Brasileiros em Nova York

by Zeh on June 27, 2011

Com o início do verão em Nova York, começa também uma das fases mais populares para o turismo na cidade (a outra, curiosamente, é durante o pico do inverno, durante o natal e ano novo). Coincidentemente, hoje vi a notícia de que o gasto de Brasileiros no exterior bateu recorde para o mês de maio.

Antes de me mudar para cá, eu tinha a impressão – provavelmente influenciada por notícias que tinha lido na mídia Brasileira – de que existiriam vários Brasileiros trabalhando ilegalmente pela cidade. De que eu ia lá comprar um cachorro quente na esquina e seria atendido por um Brasileiro.

A realidade é um pouco diferente. A cidade tem muitos imigrantes – legais ou não (não faço idéia e acho que ninguém liga) – mas é muito difícil encontrar Brasileiros nessa posição. Eles existem, tenho certeza, mas comparado às outras nacionalidades encontradas por aqui, são uma fatia muito pequena. Acho que a tendência do Brasileiro é mais ficar ao redor das comunidades Brasileiras que existem por aqui; se vou no Supermercado Brasileiro no Queens, por exemplo, todo mundo que trabalha lá é Brasileiro, já que a região é o reduto da comunidade Brasileira na Grande Nova York. Já no Brooklyn e em Manhattan, é muito mais fácil encontrar gente do resto da América Latina ou do Oriente Médio em trabalhos mais, digamos, urbanos.

O Brasileiro típico em Nova York, ao contrário, é turista de luxo – pelo menos, pro comércio local.

Existem certos locais da cidade onde você vai e você sempre vai encontrar Brasileiros. Me dá sempre um estalo quando estou andando na rua, ouvindo pessoas falando em inglês ou alguma língua desconhecida ao meu redor, e ouço um Português do Brasil (muitas vezes em conversas constrangedoras, já que assumem que ninguém ao redor está entendendo). Isso acontece sempre em alguns dos pontos mais badalados (para turistas), ou mais conhecidos da cidade: Times Square, Quinta Avenida, ou muitos dos museus mais famosos da cidade; e, obviamente, nos muitos destinos de quem quer fazer compras: lojas como Nike Town, Toys’R’Us, Victoria’s Secret, Diesel, Levi’s e outras marcas que são conhecidas no Brasil, mas de difícil acesso.

A razão é bastante óbvia. Os preços de muitos produtos aqui em comparação com os preços do Brasil (após taxas de importação e envio) são infinitamente mais baratos. Então, quando um Brasileiro vem pra Nova York, ele quer é fazer compras – pra si mesmo, pra família, pra conhecidos. A impressão que dá é que visitar pontos turísticos é a segunda opção, e aproveitar o turismo gastronômico ou musical, a terceira. É uma situação estranha, que cria um certo tipo de sacoleiro de luxo, a ponto de que, muitas vezes, dá pra identificar turistas Brasileiros à distância, só pelas marcas das sacolas que estão sendo carregadas.

Obviamente, não sei como é a situação no resto dos Estados Unidos. Mas, por aqui, é fácil ver porque o Brasileiro é bem visto pelo comércio local: porque ele compra em grande quantidade, sem muita reticência. Afinal, ele vai estar pagando, aqui, metade do que pagaria no Brasil; vai levar tudo que puder. O Brasileiro, talvez não tão surpreendentemente, gasta mais no exterior do que turistas de qualquer outra nacionalidade.

É um pouco estranho parar pra pensar que a razão desses produtos serem tão desejados pelo Brasileiro é exatamente o fato do acesso ser tão difícil no Brasil, dada a elevação do preço em nossas terras: faz com que o impulso para comprar algo aqui antes de viajar de volta seja muito maior. Por mais consumerista que acreditemos que o mercado Norte-Americano seja, aqui você praticamente nunca vê alguém desejando loucamente um tênis, um telefone ou um tablet a ponto de economizar dinheiro durante meses ou semanas pra adquirir o objeto de desejo (assim como vê no Brasil); por isso acho que, quando um turista Brasileiro chega aqui, tem um certo choque com o preço de tantos produtos e acaba querendo comprar tudo que vê pela frente. E digo isso porque foi exatamente assim que me senti quando me mudei pra cá: não acreditei no quão baratos eram produtos de consumo – principalmente eletrônicos – e queria de cara comprar de tudo (só me segurei porque ia demorar um tempo pra receber meu primeiro pagamento devido à burocracia local empregatícia e tive várias despesas de mudança, então tive de economizar tempo suficiente pra onda de choque consumista passar).

Me faz pensar o quanto desse dinheiro não poderia estar sendo gasto localmente, dentro do Brasil, e gerando empregos, ainda que indiretamente, se taxas de importação e outros impostos não fossem tão altos. Ao invés, faz com que a classe que pode venha pra fora do país, pra gastar o dinheiro por aqui, e levar de volta produtos que, na real, nem foram fabricados nos Estados Unidos. Sei lá, é meio esquisito.

  • Hiro Kozaka

    Subiram o valor do IOF nas compras no exterior para ver se pegavam parte deste capital evasivo em forma de impostos.

    Quem se ferra sou eu que as vezes tenho que pegar um dinheiro do meu colchao no Brasil e pago o pato.

    Quanto aos brasileiros emigrates ilegais: depois do 11 de setembro ficou muito mais dificil burlar a imigracao americana e se tornar ilegal nos EUA. A brasileirada entao resolveu mudar o destino para a Europa.

    Eu aqui em Londres sempre escuto portugues nas ruas. Seja do turista fazendo compras de luxo ou do entregador de pizza brasileiro. Ontem mesmo fui na GAP trocar um presente e o caixa ao me ouvir conversando em portugues com a minha mulher puxou um “quer a notinha dentro da sacola?”.

    Mas a brasileirada ilegal esta’ mesmo e’ voltando para o Brasil. Com o Real forte nao vale mais tanto a pena vir aqui ralar e juntar dinheiro para comprar uma casinha em Montes Claros.

  • O outro pensamento a se levar em conta é a proteção do mercado nacional. Tem tanta coisa boa sendo feita no Brasil mas parece que importado é sempre mais legal (Claro, eletrônicos e coisas sem comparação ficam de fora desta observação). E produto feito na terrinha gera bastante emprego também.

    Beijos!
    Yuri

  • Sobre os brasileiros conversando sobre coisas bizarras e achar que ninguém está entendendo me lembrou o dia em que eu fui num show no madison square garden.
    Sentei no meu lugar e notei que duas mulheres do meu lado eram brasileiras, mas me segurei e fiquei bem quieto, só para ouvir as pérolas:
    – A gente devia ter tomado banho antes
    – O Jack Johson é o que está cantando ou o que está no piano?

    E muitas outras que acabei esquecendo!
    Mas era realmente estranho e muito difícil escutar alguém falando português por aí.

    Abraços Zeh!