johnson. Cultuado livro pop-científico que fala sobre padrões que podem emergir de sistemas complexos – como de colônias de formigas, cidades e afins – o problema em traduzir o livro começa já pelo nome. Emergence, em inglês, vira Emergência, em português. O problema é que essa palavra tem dois sentidos distintos, sendo que o correto é o menos usado – aí você vê a capa e fica achando que o livro é um sobre acidentes e outras emergências. Isso porque a palavra “emergência”, em português, significa tanto uma situação de risco que requer ação imediata (emergency, em inglês) quando o ato de emergir (aí sim, emergence, o nome original).
Por sorte, eu li esse livro em inglês, e foram inúmeras as vezes que me deparei com frases que me fizeram pensar “cacete, isso é intraduzível pro português”. Isso porque o mesmíssimo problema do título se repete dentro do livro. O texto está escrito com palavras relativamente simples, mas que possuem um significado muito específico – e que seriam extremamente complicadas de se traduzir por não terem um equivalente direto em português. Pattern é uma delas. O significado original é algo como “qualquer tipo de tema recorrente”, e talvez pudesse ser traduzido como “padrão de comportamento” ou “padrão de reconhecimento” no livro dependendo do contexto usado em cada parte. Mas na versão em português, ela vira só padrão, provavelmente pra não deixar o texto muito esquisito, mas fazendo com que algumas frases tenham duplo sentido. A dificuldade fica mais óbvia quando você vê que, pra inverter, padrão pode ser usado não só como tradução de pattern, mas também de standard. Então quando você lê o livro, surge a dúvida sobre qual padrão que ele tá falando – um padrão de comportamento que é padrão, porque ele se repete em determinadas situações, ou um padrão de comportamento que é padrão porque é o esperado em alguma situação?
Nesse caso, o problema nem é tanto devido à capacidade ou atenção do tradutor. Pelo que ouvi dizer, a tradução que foi feita desse livro é realmente muito boa, contando até mesmo com notas de rodapé que explicam o contexto onde as palavras difíceis acabam se inserindo. A tradutora mesmo parece super gente boa (ela tava acompanhando o Steven Johnson na Campus Party de São Paulo em 2008, fazendo as vezes de intérprete e ajudando-o a responder questões do público, o que me leva a crer que ela está bem a par do trabalho do cara). Então esta nem é uma crítica à tradução deste livro, já que nem o li em português. É mais uma ilustração dos problemas que existem pra realizar uma tradução: e meu argumento de que, por melhor que ela seja feita, lidar com a tradução acaba virando um impecilho pra quem quer entender o texto. Você primeiro tem de entender o que o tradutor quis dizer, já que vai invariavelmente ler um texto adaptado, pra depois entender o que o texto original estava falando.
O segundo causo é muito pior, e provavelmente muito mais comum. É quando as traduções são mal feitas mesmo.
Eu gosto muito de ler ficção científica. Leio desde que era moleque. E o último livro de ficção científica que li em português, há, acho, uns 10 anos atrás, foi Neuromancer, do William Gibson. Foi o livro que deu origem ao que depois foi chamado de ficção científica cyber-punk. Esse livro eu acabei lendo em português por mero acidente – nessa época mesmo eu já lia só ficção em inglês, porque livros desse tipo em português eram praticamente inexistentes (na verdade, um dos motivos principais de eu ter aprendido inglês foi pra poder ler o que eu gostava – eu me forçava a ler os livros mesmo quando não entendia 100% do que tava acontecendo).
Enfim, eu li o livro inteiro, e pra ser sincero, entendi pouco. Era tudo muito confuso. A impressão é que era uma história tipo Blade Runner contada por um maconheiro. Fiquei com a impressão de que era o estilo do autor – escrever de uma forma mais surreal, mais metafórica. De que você tinha de parar pra pensar no que o cara tava descrevendo e chegar às suas próprias conclusões.
Alguns anos depois, achei uma MP3 do audiobook do livro pra baixar. Decidi baixar o tal audiobook pra escutar no carro, enquanto ia e voltava do trabalho, já que pegava um trânsito do cacete nessa rotina.
Ouvir o audiobook me revelou uma história muito diferente. Eram inúmeras as situações que eu não me lembrava de quando li o livro. Principalmente o final. Tá, fazia um tempão que eu tinha lido o livro, mas como eu podia ter esquecido tanta coisa?
Depois de ter ouvido o final, a primeira coisa que fiz foi chegar em casa e procurar o livro pra conferir. Li a parte final inteira, e, batata – era muito diferente do que eu havia lido. Foi aí que saquei – comparando algumas frases da versão escrita com a versão em áudio, ficou claro que era um problema de tradução. A pessoa que havia feito a tradução não fazia a mínima idéia do que estava fazendo, e recheou o texto de frases traduzidas em sua forma literal, sem nenhuma preocupação com o contexto ou o argumento. Era tipo passar a história por um moedor de carne e tentar juntar os pedaços depois no formato do bife original. Perdia completamente o sentido.
Por isso que, anos depois, tive de dar muita risada quando vi que havia uma nova edição do livro sendo lançada numa vitrine da Livraria Cultura. Estampado bem grande do lado do livro em exibição estava a frase “nova tradução”.
E nem pense que este é um problema exclusivo de livros. O mesmo acontece com notícias e afins. Por exemplo, já vi diversas notícias que vêm da Reuters ou outras agências internacionais postadas no Estadão com uma tradução porca, do tipo que comete aqueles erros crassos e cai na armadilha de diversos falsos cognatos.
Mas, se quer saber, foda-se. Muito melhor do que esperar a boa vontade de uma editora ou um site é pegar o original. Sem demora, sem perda de significado, e sem depender de ninguém. Se eu fosse depender do português, não teria lido 90% das séries de ficção que já li até hoje. Não são poucas.
O último causo é mais específico e relacionado a livros técnicos. Livros técnicos são de tradução notoriamente difícil, porque alguns termos podem fazer parte das linguagens ou softwares usados e não podem ser traduzidos. Um exemplo típico é a palavra Array. Essa palavra faz parte de muitas linguagens de programação, já que é usada pra descrever um tipo de dado bastante comum – matrizes ou listas de dados.
O problema é que você tem de traduzir a palavra em algumas das explicações, senão fica uma mistureba de palavras sem sentido, com inglês no meio do português. Então uma frase do tipo “To create an array of data you use the Array type” vira “para criar uma matriz de dados você usa o tipo Array”. Tá correto, mas aí você acaba usando duas palavras pra mesma coisa, perde um pouco da explicação. Então cada livro faz de um jeito.
E coisas do tipo String então, sem tradução direta? Se você for usar a tradução literal (corda), acaba virando algo completamente nonsense. A tradução prática (texto) é genérica demais, e pode também introduzir problemas no futuro. Por isso você acaba tendo textos misturados, algo do tipo “Crie uma string paga guardar os dados…”. Vira uma salada.
Outro problema relacionado a isso é que se o tradutor escolhe uma tradução completa, ele pode acabar tendo um choque de palavras. A melhor explicação ainda é sobre o Array. Essa palavra geralmente pode ser traduzida para lista, conjunto ou matriz. O mais comum, pelo que já vi, é matriz. Aí a linguagem sofre uma atualização – caso do Flash mais recente – e adicionam um novo tipo de dado, chamado de Matrix, esse sim uma matriz numérica, no sentido mais matemático da palavra. E como você vai traduzir isso, se matriz já quer dizer Array? Acaba precisando reescrever toda a explicação, assumindo uma nova palavra pra um diferente tipo de dado. Tutoriais escritos anteriormente se tornam defasados.
Não tem saída fácil. O melhor é usar sempre só o original para não ter de lidar com problemas intermediários – isto é, conteúdo em inglês.
Talvez pra mim seja meio suspeito falar disso tudo como se fosse a coisa mais fácil do mundo, porque aprendi inglês relativamente cedo. Sei que não é. Mas quem está ainda pensando se vale a pena aprender inglês tem de pensar que a gente está numa cultura onde saber onde achar a informação (e fazê-lo de forma rápida) tem mais valor do que reter a informação. Nesse aspecto, recusar-se a utilizar fontes na linguagem mais utilizada é, sinceramente, burrice.
E perceba que de todos os exemplos que citei, em áreas mais técnicas, tipo programação, o problema é muito pior. Vai procurar solução pra algum problema de, sei lá, Flash, em português. Vai existir, mas pra cada item que você achar em português, vai achar mais 100 em inglês.
E na questão técnica o problema é muito pior não porque existe o domínio de algum grande império que visa massificar sua cultura capitalista, mas sim porque faz sentido que uma linguagem seja adotada pra comunicação global. Quando você procura por algum conteúdo em inglês, você não está procurando necessariamente por conteúdos escritos por Norte-americanos ou Ingleses. Está procurando por conteúdos escritos por gente de todo o mundo, e isso é uma coisa que profissionais notoriamente pragmáticos – programadores, cientistas, etc – abraçam mais rapidamente.
Meu trabalho de conclusão de curso é um bom exemplo disso. É um trabalho acadêmico realizado pra uma faculdade Brasileira, mas 90% das referências são em inglês. Não quer dizer que eu não procurei por nada em português – procurei, não só em bibliotecas locais, como em bibliotecas eletrônicas parceiras do Senac. Mas os trabalhos encontrados acabavam sendo extremamente deficientes e sempre apontando pra referências em inglês que aí sim eram o que eu buscava. Não só isso, mas utilizar o scholar.google.com fez com que minha pesquisa fosse muito mais produtiva. Imagina se eu fosse ignorar todo conteúdo em inglês pro meu trabalho – ele não ia sair nunca.
Realmente acredito que uma das primeiras coisas que alguémpode fazer pela sua carreira profissional é aprender inglês.
E antes que alguém entenda errado, eu não detesto o português. Ao contrário; uma das razões de eu ter iniciado este blog é exatamente pra praticar mais o português, algo que eu tava começando a deixar de lado sem querer. E o inverso do que falei também é verdade – tenho pena de quem tem de ler Jorge Amado em inglês e vai provavelmente pegar um texto tão mal traduzido (ou hermético) quanto costumamos pegar nos nossos livros traduzidos do inglês. Como que alguém vai traduzir Marinete pra inglês sem perder parte do significado ou a beleza quase sinestésica do nome? Abra a boca e diga: “Marinete”. Vai virar o quê em inglês, Coachy?
Aprender inglês não é desaprender o português. Não é questão de valorizar uma língua estrangeira e desvalorizar nossa língua. É abrir a possibilidade de pesquisa e de busca de informações pra muitas outras fontes. É agregar, não trocar.
Escrito em 19/April/2009, 19:55 em línguas, pirações | 5 comentários
Eu sou uma merda pra escrever. Principalmente pra escrever emails. Não que eu escreva tão mal assim, mas é que eu escrevo demais.
Quando eu era mais novo, a única matéria que eu realmente gostava na escola – e a única matéria onde eu me dava bem – era Redação. Eu adorava escrever redações. A professora chegava pra sala e dizia que tínhamos de entregar uma redação com 35 linhas pro dia seguinte, e a sala inteira gemia, resignada. No dia seguinte, a maioria da sala entregava uma redação com exatas 35 linhas. Eu entregava uma de 100 ou algo próximo disso; lembro que meu máximo foi umas 150 linhas. Duas professoras diferentes chegaram a pedir à minha mãe, em reuniões de pais e mestres, pra ela parar de me ajudar nas redações. Elas achavam que minha mãe que escrevia as redações. O detalhe é que minha mãe nem sabia quando eu escrevia redações – ela não tinha nada a ver com a história. Elas não deviam ser os melhores textos do mundo, imagino, mas eram longas. Enfim, sempre gostei de escrever.
O problema piorou na época que comecei a acessar BBSs e mandar mensagens que iam levar quase uma semana pra chegar ao destinatário. Por algum motivo, foi quando comecei a escrever melhor, mas também quando peguei o costume de escrever mais no computador.
Mas a questão é que escrever muito não é um negócio muito bom. Ninguém gosta de textos longos. Todo mundo tem preguiça de ler, e ninguém quer receber um email verborrágico que descreve algo nos mínimos detalhes. Quando acabo mandando emails assim, é comum as pessoas simplesmente pularem parte do texto. A pessoa responde e percebo que ela passou batido pela parte mais importante da mensagem. Aí eu tenho de responder com frases que começam com “como falei no email anterior, …”. Sabe aquela teoria de que a gente só lê o começo dos parágrafos em textos na Internet? Então. É verdade.
Mas quem me fez perceber mesmo a minha falta de habilidade em ser sucinto foi o Macaco Louco.

Macaco Louco (ou Mojo Jojo, no original em inglês) é um personagem do desenho animado Meninas Superpoderosas, do Cartoon Network. Principal antagonista da série, ele é um macaco cientista super inteligente cujos planos de dominação mundial (ou municipal) são sempre frustrados pelas três heroínas que dão nome ao desenho. E ele tem uma característica interessante: linhas de diálogo extremamente redundantes, onde ele repete diversas vezes a mesma informação, de formas ligeiramente diferentes. Suas frases são algo do tipo “Vou dominar o mundo, meninas, porque após derrotá-las, o mundo será dominado por mim, Macaco Louco, porque terei acabado de derrotá-las.”
Infelizmente não achei nenhum vídeo legal com a dublagem em português (que acho sensacional), mas o vídeo abaixo, no áudio original, dá uma idéia do ethos do personagem.
Uma coisa que comecei a reparar depois de ter entrado em contato com essa entidade é que realmente às vezes repito a mesma informação de formas ligeiramente diferentes. Digo que A é B porque B é A na esperança de que isso ajude o entendimento. Poder de síntese nulo.
É meio bizarro falar isso, mas foi só aí que comecei a mudar um pouco meu modo de escrever. Não quer dizer que eu realmente escreva melhor. Mas agora, pelo menos, acabo revisando meus textos depois de tê-los escritos pra ver o que dá pra ser enxugado. A faculdade ajudou bastante com isso também; textos enxugados geralmente são muito melhores pra serem lidos, e quando você fica um ano em cima do mesmo texto, tem tempo de sobra pra polir o que tá em excesso.
Nem sempre funciona. Escrevendo em fóruns, é comum eu perder um tempão descrevendo algo nos mínimos detalhes, mesmo quando acho que não tem nenhuma repetição de informações, e aí alguém vem e em 6 palavras diz tudo o que eu estava tentando dizer, mas de uma forma muito mais curta (e agradável).
Ou, pior, gastar um tempo escrevendo um texto imenso e aí chegar no final e ter a certeza de que ninguém vai ter tido a paciência de ler tudo que escrevi, já que a informação era tão inútil que poderia ter sido escrita num só parágrafo.
Esta é a página pessoal de Zeh Fernando. Este é um website criado para amigos e familiares; se você não me conhece, você provavelmente não deveria estar aqui – nada vai fazer muito sentido. Para mais informações, visite minha página normal (em inglês).
Ah, e esse site não funciona direito em Internet Explorer. Não é de propósito. Depois arrumo isso. Enquanto isso, você pode instalar um browser de gente como o Chrome ou o Firefox.