O homem e as gaivotas

by Zeh on December 12, 2009

Era uma vez um homem que vivia no litoral, numa cabana simples do lado de uma praia.

A praia vivia deserta, já que possuía muitas pedras, além de estar distante de qualquer estrada. Assim, na maior parte do tempo, gaivotas tomavam conta da areia.

O homem que vivia nesta praia adorava as gaivotas. Ele as considerava suas amigas, e frequentemente brincava com elas, fazia carinho nelas, ou simplesmente as observava. Todas as manhãs, centenas de gaivotas vinham lhe fazer companhia em sua caminhada diária, e isso o deixava feliz pelo resto do dia.

Um conhecido de uma cidade próxima, sabendo disso, veio ao homem e disse, “Eu ouvi dizer que as gaivotas adoram você, e que deixam você se aproximar delas sem fugir, ao contrário do que elas fazem com outras pessoas. Quero que você capture duas delas para mim, para eu poder fazer sopa de gaivota na janta. Vou lhe pagar muito bem.”

No dia seguinte, o homem foi para a praia e, como sempre, foi recebido pelas gaivotas, que o rodeavam. Rapidamente, para surpresa das gaivotas, o homem capturou duas aves pelo pescoço, e as levou para seu conhecido da cidade.

Seu conhecido ficou muito feliz de receber as gaivotas, e pagou uma quantidade considerável de dinheiro para o homem, como havia prometido. Assim, à noite, seu conhecido fez sopa de gaivotas, e a sopa era deliciosa. Ele disse para o homem, “Eu tenho um restaurante, e gostaria de servir esta deliciosa sopa de gaivota todo dia. Eu comparei todas as gaivotas que você me trouxer!”

O homem voltou para sua cabana na praia muito feliz, contando o dinheiro que havia ganho e fazendo planos para o futuro. “Se eu fizer isso só por um mês”, ele pensou, “ficarei rico!”

Na manhã seguinte, como de costume, ele caminhou em direção à praia, esperando ser recebido pelas gaivotas e capturar mais duas aves que ele poderia vender para seu conhecido.

No entanto, para sua surpresa, nenhuma das gaivotas se aproximou dele.

“Eu só quero brincar com vocês!”, disse o homem. Mas ainda assim, elas se mantiveram à distância dele, voando para longe quando ele tentava se aproximar delas.

Desolado, ele voltou para casa e resolveu tentar novamente no dia seguinte.

Na manhã seguinte, novamente, nenhuma das gaivotas se aproximou dele. Desesperado, ele até mesmo tentou correr atrás delas, capturando-as à força, sem sucesso.

Ele continuou tentando por uma semana, mas o mesmo se repetia todo dia. Ele não conseguira capturar nenhuma gaivota, já que elas não deixavam ele se aproximar.

Percebendo que o homem não conseguia capturar mais nenhuma gaivota, seu conhecido lhe disse, “Desisto da sopa de gaivota. É muito difícil capturá-las, e meu restaurante demanda regularidade no cardápio. Assim, não comprarei nenhuma gaivota de você, mesmo se você conseguir pegá-las.”

Na manhã seguinte, desolado, o homem andou em direção à praia para sua caminhada matinal. Ele já não queria capturar nenhuma gaivota. Só estava se sentido solitário e arrependido de ter feito o que fez, e precisava de um pouco de companhia.

Ainda assim, nenhuma das gaivotas se aproximou do homem.

Elas não brincaram com o homem, nem deixaram ele se aproximar. Elas mantiveram a distância.

Para sempre.

  • Zeh

    Um de vários “contos infantis sem final feliz”, inspirado por este conto chinês. E também um bom exemplo da (intraduzível) expressão anglo-americana “take things for granted“.

  • Henrique Locatelli

    Demora-se muito para construir a confiança, mas pouco para destruí-la completamente.

  • Zeh

    Demorei pra falar, mas matou a pau, Henrique. Melhor do que só o “take for granted”.